Encontro

3501 Words
Keller demorou tempo demais para chegar ao escritório naquela manhã. Para um homem como ele — bem-sucedido, respeitado, temido e frequentemente citado nas colunas sociais — aquilo já era um sinal de que o dia nasceria errado. Nada parecia funcionar. O trânsito estava infernal, os semáforos demoravam mais do que o normal e até as pessoas que cruzavam seu caminho carregavam no rosto um mau humor quase contagioso, desses que parecem anunciar desastre. Era um dia de merda. E Dom Keller sabia reconhecer um. Ele não era, definitivamente, o tipo de homem naturalmente m*l-humorado. Não. Quando queria, ele era o próprio mau humor encarnado. Carregava uma arrogância silenciosa, afiada, moldada por anos de vitórias, sobrenome pesado e dinheiro suficiente para tornar o mundo mais maleável. O status o precedia. O sobrenome abria portas. O dinheiro fechava bocas. Tudo isso tornava sua presença ainda mais peculiar — e perigosa. Na semana anterior, Dom havia levado exatos três meses para concluir um acordo milionário. Três meses de reuniões, ameaças veladas, cláusulas obscuras e jogos de poder. Defendeu alguém que definitivamente não era tão inocente quanto alegava, mas, no fim, isso pouco importava. A verdade era maleável quando passava pelas mãos de um Keller. Os tabus ficavam de lado. A moral, quando conveniente, também. O que prevalecia era o nome. Para um Keller, isso sempre foi mais do que suficiente. O Direito era seu ofício. Seu campo de batalha. Seu território natural. Depois de um tempo, nada mais o abalava. Audiências tensas, acusações públicas, julgamentos transmitidos pela mídia — tudo se tornara rotina. Dom Keller era quase imbatível em um tribunal. Sabia exatamente quando atacar, quando silenciar e quando sorrir. Aprendera cedo que a justiça não premiava os justos, mas os estrategistas. Ainda assim, naquela manhã, algo estava fora do lugar. Ele não havia tocado no telefone. Não abriu o computador. Ignorava o jornal, como se, instintivamente, evitasse qualquer notícia que pudesse atravessar seu caminho antes que estivesse pronto. Só percebeu que o problema ia muito além do trânsito quando o carro reduziu bruscamente a velocidade diante do prédio onde funcionava seu escritório. Havia flashes. Muitos. Jornalistas se aglomeravam como predadores famintos. Câmeras erguidas. Microfones estendidos. Policiais tentavam, sem sucesso, impedir que a rua se transformasse em um espetáculo grotesco. A fachada imponente do prédio Keller & Associados parecia pequena diante do caos. — Que merda está acontecendo aqui?! — rosnou, mais para si mesmo do que para o motorista. Não teve tempo de organizar os pensamentos. Assim que abriu a porta do carro, as vozes se elevaram de forma sufocante, atropeladas, desesperadas por uma declaração. — Senhor Dom! — Doutor Keller! — É verdade sobre a construtora? — O senhor já sabia? Então veio a pergunta que fez o mundo parar. — Senhor Dom, como está lidando com a morte do seu irmão na noite passada… e com o escândalo da construtora? O ar pareceu abandonar seus pulmões. Dom Keller parou no meio do movimento. O barulho ao redor tornou-se distante, abafado, como se estivesse submerso. Seus olhos escuros encontraram o rosto magricelo de um jornalista de óculos tortos e barba malfeita. Por um segundo, pensou que aquilo só podia ser mais uma das inúmeras confusões em que seu irmão se metia para chamar atenção — mais um escândalo barato, mais uma tentativa desesperada de arruinar, ainda que indiretamente, a reputação da família. Ele era um bundão. Sempre fora. Imaturo, irresponsável, um peso constante sobre os ombros de Dom. Parecia um choque. Sem dor e sem razão. Mas ainda era da família. — Como lidou com a morte dele? — insistiu outro repórter. Dois flashes estouraram direto em seus olhos, cegando-o por um instante. Um tom acinzentado invadiu seu campo de visão. Quando piscou, viu uma jovem magra, vestida com uma blusa azul simples, segurando um gravador com as mãos trêmulas. O olhar dela misturava curiosidade e algo próximo do medo. Dom ficou imóvel por exatos dois segundos. Dois segundos suficientes para se xingar mentalmente por não ter pegado o telefone. Por não ter respondido às mensagens. Por ter acreditado que poderia controlar tudo apenas com sua presença e seu nome. O que estava acontecendo? Foi pego de surpresa. Seu irmão estava morto. O garoto magricelo e que odiava o mundo. Aquilo ecoava em sua mente como uma frase m*l formulada, impossível de aceitar. Morto… e envolvido em um escândalo grande o bastante para trazer a polícia e a imprensa à sua porta antes mesmo das nove da manhã. Dom endireitou a postura. O instinto falou mais alto. O Keller que os tribunais conheciam despertou. O homem que jamais demonstrava fraqueza ergueu o olhar, fechou o semblante e preparou-se para enfrentar o que quer que estivesse prestes a vir. Mas, por dentro, algo começava a ruir. Porque Dom Keller podia enfrentar acusações, processos e inimigos poderosos. Podia sustentar mentiras bem construídas e verdades m*l contadas. Podia sobreviver a quase tudo. Exceto à sensação incômoda de que, naquele dia, sua vida cuidadosamente controlada estava prestes a escapar de suas mãos. Que sua família seria exposta mais uma vez. Era vergonhoso. E, dessa vez, não haveria acordo capaz de consertar uma morte. Era uma crise enorme. Assim que atravessou a porta de vidro do escritório, Dom Keller sentiu o peso do caos se deslocar de fora para dentro. O barulho dos jornalistas ficou para trás, mas a sensação de cerco permaneceu. Antes que pudesse dar três passos completos, Ellen surgiu à sua frente como sempre surgia nos piores momentos: silenciosa, eficiente e pronta para conter desastres. Ellen era baixa, magra, usava óculos de grau tão espessos que distorciam levemente seus olhos. Não chamava atenção, e talvez por isso fosse perfeita no que fazia. Era o tipo de mulher que lidava com qualquer crise — inclusive aquelas que Keller ainda nem havia sido informado. — O senhor está bem? — perguntou, num tom profissional demais para ser casual. Dom afrouxou o nó da gravata, respirando fundo. — Aquilo lá fora… — começou, a voz mais baixa do que pretendia. — Isso é verdade, Ellen? Ela não respondeu de imediato. Apenas ajustou a prancheta contra o peito, um gesto mínimo que Dom conhecia bem demais. — Eu sinto muito — disse, por fim. Aquelas três palavras bastaram para que a pior parte da memória viesse à tona. Não a infância dividida. Não os momentos raros de cumplicidade. Dom lembrou do irmão como ele realmente fora nos últimos anos: imprudente, inconsequente, sempre à beira de um abismo que acreditava jamais cair. — Como? — foi tudo o que conseguiu dizer. — O senhor vai entender o motivo de tantos jornalistas assim que entrar — respondeu Ellen. — Mas preciso ser honesta: o senhor tem um problema enorme esperando na sua sala. Dom fechou os olhos por um segundo. — Meu pai está aqui? Ele deve está maluco. Ellen negou com a cabeça. — Não. É pior que o seu pai. Essa frase o acompanhou pelo corredor inteiro, ecoando como um aviso. Dom Keller não era um homem facilmente abalado, mas conhecia bem a hierarquia dos seus medos. Se Ellen dizia que era pior, então era. Perto dali, acusada de um crime que não cometeu, não havia comido e nem dormia e agora havia um medo constante de ouvir uma sirene parar diante de sua porta e levá-la de novo. O terror de uma prisão injusta era sufocante, e a sensação de impotência tornava tudo ainda mais c***l. Sua vida havia virado de cabeça para baixo — de novo. Os jornais não economizaram palavras. Fraude milionária. Esquema contábil. Lavagem de dinheiro. Termos grandes demais para uma mulher que sempre fizera questão de trabalhar dentro das regras. Aos vinte e oito anos, Alice via sua carreira construída com esforço ser desmontada em manchetes sensacionalistas. Ela não tinha culpa. Sabia disso. Mas também sabia que a verdade nem sempre bastava. Foi por isso que tomou a decisão mais difícil e, ao mesmo tempo, mais óbvia. Ela iria atrás da única pessoa que realmente poderia ajudá-la. Talvez fosse um erro. Talvez fosse arrogância acreditar que ele aceitaria sequer vê-la. Mas Alice não conhecia ninguém melhor em Nova York. Sabia exatamente quem Dom Keller era — e sabia de uma forma íntima demais para ser ignorada. Tão profundamente que, se fechasse os olhos, ainda conseguia lembrar do perfume dele. Um cheiro amadeirado, marcante, impossível de confundir. Algo que o tempo jamais conseguiu apagar. Fazia mais de seis anos que não o via. Não lia os jornais da cidade com atenção desde que partira. Não sabia quando ele havia se tornado um advogado executivo temido, defensor de grandes nomes envolvidos exatamente em crimes como aquele do qual ela agora era acusada. Sabia apenas que Keller fizera tudo o que fizera em nome da própria família — inclusive sacrificar o que sentia. Ela se lembrava do homem sagaz. Do temperamento difícil. Do silêncio que intimidava mais do que gritos. Mas Alice não se lembrava só disso. Havia outras coisas. Coisas que doíam demais para serem revisitadas sem cuidado. Pensou muito antes de sentar naquela sala. Talvez fosse um aviso. Talvez fosse Deus dizendo que aquilo era errado. Que procurar Dom Keller era mexer em algo que deveria permanecer enterrado. Ainda assim, permaneceu. As mãos suavam levemente sobre a bolsa, o coração batendo rápido demais para alguém que fingia calma. A secretária que a atendera era uma mulher de meia-idade, postura firme, olhar atento. Pediu que aguardasse caso o assunto fosse realmente urgente. Alice confirmou. Era urgente. Era tudo o que ela tinha. Não eram nem oito da manhã quando foi deixada sozinha, cercada por paredes elegantes, quadros caros e um silêncio pesado. Cada segundo ali parecia um teste. Um julgamento prévio. Para Alice, aquilo não era apenas importante. Era urgente. Tão urgente que a obrigou a engolir todas as lembranças, uma a uma, junto com cada gota de orgulho que ainda insistia em sobreviver dentro dela. Não sobrou muito. Talvez quase nada. Ela ainda conseguia ver a cena com nitidez c***l. O marido estendido no chão. O corpo rígido demais para alguém que deveria estar dormindo. A arma repousando sobre o peito dele como uma resposta óbvia demais. Por um instante, Alice acreditou que ele tivesse feito aquilo consigo mesmo. Que, de alguma forma torta, tivesse escolhido o próprio fim. O desespero veio rápido. Cortante. Ela se aproximou, o coração batendo descompassado, tentando entender o que seus olhos viam. Talvez estivesse errada. Talvez fosse um engano. Mas, ao afastar a pistola com a mão trêmula, tudo se tornou claro demais. Dois tiros no peito. Alice gritou. Um grito alto, cru, rasgado, que ecoou pelo apartamento e voltou para ela como um golpe. Recuou instintivamente, escorregando no próprio medo, desviando do sangue que manchava o chão. O ar estava pesado. Um perfume forte — caro, masculino — misturado ao cheiro inconfundível de pólvora queimada. Era o retrato final de um casamento fracassado. Arranjado. Forçado. Um acordo travestido de união. Não houve tempo para pensar em liberdade. Nem alívio. Não houve espaço para sentir qualquer coisa além do pânico. Em poucas horas, a vida que Alice tentara organizar com tanto esforço desmoronou diante dela. E, antes mesmo que pudesse compreender o que acontecia, já estava sendo empurrada para o papel de suspeita. Ela precisava de ajuda. E precisava agora. Procurar Dom Keller não era uma escolha confortável. Era uma necessidade. A única pessoa que, ela acreditava, ainda poderia escutar sua versão dos fatos — mesmo sendo o irmão do homem que agora estava morto. Mesmo sendo parte da mesma família que a havia engolido e cuspido quando ela deixou de ser útil. Falar com ele era urgente de um jeito que fazia sua cabeça girar. Um turbilhão de perguntas a sufocava enquanto aguardava naquela sala sofisticada. Seria mesmo uma boa ideia procurar alguém que ela não via havia seis anos? Um homem que a deixara com palavras medidas demais, dizendo que aquilo era o melhor para os dois? Ela não era egoísta. Nunca fora. Entendeu o motivo dele. Talvez tenha entendido até demais. Não guardava ódio. Não era um amor vingativo. O que sentira por Dom sempre fora profundo demais para se transformar em ressentimento barato. Mas agora não se tratava de sentimentos. Alice precisava de defesa. Precisava sair daquela situação sem carregar uma culpa que não era sua. Lutara demais para construir sua carreira, para ter seu nome respeitado. Não permitiria que o difamassem, que a transformassem em manchete sensacionalista ou que a jogassem em uma prisão por um crime que claramente não cometera. Ela era inocente. Ainda assim, sentia o gosto amargo de cada acusação na boca. Cada insinuação nos jornais, cada comentário m*****o, cada silêncio conveniente. Seus bens haviam sido bloqueados. Contas congeladas. E nenhum advogado parecia disposto a assumir o caso. Não por falta de provas, mas por medo. Estavam sendo avisados para não pegá-lo. Era perigoso. Para eles. Para ela. Por isso estava ali. O único homem que parecia capaz de enfrentar aquilo tudo tinha o mesmo sobrenome do morto. O mesmo sangue. O mesmo passado que ela tentava esquecer. — O que você está fazendo, Alice? — sussurrou para si mesma, as mãos apertadas no colo. Não teve tempo de chorar. Não se permitiu. As lágrimas ficariam para depois, se sobrevivesse àquilo. Keller não era mais o homem que ela conhecera. Não poderia ser. Agora era alguém distante, frio, meticuloso até a crueldade. Um advogado poderoso, respeitado, temido. Seis anos sem uma única palavra trocada. Seis anos tentando apagar o que existiu entre eles. Alice ergueu a cabeça e observou o ambiente ao redor. Tudo ali exalava sofisticação e controle. Keller sempre soubera sustentar o peso do sobrenome que carregava, mantendo a família de pé, custasse o que custasse. Ele não iria ajudá-la. Essa certeza doeu mais do que ela esperava. Doeu porque estar ali já era humilhante o suficiente. Porque precisar dele era admitir o quanto ainda estava vulnerável. Alice se preparava para se levantar, para sair dali antes que se quebrasse de vez, quando ouviu o som que fez seu mundo parar. O elevador. As portas se abrindo lentamente. Seu coração falhou uma batida inteira. A imagem que surgiu a seguir foi a do homem mais intenso que ela já conhecera. Alto, postura rígida, expressão fechada. O olhar carregado de cansaço e controle. O mesmo homem que um dia a tirara do casulo, que a fizera acreditar em promessas grandes demais para sobreviver à realidade. O único que jurara o mundo a ela. E depois arrancara tudo. Dom Keller. Era ele. Mais velho. Mais duro. Mais perigoso. E, ainda assim, absurdamente familiar. Alice sentiu o ar faltar. O passado inteiro ameaçando desabar sobre ambos naquele exato instante. Porque, naquele momento, não eram apenas um advogado poderoso e uma mulher acusada de homicídio. Eram duas pessoas ligadas por um amor que nunca teve permissão para existir. E agora, pela ironia mais c***l de todas, o destino os colocava frente a frente no pior cenário possível. Justamente quando fugir já não era uma opção. Alice observou o terno de três peças que moldava o corpo dele com perfeição. Milhares de dólares costurados sob medida. O cabelo escuro estava impecavelmente penteado, os olhos atentos como lâminas afiadas e a boca — ainda carnuda, ainda perigosa — parecia guardar palavras demais. Ele estava mais forte do que ela se lembrava. Mais bonito. Mais viril. Um homem moldado pelo poder, pela responsabilidade e pela perda. Dom Keller era de uma beleza inigualável. E, naquele instante, Alice teve certeza de que talvez aquela não fosse a melhor saída. Seu rosto ganhou um rubor involuntário, quente demais para ser contido. O corpo simplesmente paralisou onde estava. Baixou o olhar, tomada por uma mistura c***l de medo, timidez e vergonha. Sentia-se pequena diante dele. Vulnerável. Keller avançou alguns passos até a bancada e virou-se para Ellen. — Pode nos deixar — pediu, num tom calmo demais para ser casual. A secretária sorriu com gentileza profissional. Era fiel. Discreta. Do tipo que resolvia problemas antes mesmo de eles explodirem. — Vou cuidar do que for necessário — respondeu, já se afastando. Dom não esperou a porta se fechar completamente. Olhou por cima do ombro e então a viu com clareza. O corpo estava sentado no sofá de couro. Os cabelos pretos caíam para frente, escondendo parte do rosto. A postura denunciava cansaço. Ela estava bem vestida — saia lápis, saltos médios, elegância contida. Tinha belas pernas. Mas foi outra coisa que prendeu seu olhar. A pulseira. O pulso fino. O metal discreto. Aquela pulseira. O ar deixou seus pulmões por um segundo. Dom se virou devagar, ficando de frente para a mulher. Alice respirou fundo, reunindo coragem para encarar o antigo amor — ou talvez o único homem capaz de protegê-la de uma cela fria e de um futuro manchado para sempre. Ela ergueu o rosto. Os olhares se encontraram. Seis anos afastados não os haviam preparado para aquilo. Não foram o tipo de casal que teve recaídas. Não guardaram rancor. Não cultivaram ódio. Não. O rosto fino e bonito surgiu diante de Dom como uma aparição. Ele abriu e fechou a boca, incapaz de formular qualquer coisa coerente. Por um instante, acreditou estar alucinando — fruto de um dia longo demais, de uma notícia pesada demais. Mas então veio o arrepio. E, com ele, a sensação antiga de pertencimento. O frio no estômago. Algo que ele não sentia havia anos. Ela estava ali. Os lábios ainda tinham o mesmo tom avermelhado. As bochechas levemente rosadas quando sentia vergonha. Os olhos carregavam sombras profundas, sinais claros de noites sem dormir. Dom percebeu que ainda a analisava como antes — cada detalhe, cada gesto, cada silêncio. Alice tomou fôlego e se levantou. Caminhou dois passos na direção dele e parou. Cara a cara. A camisa branca estava perfeitamente presa à saia lápis. Usava um relógio simples e a pulseira que os pais haviam lhe dado antes de morrerem. Ele lembrava. Lembrava de tudo. Os cabelos estavam soltos, pretos e brilhantes, emoldurando um rosto que ele jamais conseguira apagar da memória. — Olá, Keller — disse ela, a voz baixa, controlada demais. A boca de Dom ficou seca. Nunca pensara que a veria de novo. Ainda conseguia se lembrar da última vez em que aquele rosto esteve diante dele — molhado de lágrimas, pedindo que ficasse. Quase implorando para que não a machucasse. — Alice — respondeu, num fio de voz. Ele a amou como quem precisa de oxigênio. Sentiu mais com a presença dela do que com a notícia da morte do próprio irmão. Ainda nem tinha digerido o escândalo por completo. Um Keller morto. Uma empresa envolvida em fraude. Uma esposa acusada. Mas nada disso importava naquele segundo. Ela era seu pecado. Sua proibição. — Alice… Ela quis abraçá-lo. Quis correr até ele e se esconder naquele corpo que conhecia tão bem. Um dia prometida a um irmão, apaixonada pelo outro. Seu coração nunca se recuperara disso. Pensara que o casamento seria diferente. Mas, entre quatro paredes, conheceu a capacidade de um homem tornar uma mulher infeliz. Viveu desprezo, frieza, carência. E, ainda assim, ali, diante de Dom, seu coração bateu diferente pela primeira vez em seis anos. — Eu não matei seu irmão — disse ela, de uma vez. Dom analisou cada palavra. Direta. Urgente. Nada sutil. Ela não sabia que ele ainda não tinha todas as informações. — Primeiro — ele começou, respirando fundo —, estou surpreso por você estar aqui. Segundo, acabei de saber sobre a morte do Charlie. Ainda estou tentando entender tudo. Mas acredito que, se você me explicar… — lançou um olhar rápido para a janela, onde sabia que os jornalistas aguardavam — …ou explicar a eles, talvez eu consiga compreender. Alice engoliu o nó na garganta. — Ontem, no começo da noite, cheguei em casa e encontrei Charlie caído no escritório. Havia uma pistola e muito sangue. Duas marcas de bala no peito. Achei que ele tivesse se matado. Mas alguém entrou lá e fez aquilo. Hoje de manhã, na delegacia, fui acusada de uma fraude milionária na mineradora. Dizem que desviei quase dez milhões. Eu fazia a contabilidade há seis anos. Nunca fiz nada de errado. Charlie sabia disso. Agora dizem que ele descobriu e eu atirei nele. As câmeras não funcionavam. A arma era dele. Eu não roubei. Eu não matei ninguém. Dom permaneceu em silêncio por alguns segundos. — Certo — disse, por fim. — Temos problemas sérios. Mas como posso ajudá-la? Ele era meu irmão. Vou ter que limpar a bagunça dele… e ainda não sei o que vem depois. Alice respirou fundo. — Você pode fazer tudo — respondeu, firme. — Você é um Keller. O Keller mais velho. Não é isso? E, naquele instante, Dom Keller entendeu que aquela não seria apenas a defesa mais perigosa da sua carreira. Seria a mais pessoal. — Acha que por eu comer você, anos atrás, isso te faz acreditar que eu deva alguma coisa pra você agora?
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