MAIA LIRA VEGAS
Desperto assustada, observando o quarto ao meu redor. Tudo é cinza e sem vida, com poucos móveis: uma cômoda, uma cama desconfortável e um pequeno criado-mudo com um abajur. A atmosfera pesada do ambiente aumenta a minha inquietação.
A situação é desconcertante. Olho pela janela, mas as grades impedem qualquer visão do exterior. O cenário rural indica que estamos longe da cidade. Preocupa-me a ausência da minha irmã. Onde ela estará? A porta está trancada, e os meus apelos por ajuda parecem ecoar sem resposta.
Perdida em pensamentos, tento entender como cheguei aqui e o que pode ter acontecido comigo e a minha irmã. A incerteza paira no ar, aumentando a sensação de confusão e vulnerabilidade.
A angústia toma conta de mim ao perceber a ausência da minha irmã. O ambiente cinza e as grades na janela intensificam a sensação de aprisionamento. Ao tentar sair, descubro que a porta está trancada, o que só aumenta a minha ansiedade.
Desesperada, bato na porta, grito, imploro por socorro, mas o silêncio prevalece. Ninguém responde aos meus apelos desesperados. Cansada e sem respostas, retorno à cama, sentindo-me impotente diante do desconhecido que se desenrola à minha volta. A incerteza sobre o destino da minha irmã e o motivo de estarmos nesse lugar distante da cidade aumentam a agonia que permeia cada pensamento.
Os pensamentos tumultuam a minha mente enquanto tento compreender a reviravolta nos acontecimentos. Reflito sobre a ligação, sobre como a delegacia se transformou de uma maneira inexplicável. A incerteza sobre a veracidade dos eventos consome-me, questionando se fui drogada ou se me envolvi numa trama de tecnologia avançada.
Cada suposição alimenta a confusão e o medo, criando um turbilhão de dúvidas que se entrelaçam com o luto pela perda dos meus pais. A sensação de estar presa num lugar desconhecido, sem respostas claras, amplifica a angústia que domina o meu ser.
Sinto a urgência de planejar minha fuga deste lugar sombrio e desconhecido. Deus, guie-me nesse momento desafiador, conceda-me coragem e discernimento para encontrar uma rota de escape. Cada pensamento é um passo em direção à liberdade, e confio que, com determinação, poderei superar essa situação. Enquanto a incerteza persiste, a minha determinação de encontrar a minha irmã e desvendar esse mistério só se intensifica.
Em meio à incerteza e à solidão deste lugar desconhecido, a busca por respostas se torna ainda mais crucial. A minha mente está repleta de perguntas, especialmente sobre o bem-estar da minha irmã. A ausência do meu celular, uma ferramenta tão comum, aumenta ainda mais a sensação de isolamento. Concentro-me na necessidade de encontrar uma maneira de obter informações e, acima de tudo, garantir a segurança da minha irmã. A cada segundo, a ansiedade cresce, impulsionando-me a agir e desvendar os mistérios desse lugar sombrio.
A porta se abre, e o meu coração acelera enquanto aguardo ansiosamente quem está do outro lado. Para minha surpresa, é a Sra. Zilá. O seu sorriso parece caloroso, mas seus olhos escondem mistérios que não consigo decifrar. Minha irmã, Adhara, entra logo atrás dela, com um olhar assustado, vasculhando o ambiente até encontrar os meus olhos. Um suspiro de alívio escapa dos meus lábios ao vê-la correr na minha direção. Num abraço apertado, buscamos conforto mútuo, enfrentando juntas o desconhecido que nos cerca.
— Venha, você deve estar com fome, ainda mais pelo que passou, venha comer -A Sra. Zilá, com sua voz mecânica e sorriso artificial, convida-me para comer, mas minha relutância mantém-me imóvel. Desconfiança e medo misturam-se, criando uma barreira entre mim e a oferta de suposta hospitalidade. Fico parada, resistindo à ideia de seguir alguém cujas intenções permanecem obscuras.
A minha irmã aperta a minha mão e coloca a outra na barriga, transmitindo o seu receio. Entendi o que ela quis dizer, segurei a sua mão com firmeza e fui à frente, puxando-a junto comigo. A situação é desconcertante, mas a determinação de proteger minha irmã supera o receio que sinto.
Segui a Sra. Zilá, que cantarolava uma música sem mexer os lábios, o que era assustador. O ambiente ao nosso redor parecia surreal, e o canto mecânico da Sra. Zilá só intensificava a estranheza da situação. Eu e a minha irmã trocávamos olhares de confusão, mantendo uma conexão silenciosa que transmitia o nosso desconforto.
Quando saímos do quarto, percebi que o corredor era todo cinza e velho, com várias portas brancas. Respirei fundo e continuei a seguir a Sra. Zilá. Descemos uma escada e notei que estávamos no terceiro andar. O segundo era idêntico ao terceiro. Descemos mais alguns degraus e chegamos ao primeiro andar. De um lado, parecia uma sala de recepção, e do outro, uma sala e uma cozinha. Aqui parecia mais alegre, como uma casa normal e bem chique, nada a ver com os andares acima. Olhei para cima novamente e voltei o meu olhar para a Sra. Zilá, que sorria para mim. Parecia que toda a minha energia havia sido drenada.
— Venham crianças. - Zilá chama, parecendo ser amorosa, mas de uma forma robótica.
Acompanho-a até chegar a uma mesa grande com algumas mulheres que comiam em silêncio. Elas olham-me e depois para minha irmã, arregalando os olhos, como se não acreditassem que tem uma criança aqui.
Sento numa cadeira vaga e coloco a minha irmã no colo. A Sra. Zilá coloca um prato na minha frente, com uma sopa ou um risoto. Olho para o prato com uma expressão duvidosa, a minha irmã faz o mesmo.
— O gosto é melhor que a aparência. - Uma das mulheres comenta, tentando aliviar a tensão.
— Fico feliz em ouvir isso. - Respondo com um agradecimento sincero a moça. Tento manter a compostura, apesar de tudo ao meu redor parecer surreal. A Sra. Zilá continua a nos observar com aquele sorriso estranhamente impassível.
— Falta mais um prato - informo à Sra. Zilá.
— Não, querida, está certo. É um prato para as duas. - Ela sorri, mas percebo que é um sorriso vazio, desprovido de qualquer empatia, como se estivesse apenas cumprindo um protocolo em meio ao meu sofrimento.
Digo baixo. — Ah, entendi. - Murmuro, ainda tentando processar a situação. Olho para minha irmã, preocupada com a fome dela.
— Ih Aia, perdi a fome.
— Como assim? Você precisa comer, amor, para crescer forte. - a minha voz soa mais suave, tentando acalmar a minha irmã. No entanto, a preocupação continua presente em cada palavra que sai da minha boca.
— Com essa gororoba? Eu duvido! - As meninas soltaram uma risada e eu também. O clima estava estranho, mas ao menos um pouco de humor aliviava a tensão no ar.
— Você vai comer, se você não aguentar, eu termino. Tudo bem? - Digo com um sorriso forçado, tentando manter a normalidade diante da estranha situação.
— Tudo bem! Mas você da primeira colherada. - Sorrio e concordo, tentando esconder minha apreensão com um gesto forçado de confiança.
Pego um pouco e coloco na boca respirando fundo, a minha irmã fica-me olhando, quero fazer careta, mas não posso. Engulo com dificuldade, tentando disfarçar o meu desconforto.
— Humm, até que é bom. - Não é não, tem gosto de cola, mas parece, na verdade, arroz com aveia, eu odeio aveia. Minha irmã pega a colher e coloca um pouco da gororoba na boca. Ela faz uma carinha, tentando disfarçar o desconforto, mas acaba soltando uma risadinha.
— É aveia, eu gosto! - sorrio ela comeu mais algumas colheradas, mas forcei ela comer mais um pouco, porque não sei quando vamos comer novamente.
O mais estranho é que a Sra. Zilá ficou parada no canto, sorrindo, mas como se não tivesse mais nenhuma expressão ou sentimento. Olho para ela com uma sensação estranha, como se algo estivesse muito errado, mas não consigo entender exatamente o quê.
A Sra. Zilá leva uma moça à cozinha com a louça utilizada, repetindo o processo com outras, guiando-as até as escadas. A cena é marcada por gestos precisos e expressão serena.
Chegou a minha vez; Acompanho a Sra. Zilá até a cozinha para lavar a louça, a minha irmã segue-me, e ela nos conduz até o quarto. Sinto um desconforto estranho, como se estivéssemos sendo observadas o tempo todo. A cozinha parece normal, mas o clima ao redor está longe de ser acolhedor. O que será que está acontecendo aqui?
— Querida, - Zilá senta na cama com um semblante frio e vago — a sua irmã ficará com você no quarto. Existe um banheiro no final do corredor. Vou deixar toalhas e roupas para ambas.
Cada palavra dela parece ecoar com um tom estranho, como se estivesse recitando algo que aprendeu, mas sem entender completamente o significado.
— Sra., que lugar é esse? O que vocês querem comigo? - questiono, a minha voz trêmula ecoa pelo quarto, expressando confusão e medo. Olho ao redor, buscando respostas nos olhares imperturbáveis ao meu redor.
— Calma querida, logo o Sr. Foxter vai falar com você. - Zilá olha para mim com um sorriso vazio, como se estivesse programada para dar respostas automáticas. A sua afirmação não trouxe conforto, apenas mais incertezas sobre o que está acontecendo.
— Você sabe que isso é sequestro? - As palavras saem da minha boca num tom de desespero, ecoando pelo quarto vazio. A expressão de Zilá permanece inalterada, como se as minhas palavras fossem apenas um ruído de fundo, sem significado para ela.
— As 9h00 da noite trancamos o quarto se não tiver cliente. - Ela levanta-se e sai. As palavras de Zilá cortam o silêncio do quarto, deixando-me perplexa com a frieza da situação. O termo "cliente" ressoa nos meus ouvidos, e o horário estabelecido para trancar o quarto cria um sentimento de claustrofobia. Tudo ao meu redor parece cada vez mais surreal e assustador.
— Cliente? A revelação de Zilá ecoa pelo quarto, e o meu coração acelera diante do choque. Grito em desespero, pois a realidade que se desenha diante de mim é terrível. Uma casa de prostituição? A minha mente se turva, e a preocupação com a minha irmã aumenta exponencialmente.
A minha irmã está ali, parada junto à janela, observando o mundo lá fora. A expressão no rosto dela reflete uma mistura de curiosidade, confusão e, talvez, um toque de esperança.
Encaro o céu através da janela, rememorando a última vez que vi os meus pais. O meu pai tinha prometido compartilhar histórias fascinantes sobre o mundo, e como eu desejava ouvir as suas narrativas vívidas. Um aperto no peito se mistura às lágrimas que ainda não ousei derramar.
Fixo o meu olhar no céu, indagando-me sobre o que aguarda a minha vida daqui para frente. Saio desse devaneio, limpando uma lágrima que teimosamente escorreu.
— Aia? - ela chama-me, os seus olhos buscando respostas e consolo.
— Sim, Adhara? - Volto a atenção para minha irmã, encarando os seus olhos curiosos.
— É verdade sobre o papai e a mamãe? - ela indaga, seu tom carregado de tristeza, enquanto os seus olhos refletem a preocupação e a angústia que permeiam a pergunta.
— Sim, querida, é verdade. - Sinto um aperto no coração ao ver a expressão de tristeza nos olhos da minha irmãzinha, agacho-me até a altura dela, abraço a minha irmã, sentindo a dor profunda que nos atinge.
— Pode deixar, Aia. - Dara sussurra, segurando a minha mão com firmeza. Os seus olhos expressam preocupação e carinho, enquanto tenta oferecer algum consolo diante da terrível verdade que acabamos de descobrir.
— É eu que deveria falar isso, pirralha. - Um sorriso choroso se forma nos meus lábios, tentando trazer um leve alívio em meio à tristeza que nos envolve.
A porta se abre, revelando a presença da Sra. Zilá, que traz consigo uma muda de toalhas e uma bolsa grande contendo algumas roupas, pelo menos é o que imagino. E ela retira-se, exibindo o seu sorriso gélido.
— Vamos mocinha, tomar um banho? - Dara concorda, e eu levanto-me, pegando as toalhas e examinando o conteúdo da bolsa. Noto que ela deixou a mochila de Adhara no canto, com os seus lápis coloridos.