Capítulo 4

1580 Words
Kaylee Allison Palmer desce cambaleando as escadas que levam ao espaço de eventos abaixo do andar principal do Slovan Club, joga as mãos para o ar e sorri quando a banda começa a tocar “Bohemian Rhapsody”. — Obrigada por virem à minha festa de aniversário! — ela grita por cima da música, e a plateia aplaude. Não há um pingo de ironia em sua expressão enquanto desce o resto da escada e dá um abraço apertado em seu marido grande e forte, beija seu garotinho e sua garotinha na bochecha e os abandona para ir ao bar. Ela tem trinta anos — trinta anos — e ainda ganha festas de aniversário todo ano como se estivesse perpetuamente presa nos seus doces dezesseis. Eu teria sorte se ganhasse um pedaço de bolo. Enquanto isso, a querida Allison Palmer ganha o espaço para eventos no Slovan Club, que é basicamente o Valhalla da elite. É o clube social mais exclusivo do país, talvez do mundo, e se existe algo ainda mais exclusivo, eu nunca ouvi falar. O que é totalmente possível, já que quase nunca sou autorizada a entrar aqui, muito menos em um lugar melhor. Tento não me deixar levar pela amargura. Allison Palmer está feliz, rindo e cercada por amigos e familiares. Seus filhos parecem estar se divertindo roubando refrigerantes extras e correndo pela pista de dança. Até mesmo seu marido está sorrindo e, pela primeira vez, não bebendo demais. Toda a disfunção desta família está escondida sob champanhe caro, um buffet delicioso e o ambiente de um bar clandestino vintage, completo com lâmpadas Tiffany de valor inestimável e vitrais que não levam a lugar nenhum. Fico de lado, sozinha, segurando uma taça de vinho branco com três cubos de gelo — juro que o barman parecia querer vomitar quando pedi gelo, e ele relutantemente colocou exatamente três cubinhos minúsculos — e observo meus primos se misturando, apertando mãos, sorrindo, se adaptando. E eu? Eu apenas me pergunto como seria me encaixar. Eventos familiares são sempre os mais difíceis. É fácil ignorar o quanto me sinto deslocada quando estou na minha própria casa, onde posso escapar de conversas estranhas ou olhares de desaprovação. Mas aqui, estou totalmente exposta, e todos podem ver como destoôo desse mar de loiras e morenas magras. Trabalhei duro ao longo dos anos para entrar em forma, e tenho orgulho de dizer que estou com a melhor aparência que já tive, mas nunca serei esguia como elas. Talvez sejam os genes do meu pai, não sei. Sou uma garota com curvas, quadris, p****s e coxas, e levei muito, muito tempo para aceitar minha própria imagem. Ainda não estou completamente pronta, mas estou fazendo o trabalho e me sinto bem comigo mesma pela primeira vez em muito tempo — talvez pela primeira vez na vida, já que algumas das minhas memórias mais antigas envolvem meus primos me ridicularizando por não me parecer com eles. Agora, esperam que eu sorria, ria, ande por aí e aja como se tudo estivesse lindo e maravilhoso, como se eu não desprezasse Allison Palmer por tornar minha vida um inferno quando criança. Nenhum dos meus primos foi particularmente gentil comigo, mas Allison se esforçava para ser c***l. Nunca soube o motivo. Talvez houvesse algo quebrado dentro dela, ou talvez eu fosse apenas um alvo fácil. De qualquer forma, festas de família são uma droga, e eu normalmente as supero ficando fora do caminho, bebendo algumas taças de vinho e indo embora assim que for apropriado. Mas esta noite, eu tenho uma missão. Um homem emerge da multidão e vem em minha direção. Meu estômago se contorce. Ele é pouco mais alto que eu, extremamente magro, vestido com um terno azul-marinho, usando óculos grossos e ostentando uma linha fina de cabelo ralo. Deve ter trinta e poucos anos, talvez quarenta, mas é difícil dizer sob essa iluminação fraca. O nome dele é William Jax, e ele está na lista do meu avô. — Ei, uh, Kaylee, certo? — William sorri para mim por cima de sua bebida. Cerveja, como todos os outros homens aqui. Gosto que ele finja que não foi enviado pelo meu avô para falar comigo, como se isso fosse totalmente espontâneo. Não é. Eu praticamente consigo sentir o olhar do meu avô queimando em nossas costas. — Prazer em conhecê-lo — digo e aperto sua mão, embora já tenhamos sido apresentados há alguns anos em uma festa como esta. O motivo exato, no entanto, me escapa agora. — Allison Palmer sabe como dar uma festa de aniversário para si mesma. — Ele sorri sem jeito. — Você, uh, também dá festas assim? Eu mantenho meu sorriso estampado no rosto. Quero dizer, minha família prefere vender meus rins do que gastar um centavo em uma festa para mim, mas apenas balanço a cabeça educadamente em vez disso. — Eu não sou do tipo festeiro. — Ah, totalmente. Eu também não. Bem, na verdade, uma vez, quando eu estava com meus irmãos, você sabe, meus irmãos de fraternidade, nós fizemos uma festa selvagem… Fico ali e ouço uma história maravilhosamente fascinante sobre uma grande festa que esse cara e sua fraternidade deram provavelmente há vinte anos, e já estou procurando uma desculpa para fugir. Ele não é terrível, nem um pouco, mas m*l está olhando para mim e sua história se arrasta sem absolutamente nenhum sentido. Tudo o que consigo pensar é que ele só está aqui falando comigo porque o avô o enviou, e nossa família ainda tem muita influência no mundo dos sangues-azuis de elite. Exceto que, se esse cara está aqui, solteiro e nesta sala, isso significa que há algo profundamente errado com ele, assim como há algo profundamente errado comigo. No momento em que consigo fingir que preciso de outra taça de vinho e me retirar da conversa, estou ocupada analisando o quão r**m esse pesadelo vai ficar. No bar, peço a mesma coisa — vinho branco com gelo — e juro que o barman fica verde e parece que quer vomitar. Ele pega e não reclama, mas, cara, ele me faz pagar por isso. Eu me viro, com uma nova bebida garantida, e começo a observar a multidão — quando outro homem aparece ao meu lado. — Ei, você é Kaylee Lawrence. Eu sou Jason Varley. Seu avô disse que deveríamos nos conhecer. — Ele sorri para mim, dentes brancos e retos demais brilhando, sua cabeça como um quadrado perfeito, seu queixo como uma borracha, seu terno um tamanho menor que o ideal, agarrando-se aos seus músculos absurdos. Percebo que ele é facilmente uma polegada mais baixo que eu, e eu não sou alta. — Prazer em conhecê-lo — digo e vejo o avô nos encarando do outro lado da sala. Minha conversa com Jason dura um pouco mais — ele me faz perguntas dessa vez e não se gaba de antigos keggers de fraternidade, pelo menos, mas eu invento uma desculpa para tomar um ar depois de dez minutos de conversa fiada. Isso não dura muito — assim que estou sozinha, outro pretendente em potencial aparece, e fica óbvio que essa festa tem um motivo oculto. É como uma rodada de encontros rápidos, só que eu nunca me inscrevi e não tinha ideia de que isso iria acontecer. Mais três homens conversam comigo em rápida sucessão. Há o gerente de fundo de hedge que só fala sobre si mesmo, o pintor que admite livremente que só está fazendo isso porque adoraria se insinuar para minha família e o banqueiro que se gaba de trabalhar oitenta horas por semana. Quando subo as escadas para o salão principal do Slovan Club e me escondo perto da enorme árvore que cresce bem no meio do prédio, estou exausta e esgotada e pensando que essa coisa de casamento é um grande erro. Algo deve estar errado comigo. Nenhum desses caras era particularmente horrível — o pintor era, na verdade, meio bonito — mas eu não sentia absolutamente nada por eles, nenhuma faísca, nenhuma excitação. Mas por que eu preciso disso? Isso deveria ser um arranjo, nada mais que um acordo comercial, algo para conectar minha família com outra família proeminente, algo para deixar o avô feliz comigo pela primeira vez. Eu poderia escolher o menos terrível do grupo e talvez até mesmo começar a gostar dele depois de um tempo, mas a ideia de passar minha vida com um homem que eu particularmente não gosto tanto assim, gerando seus filhos e me dedicando a eles enquanto ele desperdiça seus dias e noites em clubes como este porque não há nada de interessante para ele em casa, parece suicídio em câmera lenta. Sempre quis um romance de conto de fadas. Sei que é tolice, mais do que um pouco infantil, mas me perdi tantas vezes em filmes antigos da Disney, comédias românticas e alguns romances açucarados quando era mais jovem e miserável, que algo disso acabou enraizando dentro de mim. Quero aquela necessidade ardente, aquela faísca, a excitação de um amor que parece inevitável. Mas nunca senti isso com ninguém. E definitivamente nunca sentirei se me vender para o primeiro homem com um sobrenome respeitável que simplesmente concorde em se casar comigo. E, no entanto, é exatamente isso que o avô quer. E é exatamente isso que vou fazer. Só que, agora que estou diante dessa realidade, encaro-a como um peso esmagador no peito. E não consigo ignorar o fato de que isso simplesmente não me parece certo.
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