A Kim falou séria:
— Vem aqui, é rápido!
Ela se aproximou, ficou em pé atrás do sofá. A Kim começou a falar:
— Nós temos que voltar pra casa, essa semana tem a audiência daquela menina da sua escola e já me ligaram pra falar sobre o seu tio. Em poucos dias vão exumar o corpo dele e com certeza sua mãe vai estar por lá.
— Tá todo mundo ocupado e preocupado, o Kobayashi não aceitou simplesmente comprar o resort e os meus sogros nem sabem de nada ainda, mas estão sem condições pra ajudar, são valores muito altos em um prazo muito curto. A gente quer saber se pode contar e confiar em você? Vamos precisar de ajuda!
O Levi falou:
— Todos nós já brigamos algum dia, somos como irmãos, mas a gente nunca se abandona e você não pode ficar com raiva pra sempre. Eu mesmo não fiz nada grave!
— Você chega a ser hipócrita às vezes, me punindo porque eles não quiseram te contar do Ben, eu fui o primeiro a falar que você devia saber, eu fui seu amigo e, pra falar a verdade, você também sabe decepcionar e muito.
Ela ficou encarando ele séria, respondeu indo sentar ao lado da Kim:
— Na verdade, eu posso ficar com raiva pra sempre. Não é você que decide o quanto cada coisa me machuca, já parou pra pensar que estar sozinha não era, nunca foi o maior dos meus problemas?
— Nada se compara a estar com vocês e, independentemente do que qualquer um de vocês fale, eu não me sinto mais parte disso.
O Noah entrou na sala, o Ramon estava cabisbaixo, mexendo no celular. A Lara entrou falando que ia sair, o Ramon perguntou onde ela ia, foi atrás dela no quarto. O Noah sentou no bar, falou que queria sair também. O Levi foi beber com ele, falando de festas.
A Rebeca estava olhando para uma porta de vidro, pensando em sua mãe, foi ficando com os olhos cheios de lágrimas sem nem perceber, era raiva. A Kim falou baixinho, tocando o braço dela afetuosamente:
— Oi, quer conversar a sós? Você está melhor?
A Rebeca derramou algumas lágrimas, segurou a mão da Kim e falou baixinho:
— Quer minha ajuda pra mais o quê? Contou pra eles?
Ela disse apreensiva:
— Não, é lógico que não. A gente precisa levantar um dinheiro rápido, eu não posso participar diretamente e nem viajar muito, vou vender umas propriedades e vamos movimentar os negócios, contrabando, lavagem de dinheiro. Tá pensando em quê?
Ao fazer a pergunta, a Kim soltou a mão. A Rebeca falou irônica:
— O que foi? Não precisa mais de mim? Tá com medo de eu te prejudicar?
Irritada e triste, a Kim falou:
— Não, eu tô com medo de te prejudicar! Quer trabalhar com a gente? Um tempo?
A Rebeca perguntou o que era lavagem de dinheiro. O Ramon estava voltando, pegou uma bebida e sentou no sofá com elas. A Kim falou:
— É o procedimento usado para disfarçar a origem de recursos ilegais. Quando alguém ganha dinheiro de forma ilícita, por exemplo, com crimes como tráfico de d.r.o.g.a.s, contrabando, sequestro e corrupção, chantagens, não pode simplesmente sair torrando a grana. Ainda mais com uma dívida como a nossa!
O Ramon falou:
— As tipologias da lavagem de dinheiro, empresa de fachada já temos, como as oficinas que eu te contei, empresa fictícia também temos, salão de beleza, lojas de bolsas, boates, um clássico, laranja que é, por exemplo, pôr algo no nome de uma pessoa próxima, como a Estela ou Iolanda, uma casa avaliada em um milhão ou um carro de trezentos mil. Importações fraudulentas, com os contatos certos a gente gasta menos e nas notas colocam mais.
— Super faturamento como o salário dos funcionários, ou o seu, a Estela tirava quanto no papel? Três? Quatro? Até cinco com hora extra noturna e bonificação. Exportações, estruturação. Venda fraudulenta de imóveis, utilização de produtos de seguradoras.
A Rebeca falou:
— Por que lavagem de dinheiro é crime?
O Noah respondeu:
— O crime ocorre quando o agente introduz na economia dinheiro oriundo do crime com aparência lícita. Portanto, se criminaliza a prática de lavagem de dinheiro, pois causa prejuízos econômicos e sociais de forma devastadora. No caso, o governo cria isso, ele quer os impostos de tudo, se você tem uma renda muito alta, precisa pagar um pouco pra ele.
O Ramon falou:
— Você compra um carro à vista, guarda dinheiro a vida toda pra isso, mas sempre tem que pagar por ele anualmente e, quanto melhor o carro, mais alto o licenciamento, IPVA. Mesmo se o seu dinheiro for limpo, é injusto, por isso eu só roubo dos ricos! E do governo, claro.
A Kim falou:
— Um método fácil muito utilizado, compra de joias e obras de arte. Normalmente, as pessoas que comercializam objetos de altíssimo valor, como joias, pedras preciosas e obras de arte, não questionam a origem do dinheiro recebido. Depois é só revender as peças e limpar a grana!
A Rebeca falou encarando o Ramon:
— O anel, é claro, dez mil em um anel.
Ele disse debochado:
— E você não aceitou.
O Levi falou servindo amendoins pra eles todos:
— Se for pego, a pena é reclusão de três a dez anos e multa.
A Rebeca não pegou o amendoim. A Kim falou:
— Você comeu hoje? Está gelada, abatida!
Ela praticamente ignorou, só levantou os ombros, tipo tanto faz. A Lara falou irritada:
— E aí, vamos ficar fazendo aula a noite toda? Eu tô com fome! Vamos jantar fora, né?
O Noah falou que era uma ótima ideia. A Rebeca falou que ia se trocar, subiu para o quarto, entrou para tomar banho, pensativa e curiosa pra saber mais sobre os negócios deles. Colocou um shorts jeans e uma blusa branca com flores amarelas, sentou com a porta da sacada aberta, ficou olhando pra fora, admirando os raios e o tempo fechando. A Kim bateu na porta, foi entrando, falou se aproximando:
— Nós vamos pedir comida e ficar em casa, quer alguma coisa especial? Lanche? Pizza? Qualquer coisa!
Com aquele olhar apático, vazio, a Rebeca nem se mexeu, disse que não e agradeceu. A Kim se abaixou na frente dela, falou intrigada:
— Você fica doente quando me ajuda? Me explica melhor como isso funciona!
A Rebeca falou que não acontecia nada. A Kim respondeu intrigada:
— Está mentindo, só não entendo o porquê. Amanhã cedo vamos pra casa, vou marcar médico pra você!
O Levi foi entrando no quarto, falando:
— Vocês vão demorar? Vamos fazer pedidos separados! Eu vou na casa da Estela buscar umas coisinhas. Se fosse nos velhos tempos, eu ia comprar!
A Lara entrou também, falou deitando na cama:
— Como se cem reais fizessem alguma diferença, você vai emprestar porque não quer ir em loja essa hora comprar.
Ele concordou e saiu. A Kim foi logo atrás, dizendo que alguém ia precisar ir no mercado e ela ia buscar o Toni na Estela. A Rebeca continuou lá fora e a Lara na cama dela. O Ramon foi até lá, parou na porta, falou para a Lara:
— Você fez o que eu pedi?
Ela disse irritada que ainda não. Ele respondeu:
— Não tá levando a sério, né? Sempre só olhando pro seu lado, se eles caírem, a gente vai junto, seu nome tá no meio e não é pouco!
Ela se levantou, começaram a discutir. Ela falou que não queria vender nada, que não era justo. Ele pediu pra ela falar baixo e ressaltou que ia ser pior se não fizesse. Ela falou enfrentando ele:
— Eu juro por Deus que, se algo r**m acontecer, se eu perder tudo, nunca mais vou falar com você e o Ben vai comigo, se você for preso, vai morrer pra gente. Eu só quero sair disso, o problema agora é meu porque deixaram tudo nas mãos do Armando? Conta logo tudo pra eles e vamos embora!
O Ramon não tinha visto que a Rebeca estava lá, deu um empurrão na Lara, fechou a porta e respondeu irônico:
— Ah, é? E vai cuidar dele como? Você cala essa sua boca.
Ela avançou pra cima dele, o enfrentando, falou que ele mesmo não cuidava do menino e que deveria decidir quem era a família dele de verdade, porque, quando o bicho estivesse pegando, o Noah ia cuidar da Kim e ela dele, da Kiara. O Ramon falou que era pra ela parar, porque podiam ouvir e ela mesma estaria se colocando em risco se abrisse a boca. Ela o empurrou e falou:
— Você é um covarde!
Ele empurrou ela de volta e falou muito bravo:
— Eu sou covarde? Para de ser v.a.g.a.b.u.n.d.a e de sair com qualquer um! Eu só tô tentando proteger você, acha que o seu destino vai ser diferente do dela? Hã? Ou até pior! Quer saber, faz o que achar melhor, f.o.d.a-se! E você não vai mais chegar perto do Ben sem mim.
Ela continuou xingando, falando palavrões. Já irritada, a Rebeca se levantou e falou da sacada:
— Vocês podem ir se pegar pra lá? Já chega, né? Saiam do meu quarto.
O Ramon tomou um susto quando a viu, falou para a Lara:
— Você sabia que ela estava ouvindo? É claro que sabia, fez de propósito!
A Lara ignorou e saiu do quarto, bateu a porta. A Rebeca falou:
— O que você está escondendo deles?
O Ramon se aproximou, olhou a sacada e encostou, disse que não era da conta dela e que ela devia ficar de boca fechada. Ela falou encostando ao lado dele:
— Se não vai acontecer comigo o que aconteceu com ela e com a Lara, o mesmo. Tá falando do Armando? Da Aisha?
Ele sorriu irônico, ficou quieto, irritado. Ela disse encarando ele:
— Eu não gosto desse cara, ele me intimida, tenho aversão a ele, na verdade. Sabia que ele me deu aquela d.r.o.g.a no Natal?
— Acho que ele colocou na minha bebida também, porque eu só tomei um e o médico disse que eu havia ingerido uma grande quantidade.
Desacreditado, o Ramon perguntou se aquilo era mesmo verdade. Ela disse chateada:
— É. E ninguém além de você sabe disso, foi bem fácil acreditar que eu estava perdida, tão louca, por vontade própria, né?