A jovem apresentadora de "talk show" analisou, estarrecida, o jovem roqueiro magro e pálido, de calça e jaqueta de couro, ao lado da envelhecida mulher que uma vez ele conheceu na flor da idade.
O hospital cheirava a álcool, produtos de limpeza esterilizadores e pinho. O chão de mármore escuro. As paredes eram brancas. A cama, com armação branca, é ajustável. Os suportes de ferro com soros pendurados e escalpes. As máquinas de medir batimentos. Havia uma televisão sobre um raque vermelho e um cabo nela, junto a um conversor da Sky. Ar-condicionado. Um frigobar e um telefone com linha numa mesa com lista telefônica. Num jornal antigo abandonado podia-se ver escrito: 2002.
Nikolas beijou a mão da avó de Melinda, Lucy, tão solene, lembrando um homem dos anos 40, sentado na poltrona do hospital, branca, ao lado dela, como se tivesse a mesma idade de Lucy, mesmo que seu rosto fosse jovem.
— Você veio, Nikolas.
Melinda analisou a cena entre os dois. Sua avó murmurou, encantada e com os cantos da boca enrugada num sorriso.
Lucy, para a surpresa de Melinda, era quem havia dito aquelas palavras acusatórias e, ao mesmo tempo, aliviadas.
O rapaz de olhar melancólico abriu um belo sorriso à mais velha, que só visivelmente parecia a pessoa mais antiga do quarto.
— Vim, minha amada. Não poderia deixar minha bela garota esperando. — Respondeu calmo, os lábios jovens e sensuais na mão cheia de veias e manchinhas marrons de Lucy, quase que eroticamente.
Melinda pirragueou pelo erotismo, o analisou acariciar o cabelo loiro de Lucy, agora com alguns fios brancos na cabeça, com um cuidado exacerbado, como se a anciã fosse quebrar a qualquer toque mais brusco, mas havia uma sensualidade incômoda no gesto.
— Pare de ser tão charmoso. Não sou mais bonita como antes. — Falou a mulher idosa, constrangida, puxando a mão esquerda livre do soro dos lábios profanos e sensuais dele. — Não queria que me visse assim, meu amado Niko.
— Continua linda para mim, Lucy. — Alegou o rapaz.
— Mentiroso. — Acusou a idosa, magoada, se recusando a olhá-lo, incomodada e envergonhada, com as bochechas coradas. — Mas as coisas são assim. O tempo é um fator c***l. Agora você mudou muito, Niko. Não a jovialidade, claro; me refiro à forma de se portar e se vestir. — A velha disse, com um sorriso resignado e o confrontando. — Essa maquiagem, essas tatuagens… esse seu novo eu. Eu gosto. Era certinho como um lorde antes. Os anos 40 e 50 eram perfeitos para você. Eu achava isso. Até te ver agora.
Nikolas gargalhou muito abertamente. Era uma risada tão viva no que Melinda antes considerava morto que a desconcertou. O analisou cruzar as pernas, uma postura muito de flerte, e era com sua avó, e não com ela.
— Precisava voltar ao mundo humano e, no caminho, ser adorado por eles, minha amada. Se não fosse assim, não seria eu. O rock é a minha chave para ter acesso à humanidade de novo. Peguei essa ideia do livro que você gostava de ler. O vampiro Lestat. Foi genial. — Argumentou sincero, falando com clareza e numa boa altura, como se soubesse da surdez do ouvido esquerdo da avó de Melinda. A mão de sua avó na gelada do rapaz pálido, causando certa repulsa em Melinda, mas Nikolas parecia tranquilo com o toque ousado de sua avó nele.
Melinda parou para observar… que, naquela luz, o rapaz roqueiro que se dizia um vampiro parecia horrendo. Como uma coisa linda, sim, mas tão antinatural. A pele dele parecia capturar a luz para si e reluzir. A maquiagem pesada que atenua um pouco o ar sobrenatural daquela coisa que se fingia de homem, que era um monstro. Melinda se viu aterrorizada.
— Aquele livro me ajudou a entender um pouco de como você se sentia. — Começou Lucy. — Quando te dei de presente, não sabia que o levaria tão a sério ao ponto de virar mesmo um astro de rock como o arrogante do Lestat. — Brincou Lucy.
— Eu precisava de algo assim ou ia enlouquecer e me banquetear da humanidade como antes, querida. Em minhas loucuras de solidão, eu esqueceria que já fui humano e, num rompante, voltaria a matar desenfreadamente. — Confessou Niko como se nada fosse.
Melinda gelou.
— Eu fico feliz que achou um meio de ser aceito, mesmo que eles pensem ser apenas um conceito, Niko. Você se sentia tão só antes. — Melinda analisou, transtornada, o que a sua avó respondeu àquele monstro.
A apresentadora que os assistia abriu os olhos ao máximo.
Nikolas ficou tranquilo sobre Melinda escutá-los, porque podia sempre hipnotizá-la depois.
— Minha neta sempre fala de como você é educado quando vai ao programa dela, de como a dá exclusividade nas entrevistas e que ninguém além dela já te entrevistou. Obrigada por sempre ajudar minha família, mesmo à distância e do seu jeito, Niko. Obrigada. — Agradeceu a idosa, beijando a mão dele, causando de novo repulsa em Melinda.
Nikolas beijou a testa dela com profundo amor. Depois selou os lábios nos de Lucy. Melinda arregalou os olhos, se perguntando se deveria parar aquilo.
Até que a fala dele a desarmou:
— Não tem que agradecer por isso, querida. Eu te amo muito. Muito. Sua neta é muito bem-educada e me sinto sempre confortável nas entrevistas graças a ela.
— Ama mesmo? — Sondou Lucy. Niko assentiu, carinhoso. — Estou tão cansada, Niko. Cansada de viver presa nessa cama e com esses aparelhos. Me dê seu beijo imortal! Me torne sua no meu último suspiro. Seja meu ceifador e me deixe matar sua sede. Seja aquele que bebe meu coração e me deixe me unir a você como um só mais uma vez, mas no amor vampírico e não mais carnal…
— Nunca! — Respondeu Nikolas, amável, mas se levantou da poltrona em alerta, como se o pedido dela o tivesse eletrocutado. — Você me deu alguns dos melhores anos dessa minha vida eterna miserável. Como eu poderia ceifar sua vida, Lucy?
— Estou morrendo, apodrecendo nessa cama de hospital! Estou velha e feia! Você não sente pena de mim? — Exigiu a velha.
— Eu te amo! Como eu poderia te dar meu beijo imortal? Não sente pena de mim ao me pedir algo como isso? — Brigou Nikolas com ela, magoado.
Ofendido, magoado e incrédulo, ele virou de costas para a sua amada.
Melinda viu as lágrimas de sangue no rosto dele e soube, ali, que aquela coisa não era homem.
Nikolas fitou Melinda. Ia apagar a memória dela.
— Ela não vai contar a ninguém sobre você. — Respondeu Lucy, num suspiro sofrêgo. — Deixe que ela se lembre. Pode precisar da ajuda dela no futuro, Nikolas. Por favor! Eu preciso de alguém que saiba a verdade sobre o grande amor da minha vida para eu não morrer como uma velha senil.
Nikolas suspirou. Analisou a jovem mulher que cuidava da idosa e o mirava, atordoada por sua noção das coisas se tornar nada pelas lágrimas horrendas de sangue dele.
Melinda analisou sua avó e o homem que agora sabia ser mesmo um ser sobrenatural. Nikolas respirou fundo, mirando Melinda.
— Eu preciso ir agora, Melinda. Preciso comer algo. Tem que ser direto da fonte. — Avisou. — Cuide dela e fique de olho; ela pode tentar se matar sozinha, já que me recusei. Obrigado por proporcionar esse encontro… sua avó foi alguém importante para mim.
— Você é mesmo um vampiro? — Soltou a entrevistadora, sem ar.
— Acho que você sempre soube de alguma forma, não soube? — Admitiu Nikolas, sem de fato admitir.
Mas Melinda apenas suspirou. Sim, algo dentro dela sempre gritou que ele não era normal.
— Eu não vou apagar sua memória, me desculpe. Sei que saber assim leva qualquer um à loucura.
— Eu sou forte. Eu consigo. Ela precisa que eu saiba que você existe. — Melinda conseguiu responder, superando seu medo.
— Sendo assim, te peço que guarde meu segredo e sempre te darei exclusividade nas entrevistas, e jamais irei ferir sua família na minha fome voraz e na minha paixão perversa.
— Soa como um bom acordo para mim. — Respondeu Melinda, o avaliando, agora entendendo toda a morte em vida que já captou daquele amaldiçoado nas entrevistas que faziam.
Melinda o viu abrir a porta e partir.
— Niko, Niko, volte! Niko, por favor, volte e me alivie dessa dor! — Gritou Lucy, implorando desesperada.
Melinda, mesmo que ainda em choque que existissem mesmo vampiros, foi até a sua agitada avó. Pegou a mão dela, a beijou como uma bênção e não com a sensualidade de Nikolas.
— Vovó, pare de gritar e pedir pela morte e me conte sua história com ele.
A velha abriu os olhos ao máximo e fitou sua neta. Ela se acalmou. Então começou o relato:
— O conheço no fim dos anos 40 e começo dos anos 50. Ele era simplesmente o mais lindo rapaz que já vi.