O ar cortante da noite entrava nos meus pulmões enquanto descíamos a trilha das oliveiras. Regina ia à frente, movendo-se com uma agilidade que eu tentava imitar para não tropeçar nas raízes retorcidas que surgiam sob a luz das estrelas.
A cada passo, a Villa Rossi ficava menor, uma mancha de autoridade encastelada no topo da colina.
Quando as luzes coloridas das lonas surgiram, o som dos metais e dos tambores já ecoava pelo vale. Entramos no terreno do circo como se fôssemos parte da multidão, escondidas sob lenços e casacos escuros.
Eu sentia o peso da fita vermelha no meu bolso, um pequeno amuleto que me ligava àquela loucura.
Pagamos as entradas e nos esprememos nos fundos da arquibancada. O espetáculo estava no fim. O cheiro de pipoca e serragem era mais forte agora, misturado ao calor humano que se acumulava sob a lona principal.
Meus olhos percorriam freneticamente o picadeiro, buscando a pele bronzeada, os sorrisos largos ou a frieza técnica dos brasileiros.
Uma trupe de acrobatas chineses saltava de um lado para o outro, seguidos por palhaços que arrancavam gargalhadas do público. Mas os irmãos não estavam lá.
— Eles já se apresentaram? — Sussurrei para Regina, a voz carregada de uma frustração que eu não conseguia esconder.
— Acho que sim, Viviana.
Um vazio amargo se instalou no meu peito. Eu tinha arriscado a pele, literalmente, para vê-los sob os holofotes, para tentar entender o que tinha acontecido naquela tenda de espelhos sob uma ótica mais segura.
O apresentador, com seu casaco vermelho desgastado, anunciou o encerramento e a multidão começou a se levantar, espremendo-se em direção às saídas.
— Vamos, mas fica perto de mim — Regina avisou. — Não vamos se perder de novo.
Eu a segui, sentindo-me ridícula. Eu era a Signora Rossi e tinha cruzado uma trilha de lama para nada. A decepção era uma queimação que quase rivalizava com a dor nas minhas costas. Fui empurrada pela massa de camponeses e operários que saíam em direção à escuridão.
— Viviana! Por aqui! — Ouvi o grito de Regina à minha esquerda, mas o fluxo de pessoas era como uma correnteza.
Tentei me mover na direção dela, mas o espaço entre nós se abriu. Foi quando senti. Uma pressão firme logo acima do meu cotovelo, e outra mão espalmada nas minhas costas, tocando exatamente o ponto onde o linho escondia as feridas.
— Regina! — Tentei chamar, mas minha voz foi abafada pelo som da banda que tocava a marcha final.
No fim, não nos perdemos dessa vez. Fomos separadas.
Eu fui praticamente guiada, o corpo atrás do meu era sólido e quente, agindo como um escudo contra a multidão. Em vez de ser levada para a saída principal, fui conduzida para uma a******a lateral da lona, uma fresta que levava para a área das carretas e das tendas menores, longe dos olhos do público.
O barulho das pessoas começou a diminuir, substituído pelo silêncio das sombras entre as estruturas de madeira e ferro. Quando a pressão nos meus braços cedeu, eu já não estava mais na rua de terra batida que levava à cidade.
Estava no corredor escuro que levava aos alojamentos dos artistas. Virei-me bruscamente, o coração batendo na garganta. Ele estava lá, bloqueando o caminho de volta com sua estatura.