Capítulo 7: Viviana

858 Words
A claridade que passava pelas frestas da persiana de madeira parecia furar minhas pálpebras. Tentei mudar de posição, mas um puxão seco nas costas me fez travar. O lençol de linho, grudado na pele pelas crostas de sangue que secaram durante a madrugada, repuxou as feridas. Fiquei imóvel, encarando o teto alto com os afrescos desgastados. O lado esquerdo da cama estava vazio, mas o vinco no colchão e o cheiro acre de gim e tabaco ainda estavam lá. Ettore tinha saído. Ele sempre saía cedo depois de uma "correção", como se as obrigações com o contrabando de cigarros e a cobrança de proteção nos pomares pudessem lavar a imundície que ele deixava no quarto. Forcei meu corpo a sentar. A dor era uma queimação constante, um calor que não combinava com o frio de oito graus que fazia fora das cobertas. Cada movimento para descascar o linho da minha camisola exigia uma respiração curta. Quando finalmente me libertei, vi os borrões avermelhados no tecido branco. Caminhei até o banheiro, arrastando os pés no mármore gelado. O reflexo no espelho da pia não era mais o da mulher vidrada da tenda de espelhos. Meus olhos estavam fundos, rodeados por olheiras que a palidez destacava. Eu parecia uma estranha habitando um corpo que já não me pertencia totalmente. Abri a torneira e deixei a água encher a bacia de porcelana. Molhei uma toalha pequena e comecei a limpar as costas, tateando às cegas. O contato da água fria com os cortes abertos me fez morder o lábio inferior até sentir o gosto metálico. Eu precisava limpar tudo antes que a governanta batesse à porta. Na Villa Rossi, as paredes tinham ouvidos e as criadas reportavam tudo ao Don. Voltei para o quarto e abri o armário. Lá no fundo, amassado sob as pilhas de lençóis, o vestido de seda azul me encarava. Toquei o tecido. Ele ainda carregava o rastro do perfume barato do circo, algo que lembrava resina e liberdade. Por um segundo, a pressão da mão do brasileiro no meu ombro voltou à memória, não como uma dor, mas como uma eletricidade que Ettore nunca seria capaz de gerar. Uma batida rápida na porta me sobressaltou. — Viviana? Sou eu — a voz de Regina atravessou a madeira, alta e sem paciência. — Um momento — respondi, vestindo um robe de veludo pesado por cima da camisola suja. Destranquei a porta e ela entrou, trazendo o ar gelado do corredor e o cheiro de lavanda. Regina usava um conjunto de lã verde e parecia não ter dormido, mas seus olhos brilhavam. — Você sumiu ontem. Eu procurei por você depois que o Heracles me levou para os fundos — ela disse, sentando-se na ponta da cama. — O que aconteceu? Ettore chegou antes? Eu não respondi de imediato. Caminhei até a janela e observei os homens de Ettore conferindo o carregamento de caixas de tabaco em um dos caminhões lá embaixo. — Ele chegou — falei, mantendo as costas retas apesar da agonia. Regina mudou o semblante. O sorriso dela murchou enquanto ela analisava minha postura. Levantou-se e parou atrás de mim. Senti a hesitação dela antes de tocar meu ombro. Quando puxou levemente a gola do meu robe, soltou um suspiro pesado. — Aquele porco... — ela sussurrou, a voz carregada de um nojo que eu não tinha forças para expressar. Afastou a mão como se temesse me machucar mais. Regina caminhou até a minha penteadeira, mexendo nos meus frascos de perfume como se quisesse levar algum. — O circo vai ficar em Afragola por pelo menos três semanas — ela disse, tentando mudar o tom para algo mais leve, embora seus olhos ainda estivessem fixos no meu reflexo. — Ontem foi só a estreia. Eles ainda têm muito chão antes de seguirem para o norte. Virei-me para ela lentamente, sentindo o robe de veludo pesado contra as feridas. Saber que eles estariam ali, tão perto e por tanto tempo, trouxe uma sensação contraditória. Era um alívio que parecia perigoso. — Um daqueles irmãos, você sabe, dos trigêmeos... o que parece mais sério — Regina continuou, aproximando-se novamente. A voz dela caiu para um murmúrio conspiratório. — Ele me parou no caminho de volta, perto da trilha das oliveiras. Perguntou se a Signora Rossi tinha chegado bem. Senti o sangue sumir do meu rosto. — Ele perguntou por mim? — Minha voz saiu quase inaudível. — Ele não apenas perguntou. Ele me deu isso — ela tirou do bolso do casaco uma pequena fita de cetim vermelha e a estendeu para mim. — Ele disse que o espetáculo está apenas começando. E que, se você quiser, podem terminar o que começaram ontem. Segurei a fita entre os dedos. Eu sabia exatamente de qual dos três ela falava: o que me trancara na tenda de espelhos. O que tinha me dado a escolha de continuar ou parar. Regina estava com o homem musculosos, não tinha visto nada. Ela estreitou os olhos, cruzando os braços e pendendo a cabeça para o lado. O silêncio no quarto tornou-se subitamente denso. — O que vocês não terminaram de fazer, Viviana?
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