A noite já havia se consolidado sobre San Veríssimo quando Miguel cruzou novamente os portões da propriedade de Bourbon, e o ambiente que encontrou não era o mesmo que havia deixado horas antes. Havia algo mais rígido no ar, mais contido, como se cada centímetro daquele espaço estivesse sob vigilância constante, não apenas por homens armados, mas por uma tensão que não se dissipava com o silêncio. As tochas espalhadas ao redor do pátio projetavam sombras longas e irregulares nas paredes de madeira, distorcendo as formas e tornando os movimentos mais difíceis de prever, como se a própria escuridão conspirasse para esconder intenções.
Os homens de Bourbon estavam posicionados com uma disciplina incomum, não em patrulha casual, mas em alerta evidente. Seus rostos carregavam sinais claros de cansaço, mas também de expectativa — olhos atentos demais, mãos próximas demais às armas, posturas que denunciavam a ausência de descanso verdadeiro. Quando Miguel passou por eles, os olhares que recebeu não foram neutros. Havia reconhecimento, mas também algo mais denso… desconfiança.
Ele seguiu sem parar.
A porta principal da casa estava aberta, e a luz que escapava do interior contrastava com a escuridão externa de forma quase agressiva, como se delimitasse claramente dois mundos distintos: o de fora, onde o movimento ainda disfarçava a instabilidade, e o de dentro, onde decisões já haviam sido tomadas.
Ao entrar, o cheiro de madeira, couro e tabaco era mais forte, mais concentrado. O salão principal estava vazio, mas não abandonado — cadeiras fora do lugar, um copo deixado pela metade sobre a mesa, papéis espalhados de forma incomum. Nada ali indicava relaxamento. Tudo apontava para interrupção.
— Você demorou.
A voz veio antes que Miguel pudesse avançar mais alguns passos.
Bourbon estava encostado próximo à janela lateral, parcialmente iluminado pela chama de uma lamparina posicionada sobre um móvel baixo. Sua silhueta era firme, mas havia algo diferente em sua postura — não apenas controle, mas contenção de algo mais intenso, mais imediato. O casaco escuro que usava permanecia impecável, mas a forma como suas mãos se moviam — abrindo e fechando lentamente — revelava que a calma ali não era natural.
Miguel não respondeu de imediato. Apenas parou, mantendo uma distância calculada, observando.
— Tive que resolver algumas coisas — disse ele, por fim, com a voz firme.
Bourbon deu um passo à frente, saindo parcialmente da sombra. Seus olhos estavam mais duros do que o habitual, mais diretos, como se tivessem abandonado qualquer necessidade de sutileza.
— Resolver… ou esconder? — perguntou ele.
O silêncio que se seguiu foi imediato.
Miguel sustentou o olhar, sem recuar.
— Não tenho motivo pra esconder nada de você.
Bourbon soltou um leve riso, curto, sem humor.
— Não?
Ele começou a caminhar lentamente pelo espaço, não em direção a Miguel, mas ao redor dele, como um predador que não precisa atacar imediatamente para estabelecer domínio. O som de suas botas contra o chão de madeira ecoava com mais força do que deveria, marcando cada passo com uma intenção clara.
— Três homens desaparecem — disse Bourbon, sem parar de andar. — Um corpo aparece na trilha norte… e você me diz que estava “resolvendo coisas”.
A noite já havia se consolidado sobre San Veríssimo quando Miguel cruzou novamente os portões da propriedade de Bourbon, e o ambiente que encontrou não era o mesmo que havia deixado horas antes. Havia algo mais rígido no ar, mais contido, como se cada centímetro daquele espaço estivesse sob vigilância constante, não apenas por homens armados, mas por uma tensão que não se dissipava com o silêncio. As tochas espalhadas ao redor do pátio projetavam sombras longas e irregulares nas paredes de madeira, distorcendo as formas e tornando os movimentos mais difíceis de prever, como se a própria escuridão conspirasse para esconder intenções.
Os homens de Bourbon estavam posicionados com uma disciplina incomum, não em patrulha casual, mas em alerta evidente. Seus rostos carregavam sinais claros de cansaço, mas também de expectativa — olhos atentos demais, mãos próximas demais às armas, posturas que denunciavam a ausência de descanso verdadeiro. Quando Miguel passou por eles, os olhares que recebeu não foram neutros. Havia reconhecimento, mas também algo mais denso… desconfiança.
Ele seguiu sem parar.
A porta principal da casa estava aberta, e a luz que escapava do interior contrastava com a escuridão externa de forma quase agressiva, como se delimitasse claramente dois mundos distintos: o de fora, onde o movimento ainda disfarçava a instabilidade, e o de dentro, onde decisões já haviam sido tomadas.
Ao entrar, o cheiro de madeira, couro e tabaco era mais forte, mais concentrado. O salão principal estava vazio, mas não abandonado — cadeiras fora do lugar, um copo deixado pela metade sobre a mesa, papéis espalhados de forma incomum. Nada ali indicava relaxamento. Tudo apontava para interrupção.
— Você demorou.
A voz veio antes que Miguel pudesse avançar mais alguns passos.
Bourbon estava encostado próximo à janela lateral, parcialmente iluminado pela chama de uma lamparina posicionada sobre um móvel baixo. Sua silhueta era firme, mas havia algo diferente em sua postura — não apenas controle, mas contenção de algo mais intenso, mais imediato. O casaco escuro que usava permanecia impecável, mas a forma como suas mãos se moviam — abrindo e fechando lentamente — revelava que a calma ali não era natural.
Miguel não respondeu de imediato. Apenas parou, mantendo uma distância calculada, observando.
— Tive que resolver algumas coisas — disse ele, por fim, com a voz firme.
Bourbon deu um passo à frente, saindo parcialmente da sombra. Seus olhos estavam mais duros do que o habitual, mais diretos, como se tivessem abandonado qualquer necessidade de sutileza.
— Resolver… ou esconder? — perguntou ele.
O silêncio que se seguiu foi imediato.
Miguel sustentou o olhar, sem recuar.
— Não tenho motivo pra esconder nada de você.
Bourbon soltou um leve riso, curto, sem humor.
— Não?
Ele começou a caminhar lentamente pelo espaço, não em direção a Miguel, mas ao redor dele, como um predador que não precisa atacar imediatamente para estabelecer domínio. O som de suas botas contra o chão de madeira ecoava com mais força do que deveria, marcando cada passo com uma intenção clara.
— Três homens desaparecem — disse Bourbon, sem parar de andar. — Um corpo aparece na trilha norte… e você me diz que estava “resolvendo coisas”.
O ambiente pareceu congelar por um instante.
Bourbon o encarou com intensidade total.
E então disse:
— Eu quero saber de que lado você está.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Sem ruídos.
Sem movimento.
Miguel sustentou o olhar.
Mas dessa vez…
Houve um intervalo.
Pequeno.
Quase imperceptível.
Mas suficiente.
E Bourbon viu.
Seus olhos se estreitaram levemente, não em dúvida, mas em confirmação.
— Eu sabia — murmurou ele.
Antes que Miguel pudesse reagir, Bourbon avançou de forma brusca, agarrando-o pela camisa com força suficiente para puxá-lo para frente. O movimento foi rápido, direto, sem aviso — não um ataque impulsivo, mas uma ação contida por tempo demais.
— Você acha que pode jogar esse jogo nas minhas costas? — disse Bourbon, agora mais próximo, a voz baixa, mas carregada de agressividade controlada.
Miguel não reagiu com violência.
Mas também não cedeu.
Suas mãos permaneceram baixas, tensas, prontas, mas contidas.
— Você está reagindo antes de entender — disse ele, com dificuldade, mas mantendo o controle.
Bourbon apertou mais o tecido da camisa, aproximando ainda mais os rostos.
— Eu entendo mais do que você imagina.
O silêncio entre os dois era quase insuportável.
A tensão não era mais implícita.
Era física.
Concreta.
— Então solta — disse Miguel, agora com um tom mais firme, mais direto.
Por um segundo…
Nada aconteceu.
E então Bourbon soltou.
Mas não recuou.
Apenas o empurrou levemente para trás, criando distância não como retirada, mas como reposicionamento.
Seus olhos não deixaram Miguel em nenhum momento.
— Você vai me dizer exatamente o que está acontecendo — disse ele. — Agora.
Miguel respirou fundo.
Lentamente.
Organizando não apenas palavras…
Mas consequências.
Porque, naquele momento, havia apenas duas opções.
Falar.
Ou confirmar tudo.
E Bourbon…
Já não estava disposto a esperar.