Quando a voz de Dalilah ecoou junto à de Niko na primeira canção, que foi Luar Sangrento, todos estremeceram; era como o encontro de um d***o com um anjo.
Mesmo que Niko fosse o d***o literal, quer dizer, usando a visão limitada humana sobre vampiros, na música era Dalilah, com seu vocal, que parecia corromper a pureza da voz aguda e santa de Nikolas. O grave poderoso dela fazia as canções soarem menos lúdicas pelo efeito celeste da voz solo de Nikolas.
Quando o som dos anjos de Nikolas encontrava as fundas notas terrenas que pareciam vir do mais profundo som das entranhas mais selvagem e guturais da terra, que era a voz de Dalilah, era possível sentir, finalmente, a quebra, o aviso e a corrupção das letras.
Como se o sangue divino se corrompesse com o sangue de um demônio.
Finalmente, Nikolas conseguiu o efeito profano que queria: um anjo antes puro em sua trajetória de queda ao abismo.
Dalilah tinha um ritmo instintivo; apesar de ter errado algumas vezes, conseguiu acompanhar bem as 12 músicas do álbum que ensaiaram do início da noite até duas horas da manhã, sem intervalos, com exceção de ir ao banheiro.
Ela percebeu como Nikolas era perfeccionista só agora. Ensaiaram cada música do álbum duas vezes cada.
Ian queria tanto que a novata tivesse errado, mas a maldita era mesmo boa e acompanhava a voz de Nikolas sem timidez.
Joshua, o tecladista, estava impressionado com a jovem vocalista também.
Todos estavam estarrecidos porque a voz de Dalilah ecoando com a de Raven era como um encontro de opostos que se complementavam. Era como um contraste do sagrado com o profano no barroco. Agora era como se narrasse a queda de um anjo, mas era num arranjo tão melódico, poético e lindo que comovia, dava vontade de chorar e não causava repulsa.
Diana tomou a palavra, mostrando os pelos do braço com o efeito das vozes de ambos até agora:
— Nossa… eu me arrepiei toda com vocês dois juntos. Me senti em outro mundo e estremeci inteira. Faz tempo que não me sinto assim. É um encontro sombrio, santo e gótico. E Dalilah, que voz poderosa é essa? Sem ofensas, Niko… mas nossa nova vocalista parece um leão rugindo, enquanto você é um passarinho.
Diana tinha um nome que assombrava Nikolas, por ser o mesmo nome da criadora vampírica dele. Mas o cabelo dela era cor de fogo, e não prateado como o da maldita que o seduziu; a atitude oposta, pelo menos, tornava o nome apenas uma memória r**m.
— Não ofendeu, Diana. Você está absolutamente certa — concordou Nikolas, orgulhoso. — Também estou satisfeito que consegui o efeito de quebra que eu queria: um anjo caindo na Terra e virando um demônio, mesmo que ainda mantenha sua beleza. A voz se torna corrompida, e o peso da voz dela traz esse tom. É assim que nossas vozes soam.
— Você também destruiu na guitarra — elogiou Dalilah a Diana, tímida, porque tocava violão e sabia como era cansativo. A jovem ajeitou as mangas da camisa de manga cumprida que pegou emprestada de Nikolas, as subindo até os cotovelos. — E fico feliz que você conseguiu o efeito que queria com a minha voz, Nikolas.
Diana sorriu, alegre pelo elogio que não recebia há tempos, porque era só seu trabalho comum na banda, e ia abraçá-la, mas se conteve quando Dom negou com a cabeça, num sinal, porque Niko era extremamente ciumento.
Nikolas soltou um suspiro, notando Diana recuar de abraçar Dalilah com medo dele. Porém, ficou feliz que Diana era bem gentil e não considerou Dalilah uma rival, como Ian.
— Mestre, você pode me dar um segundo do seu tempo? — pediu Dom ao vampiro, num sussurro bem sutilmente.
Niko o estudou e apertou o ombro dele.
— Claro, meu filho querido — respondeu Niko baixinho, para só Dom ouvir. — Como bem sabe, tempo é tudo o que tenho.
Dom sorriu triste, entendendo o fardo dele.
Niko e Dom saíram do estúdio.
Ambos ficaram no gramado no quintal, e Niko observou as estrelas, de braços cruzados, enquanto Dom o sondava, olhando-o de esguelha. Às vezes, Dom se perguntava como era ser eternamente jovem.
— Sei que não é da minha conta, querido mestre. Contudo, recomendo que assuma a jovem antes que os jornais caiam em cima de vocês dois — aconselhou Dom, racional. — Desculpe se estou sendo muito insistente e invasivo; talvez ela seja só um lance seu. Mesmo assim, não seria bom haver mortes porque sente tanto ciúme dela…
— Não está sendo invasivo. Entendo sua preocupação de que eu me descontrole — respondeu Niko, suave. Levou a mão ao ombro de Dom e deu leves tapinhas. — Irei fazer como diz. Eu realmente quero estar com ela. É bom que eu a assuma antes que ela faça sucesso e todos a desejem. É prudente assumir um namoro e evitar incidentes em que eu mate quem pense que pode tê-la além de mim. — Niko não percebeu o quão psicótico ecoava, mas Dom sabia, pela convivência com Niko, que vampiros deviam sentir amor de forma diferente.
Niko, de repente, abraçou Dom e beijou a testa dele, fraterno.
— Sei que não devo ter um filho preferido, mas você sempre me traz orgulho, criança querida — constatou Niko, amoroso e paterno, mesmo com aquele rosto assombrosamente jovial. — Ponderado, corajoso, eficiente e educado. Não tem mais nenhum traço daquela criança imprudente. Sua evolução me comove. Foi bom acompanhar seu crescimento e evolução.
Dom corou fortemente pelos elogios. Niko riu, lembrando-se do adolescente autodestrutivo que ele conheceu naquele mesmo ser, mesmo Dom agora sendo um homem já feito.
— Obrigado pela chance que me deu, mestre — respondeu Dom, humilde.
— Não agradeça, quando foi você mesmo que a honrou e é quem cuida das crianças imprudentes que são Joshua e Ian quando não estou perto — brincou Niko. — Você e Diana são bons irmãos mais velhos. Me orgulham sempre… meus filhos amados.
— A Di ficou preocupada que ela ter tocado sua amada o irritou. A perdoe. Ela é muito expansiva e carinhosa. Materna. Sabe como ela é uma mãe sem filhos depois que o antigo marido dela matou as crianças dela… — soltou Dom. Dom ficou sombrio de repente. Niko também. — Eu gostei de como você o matou, aliás. Tê-lo afogado, como ele fez com os bebês, foi o que Diana precisava para seguir em frente.
— Quando o fiz, achei que Diana ia me temer e não me agradecer. Eu ia apagar a memória dela, mas ela parecia tão tranquila, mesmo vendo minha monstruosidade, que eu não quis mais que ela esquecesse e queria que, pelo menos, vocês dois soubessem quem sou de verdade. Olhando para trás, vejo que fui egoísta.
Dom sorriu.
— Não acho. Obrigado por confiar em nós com seu segredo, amado mestre.
Niko sorriu, comovido e amoroso. Abraçou Dom, enxergando-o ainda como um menininho indefeso.
— Mesmo que eu seja um monstro, meu filho querido… vocês são minhas crianças. Os filhos que escolhi e me deram sentido nesse frio eterno. Se algum dia sentirem que querem a imortalidade, peçam, e eu darei como um presente, porque os amo muito. Apesar de não querer que vivam amaldiçoados como eu, se me pedirem, eu cedo. Prometo.
— Obrigado, querido mestre. Mas, sem ofensa, eu não desejo viver como você — agradeceu Dom, sincero, recusando educadamente. — Fico feliz que encontrou alguém para te deixar um pouco menos solitário nesse mundo. Ela é uma jovem radiante. Desejo sua felicidade suprema hoje e sempre.
Niko tomou um suspiro emocionado ao notar a sinceridade gritando nos olhos cor de mel dele e acabou apertando o ombro de Dom.
— Sei que temos uma regra de os membros da banda não se relacionarem, mas, como eu já a quebrei, você pode e deve dar um passo em direção a Diana — permitiu Niko. — Eu vejo como você olha para ela. Acho que ela também gosta de você. Se minha filha tem que estar com alguém, desejo que seja alguém que perceba o quão preciosa ela é e que nunca a machuque como aquele maldito, que tive o prazer de assassinar com minhas próprias mãos, fez.