Capítulo 01 - Anne Morreti
Ane Moretti
O cheiro do papel ainda estava impregnado no ar quando fechei o caderno. Tinta fresca, páginas marcadas por esquemas apressados, setas, palavras sublinhadas com força demais. Neuroanatomia sempre foi meu refúgio. Quando eu mergulhava nos mapas do sistema límbico, o mundo lá fora deixava de existir: dívidas, preocupações, o cansaço constante do meu pai.
Tudo ficava em silêncio. Ou deveria ter ficado. O barulho da porta da frente batendo com violência cortou o ar como um tiro.
Meu corpo reagiu antes da mente. Endireitei na hora, o coração acelerando num aviso instintivo. Meu pai nunca batia portas. Nunca. Não daquele jeito.
— Pai? — chamei, já me levantando do sofá, os livros ainda apertados contra o peito.
Os passos vieram pesados pelo corredor. Lentos. Arrastados. Quando ele surgiu na sala, algo em mim gelou.
Charles Moretti não era aquele homem.
O grande neurocirurgião respeitado em toda a Itália estava curvado, a gravata torta, o paletó aberto como se tivesse sido arrancado às pressas. Os olhos vermelhos, fundos, não tinham mais a firmeza de quem salvava vidas com as próprias mãos. Parecia… menor. Mais velho. Quebrado.
— Anne… — a voz saiu rouca. — Precisamos conversar.
O mundo inclinou alguns graus para o lado errado.
Coloquei os livros sobre o braço do sofá e caminhei até ele. Meu pai se deixou cair na poltrona como se não tivesse mais forças para sustentar o próprio peso. Ajoelhei diante dele, segurei suas mãos geladas.
— O que aconteceu? — sussurrei. — Você está me assustando.
Ele respirou fundo. Uma, duas vezes. Como se estivesse se preparando para atravessar um campo minado. Quando falou, as palavras saíram como estilhaços.
— Eu cometi um erro. Um erro terrível.
Meu estômago afundou.
— Que tipo de erro?
Ele desviou o olhar. Aquilo doeu mais do que qualquer resposta imediata. Quando finalmente me encarou de novo, vi vergonha. Medo. E algo pior: derrota.
— Eu perdi tudo nos jogos. Tudo, Anne. — A garganta dele se moveu com dificuldade. — E eu estou doente. Tenho um tumor no cérebro. Inoperável.
O ar saiu dos meus pulmões de uma vez só.
— O quê…? — Minha voz não parecia minha.
Ele soltou uma risada curta, amarga.
— Um neurocirurgião com um tumor no próprio cérebro. Irônico, não?
As palavras não faziam sentido. Tumor. Jogos. Falido. Meu pai sempre foi cuidadoso. Sempre foi responsável. Sempre me ensinou que controle era tudo.
— Como isso aconteceu? — perguntei, sentindo o chão se afastar. — Quando?
Ele passou as mãos pelo rosto e começou a contar. As noites no cassino. As apostas que pareciam pequenas no começo. A sensação de que ainda dava para recuperar. Até a última noite.
A sala privada. O suor frio. O homem do outro lado da mesa: Don Francesco Vacchiano.
Eu podia ver a cena como se estivesse lá. Meu pai perdendo ficha após ficha, enquanto o outro observava em silêncio, paciente, como um predador que não precisava correr atrás da presa.
— Eu sabia que estava entrando numa armadilha — ele murmurou. — Mas já tinha perdido tudo. Dignidade. Futuro. E ele sabia disso.
Meu coração batia forte demais quando ele continuou:
— Na última rodada… eu te apostei.
Por um segundo, achei que tinha ouvido errado.
— Você… o quê?
Ele fechou os olhos.
— Eu perdi você, Anne. — A voz dele falhou. — Mas me ofereceram uma saída. Disseram que, em troca, você se casaria com o filho dele. Sebastian Mancini:. Em troca disso… eu teria o tratamento. A casa seria mantida. Eu só pensei em salvar alguma coisa.
— Você me vendeu. — As palavras saíram baixas, mas cortantes. — Como uma coisa.
Ele cobriu o rosto, o corpo encolhendo.
— Eu tentei recusar. Disse que você não fazia parte desse mundo. Que era inocente. Que sua mãe…
Ele hesitou.
— Que sua mãe era uma mulher comum, sem família. Que você não pertencia à máfia.
Meu corpo inteiro travou quando ele continuou:
— Foi aí que ele mandou trazer uma pasta. Tudo estava ali. Sua mãe… filha bastarda do antigo chefe da família Bellini. O sangue dela… é sangue deles.
Levei a mão à boca. O ar ficou pesado demais.
— Então é por isso… — sussurrei. — Por isso eles me querem.
— Para selar alianças. Fortalecer poder. Apagar detalhes inconvenientes.
Fechei os olhos. Minha identidade, minha história, minha liberdade… tudo estava sendo esmagado em segundos.
Foi então que a porta se abriu. Não houve campainha. Não houve aviso.
Passos firmes ecoaram pela casa, e três homens surgiram na sala como se aquele espaço já lhes pertencesse.
No centro deles, ele.
Alto. Elegante. Olhar frio como aço polido. Um homem que não pedia permissão para existir.
— Senhorita Moretti — A voz era baixa, controlada. — Sou Sebastian Vacchiano. Arrume apenas o necessário. Vamos sair.
Levá-la. Não conversar. Não perguntar.
Olhei para meu pai. Ele não me encarou. Aquilo foi a confirmação final.
— Eu não vou com você — declarei, o coração disparado. — Eu não sou uma moeda de troca.
Sebastian parou. Os olhos escureceram quando ele se aproximou. Antes que eu pudesse reagir, seus dedos seguraram meu rosto com firmeza. Frio. Dominante.
— Seu pai foi fraco — murmurou. — Eu só vim buscar o que é meu por direito.
— Eu não sou sua.
Ele me soltou com força. Cambaleei e caí no chão. A dor foi pequena perto da humilhação.
Um gesto dele mudou tudo.
Um dos homens sacou a arma e apontou para a cabeça do meu pai.
— Não! — gritei, me levantando. — Por favor!
Sebastian bloqueou meu caminho.
— Três segundos. Um. Dois…
— Eu vou! — berrei. — Eu vou com você!
O silêncio caiu pesado.
Sebastian me observou por alguns segundos, avaliando minha rendição.
— Ótimo. Vá pegar o que precisa.
Enquanto caminhava em direção ao meu quarto, uma única certeza queimava no meu peito:
Eu estava entrando no inferno. E se não pudesse escapar… eu aprenderia a sobreviver dentro dele.