O ar gelado da madrugada de Afragola chicoteava meu rosto. Meus dedos, já dormentes pelo frio de março, apertavam com força o tecido de seda azul contra as minhas costas, tentando manter o que restava da minha dignidade.
Eu corria sobre a terra úmida, tropeçando em raízes que pareciam garras saindo do chão, mas a dor nos pés era um detalhe insignificante diante da imagem de Ettore Rossi me esperando no topo da escadaria.
Regina que se virasse. O pai dela, o velho Sorrentino, era um homem influente e vizinho de propriedade, e embora fosse rígido, tinha uma adoração cega pela filha que sempre a salvava do pior.
Eu, por outro lado, não tinha para onde correr se a porta da Villa Rossi estivesse trancada por dentro. Eu não tinha um pai para me proteger; tinha apenas um marido que me via como parte do seu patrimônio, um objeto que poderia abandonar ou quebrar.
Quando os portões de ferro forjado da Villa surgiram sob a luz pálida dos lampiões da rua, meu coração deu um solavanco.
Os guardas do turno — homens de feições brutas que Ettore mantinha em sua folha de pagamento para garantir que nada entrasse ou saísse sem seu aval — se empertigaram ao me ver surgir da escuridão.
Eles me reconheceram imediatamente. O metal pesado do portão rangeu ao ser aberto, um som que ecoou pelo vale silencioso como um alarme.
Passei por eles sem olhar para os lados, mas senti o peso dos seus olhos sobre mim. Eles notaram meu cabelo desfeito, os sapatos sujos de lama e a forma como eu escondia as costas.
Eu sabia que, assim que eu cruzasse o pátio, um sinal seria trocado. O Don saberia que a Signora Rossi retornara tarde, sozinha e desarrumada.
O pátio de cascalho estava vazio. O espaço onde o Alfa Romeo de Ettore costumava descansar era um retângulo de sombras. Ele ainda não havia chegado de Nápoles.
Um alívio momentâneo, frio como o sereno da noite, percorreu minha espinha. Entrei pela porta lateral, subindo as escadas de mármore com a agilidade de um espectro, evitando as áreas onde a luz da lua entrava pelas janelas altas.
No quarto, a escuridão era um refúgio. Despi-me com uma pressa febril, jogando o vestido azul no fundo do armário, escondido sob pilhas de linho.
Não olhei no espelho. Eu não queria ver as marcas, não queria ver o rastro de vida que aqueles homens haviam deixado em mim.
Lavei o rosto com a água gelada da bacia de porcelana, tentando apagar o cheiro mascuino que parecia ter impregnado meus poros.
Vesti a camisola de linho branco, abotoada até o pescoço, e me enfiei sob as cobertas pesadas, fechando os olhos e rezando para que o sono me levasse antes que o terror chegasse.
Mas o sono não veio. O que veio, vinte minutos depois, foi o som inconfundível do motor roncando na subida da colina.
O Alfa Romeo rugiu no pátio, um som agressivo que parecia rasgar o tecido do silêncio. Ouvi a porta do carro bater com uma violência desnecessária, indicando que a noite em Nápoles não havia sido de bons negócios ou de diversão leve.
Os passos de Ettore na escadaria eram pesados, ritmados pela cadência corriqueira de um bêbado que ainda mantém o equilíbrio por puro hábito de comando.
A porta do quarto se abriu com um solavanco. O cheiro de gim barato e fumaça de tabaco inundou o ambiente instantaneamente, sufocando o aroma de lavanda dos lençóis.
Ele não acendeu a luz. Caminhou até a cama e, em um movimento brusco, arrancou os lençóis de cima de mim, deixando meu corpo exposto ao ar frio.
— Onde você estava? — A voz dele era um rosnado baixo, a pronúncia arrastada pelo álcool.
Sentei-me lentamente, tentando manter a voz firme apesar do tremor que começava a tomar conta das minhas mãos.
— Fui ao circo com a Regina — respondi, encarando a silhueta dele no escuro.
— Eu já falei para você não sair com aquela p**a — ele cuspiu a palavra, dando um passo para mais perto. — Os Sorrentino estão criando uma meretriz, e eu não quero minha esposa sendo vista ao lado de uma criatura sem qualidade.
— A família Rossi e os Sorrentino são amigas, Ettore — rebati, o desespero me dando uma coragem estúpida. — O senhor é amigo do pai dela, Regina não é o que o senhor diz...
— Não me responda! — O grito dele pareceu fazer os vidros das janelas vibrarem.
Ele levou a mão à cintura. Ouvi o som metálico da fivela sendo aberta e o chiado do couro sendo puxado das alças da calça com rapidez, meu marido sempre tinha pressa quando uma correção estava a caminho.
Meu estômago se revirou, eu m*l havia me recuperado da última vez.
— Você acha que pode sair assim, circulando por Afragola como uma qualquer? — Ele perguntou, enrolando o cinto na mão, deixando apenas a ponta livre. — Você acha que eu não sei o que as pessoas dizem? Você é minha. E se você não aprende pelo respeito, vai aprender pela dor.
Eu não tentei fugir. Não havia para onde ir. Encolhi-me de lado no colchão, puxando os joelhos contra o peito e escondendo o rosto entre os braços em posição fetal.