Kaylee
— Kiki Lawrence.
A voz me arranca da minha autopiedade. Nenhum dos outros homens usou meu apelido — o nome que eu realmente prefiro — e essa voz soa familiar. Ergo o olhar e vejo um homem vindo em minha direção. Alto, bonito, vestindo um terno preto impecável. Cabelos e olhos escuros. Uma pequena cicatriz enrugada no canto esquerdo da boca, como se guardasse um segredo.
Tatuagens espreitam sob a gola da camisa e no pescoço. O maxilar esculpido e os braços fortes fazem algo vibrar dentro de mim.
Cameron Rockwell está ali, um copo de uísque em uma mão e a outra enfiada no bolso.
Faz anos desde a última vez que vi esse homem. Desde a escola, quando ele estava na mesma turma de Allison Palmer. Ouvi falar dele, claro — a rixa entre nossas famílias é lendária, atravessando gerações — mas nunca mais o encontrei pessoalmente.
O Cameron da escola sempre foi grande, musculoso e bonito. Mas esse Cameron? Esse é um problema.
Ele parece dobrar a luz ao seu redor, como se absorvesse as sombras, deixando tudo ao seu redor um pouco mais opaco. Ainda tem aquela aura magnética, aquela presença que faz as pessoas quererem estar perto dele. Só que agora, há algo a mais. Uma intensidade que me faz sentir pequena, como se ele enxergasse através de mim. Como se o mundo inteiro fosse uma piada que só ele entende. Talvez seja a cicatriz. Talvez seja a forma como ele sorri com os olhos.
— Cameron — digo, limpando a garganta. — Ei, uh... eu esqueci que você e Allison Palmer se conheciam.
Ele ri e gira a bebida entre os dedos.
— Fomos para a Baker Prep juntos, mas eu não diria que nos conhecíamos. Não vou à festa. Acho que metade dos seus primos e tios tentaria me matar se eu ousasse pisar lá embaixo.
— Ah, certo. A rixa.
— A rixa — ele repete, inclinando a cabeça, sempre com aquele sorriso despreocupado, como se achasse essa a conversa mais divertida do mundo. — O que você está fazendo escondida aqui?
Por um segundo insano, considero dizer a verdade. Mas opto por jogar pelo seguro.
— A multidão estava me sufocando.
— Não te culpo. Uma sala cheia de Lawrences? Parece o pior lugar do mundo.
Eu rio, apesar de mim mesma.
— Você realmente acredita nessa coisa de feudo?
— Sinceramente? Nem faço ideia do motivo.
— Eu também não. O avô tentou me explicar uma vez, mas parecia só um monte de ressentimentos velhos que ninguém mais se importa.
— É assim que nossas famílias funcionam. Tudo fachada.
Ele ergue o copo.
— Um brinde ao aniversário de Allison Palmer.
— Certo. À Allison Palmer.
Tomo um gole relutante.
— Você está aqui sozinho?
— Tinha uma reunião de negócios e estava indo para casa quando te vi.
— Bem, obrigada por passar por aqui, não quero te segurar.
Sorrio, mas ele continua ali. Observando-me.
Há algo no jeito que Cameron me olha. Algo diferente.
Não é gentil. Não é suave ou divertido. Nem é como os olhares dos homens lá embaixo, que me viam como um investimento, uma oportunidade, uma chave para poder e status.
Cameron está me olhando como se eu fosse... real. De carne e osso.
Como se eu fosse apenas uma mulher de vestido, com o cabelo solto e usando minhas joias favoritas.
E ele está notando cada detalhe.
Pela primeira vez, gosto dessa sensação.
Na maioria das noites, Cameron Rockwell provavelmente passaria por mim sem nem olhar. Ou jogaria um comentário ácido, só por esporte. Talvez sussurrasse algo desagradável pelas minhas costas.
Mas hoje?
Hoje ele está aqui.
E está prestando atenção em mim.
Em vez disso, ele parece quase... encantado por mim.
E eu não faço a mínima ideia do porquê.
— Sabe, não estou com pressa de voltar para meu apartamento vazio. Se você está procurando uma fuga daquela festa triste, por que não vem tomar uma bebida comigo?
Hesito. Alarmes começam a soar na minha cabeça.
Por que Cameron Rockwell iria querer beber comigo, de todas as pessoas? A única interação que tivemos foi quando ele disse, sem rodeios, que não se importaria se minha prima me jogasse de um penhasco. Agora, ele age como se fôssemos velhos amigos se reencontrando depois de anos.
E eu não entendo o porquê.
Talvez eu esteja sendo paranoica, mas com motivo. Acabei de sair de uma festa onde cada homem que me olhou tinha uma agenda oculta. Cameron, por outro lado, parece apenas estar sendo... gentil. Talvez seja isso que pessoas normais fazem com outras pessoas normais.
Então decido sorrir e balançar a cabeça.
— Obrigada, mas preciso voltar.
— Fique à vontade. Mas eles vão saber assim que você descer.
— Sabe de uma coisa?
— Sei que você preferiria estar em qualquer outro lugar.
Bufo e disfarço tomando um gole do meu vinho.
— Você percebeu mesmo?
— Está escrito em você.
Cruzo os braços.
— Talvez eu só goste da árvore.
— Linda árvore — ele concorda. — Mas não é algo que uma mulher feliz faria. Então, o que realmente te trouxe aqui?
— Coisas de família — digo, e, antes que eu possa desabafar, Allison Palmer aparece no topo da escada.
Ela escaneia o corredor, me encontra e seu rosto se fecha. Raiva se espalha ao redor de seus olhos enquanto ela avança com os saltos estalando no ladrilho.
Cameron se vira quando ela se aproxima, e eu juro que Allison empalidece. Seus olhos se arregalam, e por um segundo acho que ela vai girar nos calcanhares e correr. Mas então ela endurece a expressão, o maxilar travado.
Cameron sorri e ergue o copo em saudação.
— Allison Palmer, falando do próprio d***o. Feliz aniversário. Eu diria que estou ofendido por não ter sido convidado, mas...
— O que você está fazendo aqui, Cameron?
— Negócios. Não é para isso que o Slovan costuma servir?
Ele me olha de lado.
— Allison Palmer deve ter bebido demais.
Ele vira o resto do uísque e pousa o copo numa mesa próxima.
Engasgo com o riso e cubro a boca com a mão. O rosto de Allison fica rosa.
— Estou grávida, seu i*****l. Não bebo.
Ela me encara.
— Kiki, o avô quer você de volta lá embaixo. Agora.
Ela usa aquele tom de melhor-obedecer-prima-i****a que só reserva para mim.
Suspiro.
— Ok, estou indo.
Lanço um aceno para Cameron.
— Foi bom falar com você.
— Aproveite a festa. Parece incrível. Estou quase com inveja.
Seu sorriso está carregado de sarcasmo, e eu tento não rir enquanto Allison se vira nos calcanhares e começa a descer.
Dou um passo para segui-la, mas Cameron se move.
Ele desliza para perto, sua mão agarra meu braço — não forte, apenas o suficiente para me fazer parar. Sua outra mão desliza sutilmente em direção ao meu quadril. Meu coração dispara. A pele formiga onde ele roça.
Por um segundo, acho que ele só está me tocando.
Mas então percebo o que está fazendo.
Sua mão atinge minha bolsa, solta a trava com um movimento fluido e desliza algo dentro.
— Caso você decida abandonar a festa — ele sussurra antes de me soltar.
Um arrepio percorre minha espinha.
Fico ali, tonta, sentindo os vestígios do toque de Cameron em minha pele. Tento decifrá-lo, tento entender por que esse homem — esse homem — está prestando atenção em mim.
Cameron Rockwell é o melhor dos melhores. Um dos solteiros mais cobiçados do nosso círculo. Ele poderia ter qualquer mulher.
Então, por que ele perderia tempo comigo?
A menos que isso tudo seja um jogo.
Talvez só queira irritar Allison Palmer.
Engulo seco e corro atrás da minha prima.
Sinto o olhar de Cameron em mim enquanto desço os degraus.
Quando chego ao meio da escada, olho para trás.
Ele ainda está ali.
Me observando.
E parece estar olhando para a minha b***a.
Meu rosto esquenta.
Tomo fôlego, forço meus ombros para trás e continuo descendo.
No meio do caminho, pego minha bolsa e a abro.
Lá dentro, encontro um cartão branco.
Simples. Elegante.
Seu nome e número de telefone, impressos em preto.
— Só um jogo — sussurro para mim mesma e enfio o cartão de volta.
Levanto o queixo, respiro fundo e entro novamente na festa.
Mas meu coração segue batendo forte.
E não consigo tirar da cabeça o jeito que Cameron estava me olhando.