Capítulo 18: Viviana

554 Words
O brasileiro caminhava com uma leveza que fazia meus passos parecerem pesados e desajeitados sobre a terra batida. Ele não olhava para trás, mas eu sentia que ele media cada centímetro de distância que eu mantinha entre nós. — Onde pensa que está me levando? — Perguntei, ajeitando o casaco enquanto passávamos por uma fileira de gaiolas vazias que cheiravam a bicho e feno úmido. — Para um lugar onde o sobrenome Rossi não paga nem o preço de uma pipoca — ele respondeu sem diminuir o passo. Ele parou de repente perto de uma tenda de lona amarela, onde o som de vozes em russo e risadas abafadas escapava pelas frestas. — Você vive trancada naquela colina, Viviana. Aposto que nunca viu como os astros descansam. — Eu não deveria estar aqui — murmurei, mais para mim mesma do que para ele, sentindo o peso da fita no bolso. Ele parou e se virou, os olhos brilhando com uma diversão que me irritava. — Mas está. Atravessou o escuro porque o silêncio daquela casa começou a fazer barulho demais, não foi? — Ele deu um passo para perto, diminuindo o espaço. — Deixe de ser tão dura. O Don não está aqui para contar quantos minutos você leva para respirar. — Vim porque Regina se perdeu por aqui — menti, sustentando o olhar enquanto sentia o calor subir pelo pescoço. — Só quero encontrá-la e ir embora. — Mentira — ele riu baixo, um som que pareceu vibrar no meu peito. — Você veio porque a curiosidade é maior que o seu bom comportamento. Eu te desafio, Signora. Venha comigo. Vamos passear por onde os meus iguais vivem. Conheça as pessoas que não têm medo de cair porque sabem que não há nada no chão que as segure. — Por que eu faria isso? — Porque você quer ver o que acontece quando as luzes se apagam — ele estendeu o braço, apontando para o corredor de carretas iluminadas por lanternas de óleo. — Se não gostar do que vir, a trilha das oliveiras continua lá. Eu mesmo te levo até o portão. Olhei para a mão dele. Não havia as joias de Ettore, apenas calos e a pele queimada de sol. Era uma oferta que eu não deveria aceitar. Eu deveria estar em casa, escondida sob as cobertas, mas o modo como ele me olhava, como se soubesse exatamente que a minha "preocupação com Regina" era apenas uma desculpa, me prendia ali. — Se eu for, você para com os truques? — Perguntei. — Prometo usar as mãos apenas para te mostrar o caminho — ele sorriu, um sorriso largo que mostrava dentes claros. — Por enquanto. Ele não esperou por uma resposta. Simplesmente começou a andar em direção à primeira caravana, onde uma mulher de cabelos ruivos e curtos costurava um figurino de lantejoulas sentada num banco de madeira. — Venha, Viviana. Afragola é pequena demais para o que você tem guardado aí dentro. Respirei fundo, sentindo o ar gelado queimar o fundo da garganta. Dei o primeiro passo atrás dele, sentindo que, a cada metro que avançávamos para dentro daquele acampamento, a Signora Rossi ficava um pouco mais pálida e distante. Eu estava mentindo para ele, mas principalmente para mim, fingindo que aquela caminhada era apenas um erro de percurso.
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