A claridade que passava pelas frestas da persiana de madeira parecia furar minhas pálpebras. Tentei mudar de posição, mas um puxão seco nas costas me fez travar. O lençol de linho, grudado na pele pelas crostas de sangue que secaram durante a madrugada, repuxou as feridas.
Fiquei imóvel, encarando o teto alto com os afrescos desgastados. O lado esquerdo da cama estava vazio, mas o vinco no colchão e o cheiro acre de gim e tabaco ainda estavam lá.
Ettore tinha saído. Ele sempre saía cedo depois de uma "correção", como se as obrigações com o contrabando de cigarros e a cobrança de proteção nos pomares pudessem lavar a imundície que ele deixava no quarto.
Forcei meu corpo a sentar. A dor era uma queimação constante, um calor que não combinava com o frio de oito graus que fazia fora das cobertas.
Cada movimento para descascar o linho da minha camisola exigia uma respiração curta. Quando finalmente me libertei, vi os borrões avermelhados no tecido branco.
Caminhei até o banheiro, arrastando os pés no mármore gelado. O reflexo no espelho da pia não era mais o da mulher vidrada da tenda de espelhos. Meus olhos estavam fundos, rodeados por olheiras que a palidez destacava.
Eu parecia uma estranha habitando um corpo que já não me pertencia totalmente.
Abri a torneira e deixei a água encher a bacia de porcelana. Molhei uma toalha pequena e comecei a limpar as costas, tateando às cegas.
O contato da água fria com os cortes abertos me fez morder o lábio inferior até sentir o gosto metálico. Eu precisava limpar tudo antes que a governanta batesse à porta. Na Villa Rossi, as paredes tinham ouvidos e as criadas reportavam tudo ao Don.
Voltei para o quarto e abri o armário. Lá no fundo, amassado sob as pilhas de lençóis, o vestido de seda azul me encarava. Toquei o tecido. Ele ainda carregava o rastro do perfume barato do circo, algo que lembrava resina e liberdade.
Por um segundo, a pressão da mão do brasileiro no meu ombro voltou à memória, não como uma dor, mas como uma eletricidade que Ettore nunca seria capaz de gerar.
Uma batida rápida na porta me sobressaltou.
— Viviana? Sou eu — a voz de Regina atravessou a madeira, alta e sem paciência.
— Um momento — respondi, vestindo um robe de veludo pesado por cima da camisola suja.
Destranquei a porta e ela entrou, trazendo o ar gelado do corredor e o cheiro de lavanda. Regina usava um conjunto de lã verde e parecia não ter dormido, mas seus olhos brilhavam.
— Você sumiu ontem. Eu procurei por você depois que o Heracles me levou para os fundos — ela disse, sentando-se na ponta da cama. — O que aconteceu? Ettore chegou antes?
Eu não respondi de imediato. Caminhei até a janela e observei os homens de Ettore conferindo o carregamento de caixas de tabaco em um dos caminhões lá embaixo.
— Ele chegou — falei, mantendo as costas retas apesar da agonia.
Regina mudou o semblante. O sorriso dela murchou enquanto ela analisava minha postura. Levantou-se e parou atrás de mim. Senti a hesitação dela antes de tocar meu ombro. Quando puxou levemente a gola do meu robe, soltou um suspiro pesado.
— Aquele porco... — ela sussurrou, a voz carregada de um nojo que eu não tinha forças para expressar.
Afastou a mão como se temesse me machucar mais. Regina caminhou até a minha penteadeira, mexendo nos meus frascos de perfume como se quisesse levar algum.
— O circo vai ficar em Afragola por pelo menos três semanas — ela disse, tentando mudar o tom para algo mais leve, embora seus olhos ainda estivessem fixos no meu reflexo. — Ontem foi só a estreia. Eles ainda têm muito chão antes de seguirem para o norte.
Virei-me para ela lentamente, sentindo o robe de veludo pesado contra as feridas. Saber que eles estariam ali, tão perto e por tanto tempo, trouxe uma sensação contraditória. Era um alívio que parecia perigoso.
— Um daqueles irmãos, você sabe, dos trigêmeos... o que parece mais sério — Regina continuou, aproximando-se novamente. A voz dela caiu para um murmúrio conspiratório. — Ele me parou no caminho de volta, perto da trilha das oliveiras. Perguntou se a Signora Rossi tinha chegado bem.
Senti o sangue sumir do meu rosto.
— Ele perguntou por mim? — Minha voz saiu quase inaudível.
— Ele não apenas perguntou. Ele me deu isso — ela tirou do bolso do casaco uma pequena fita de cetim vermelha e a estendeu para mim. — Ele disse que o espetáculo está apenas começando. E que, se você quiser, podem terminar o que começaram ontem.
Segurei a fita entre os dedos. Eu sabia exatamente de qual dos três ela falava: o que me trancara na tenda de espelhos. O que tinha me dado a escolha de continuar ou parar.
Regina estava com o homem musculosos, não tinha visto nada. Ela estreitou os olhos, cruzando os braços e pendendo a cabeça para o lado. O silêncio no quarto tornou-se subitamente denso.
— O que vocês não terminaram de fazer, Viviana?