O vento daquela noite não soprava como de costume.
Havia algo irregular em seu ritmo — rajadas curtas, quase inquietas, como se o próprio deserto carregasse um aviso que ninguém ainda sabia decifrar. San Veríssimo dormia, mas não em paz. Era um sono leve, instável, típico de um lugar onde segredos valiam mais que palavras.
Dona Glória não dormia.
Sentada diante da penteadeira, ela observava seu reflexo iluminado pela chama trêmula de uma lamparina. Seus dedos deslizavam lentamente sobre a superfície de madeira, como se acompanhassem o fluxo de seus próprios pensamentos.
Agora ela via.
Não apenas o que Bourbon construíra, mas como tudo se sustentava.
Dinheiro comprava silêncio.
Silêncio sustentava poder.
E poder… criava dependência.
Mas sempre havia falhas.
Sempre havia alguém fora do padrão.
Ela fechou os olhos por um instante.
O xerife.
Daniel Rivas.
Um homem que não se vendia… mas que já havia cedido.
Não por dinheiro.
Por ela.
Um leve sorriso surgiu.
Não havia emoção ali.
Apenas estratégia se refinando.
Na manhã seguinte, a cidade acordou com rumores.
Um carregamento havia desaparecido.
Não qualquer carregamento.
Prata.
Uma das caravanas de Bourbon, que deveria ter chegado ao ponto de controle ao amanhecer, simplesmente não apareceu.
E em San Veríssimo, ausência significava problema.
Dona Glória ouviu a notícia ainda na escada, antes mesmo de entrar no salão principal.
— Não há sinal deles desde a última parada — dizia um dos homens de Bourbon, com voz tensa.
— Quantos homens? — perguntou Bourbon.
— Seis.
— Armados?
— Sim, senhor.
O silêncio que seguiu foi pesado.
Dona Glória entrou no ambiente.
— Problemas? — perguntou, como se não soubesse.
Bourbon não respondeu imediatamente.
— Uma falha — disse ele, por fim.
— Ou uma mensagem — acrescentou ela.
Os olhos dele se voltaram para ela.
— Ainda não sabemos.
— Então vamos descobrir.
Ele a observou por um segundo a mais.
— Miguel já foi enviado.
O nome pairou no ar.
Dona Glória não reagiu externamente, mas registrou.
— Ele conhece as rotas — continuou Bourbon. — Se alguém puder encontrar o que aconteceu… é ele.
Ela assentiu.
— E se não for um acidente?
Bourbon pegou o chapéu com mais força do que o habitual.
— Então alguém cometeu um erro.
A cidade reagiu rápido.
Homens armados começaram a circular com mais frequência. O fluxo de mercadorias diminuiu. Conversas passaram a ser feitas em tom mais baixo.
Medo.
Não declarado.
Mas presente.
Dona Glória caminhava pelas ruas com atenção redobrada. Observava os rostos, os gestos, os olhares desviados. Algo havia mudado.
Não era apenas a perda da carga.
Era o que ela representava.
Uma falha no sistema de Bourbon.
E falhas… encorajavam movimentos.
Ao passar pela delegacia, ela diminuiu o passo.
A porta estava aberta.
O xerife estava lá dentro.
Ela entrou sem bater.
Daniel ergueu o olhar imediatamente.
A expressão dele mudou ao vê-la.
— Você não deveria vir aqui durante o dia — disse ele, baixo.
— E você não deveria perder caravanas na sua cidade — respondeu ela.
O tom era diferente.
Menos provocação.
Mais urgência.
Ele se levantou.
— Eu não perdi nada.
— Ainda não sabemos — retrucou ela.
Ele se aproximou.
— Isso tem relação com Bourbon?
— Tudo aqui tem relação com Bourbon.
O silêncio entre eles foi breve.
— O que você sabe? — perguntou ele.
Ela cruzou os braços.
— Sei que uma caravana sumiu. Sei que isso não é comum. E sei que, quando coisas incomuns acontecem… alguém está por trás.
— Ou algo deu errado.
— Você acredita nisso?
Ele não respondeu.
Ela deu um passo à frente.
— Você não acredita.
Ele desviou o olhar por um instante.
— Ainda não tenho provas.
— Mas tem instinto.
Ele voltou a encará-la.
— E o seu?
Ela sustentou o olhar.
— Diz que isso é maior do que parece.
O silêncio se aprofundou.
Mais uma vez, eles estavam no limite entre dois mundos.
— Se isso for um ataque — disse ele —, pode desestabilizar tudo.
— Pode — respondeu ela.
— E isso inclui você.
Ela sorriu de leve.
— Eu me adapto.
Ele balançou a cabeça.
— Você joga com coisas que não controla.
— E você tenta controlar coisas que não entende.
O olhar entre eles se intensificou.
Por um instante, o mundo externo desapareceu novamente.
Mas dessa vez… havia algo diferente.
Tensão.
Perigo real.
— Se Bourbon descobrir sobre nós… — começou ele.
— Ele não vai descobrir — interrompeu ela.
— Você não pode garantir isso.
Ela se aproximou mais um passo.
— Posso garantir que, se isso sair do controle… você vai precisar de mim.
Ele hesitou.
E ela viu.
— E você sabe disso.
O silêncio confirmou.
Ela virou-se, caminhando em direção à porta.
— Fique atento, xerife — disse, sem olhar para trás. — Isso não foi um acaso.
Antes de sair, ela parou por um segundo.
— E quando descobrir quem fez isso… me diga.
A porta se fechou.
Daniel permaneceu imóvel.
Mais uma vez, dividido.
Mas agora… também envolvido.
No fim da tarde, a resposta começou a surgir.
Miguel retornou.
Coberto de poeira.
Com o olhar mais duro do que o habitual.
Bourbon o recebeu no escritório.
Dona Glória estava lá.
Observando.
— Não foi acidente — disse Miguel, direto.
— Eu já imaginava — respondeu Bourbon. — O que aconteceu?
Miguel respirou fundo.
— Emboscada.
O ar pareceu ficar mais pesado.
— Quantos? — perguntou Bourbon.
— Pelo menos dez. Bem armados.
— E nossos homens?
— Mortos.
O silêncio caiu.
Dona Glória não desviou o olhar.
— E a carga? — perguntou Bourbon.
— Levada.
Ele assentiu lentamente.
— Reconheceu alguém?
Miguel hesitou.
— Não diretamente.
— Mas?
Miguel olhou brevemente para Dona Glória antes de responder.
— Não foi trabalho de amadores.
Bourbon estreitou os olhos.
— Então?
— Alguém com informação.
A frase ecoou.
Mais do que uma suspeita.
Uma acusação implícita.
O ambiente mudou.
Agora não era apenas um ataque externo.
Era uma possibilidade interna.
— Está dizendo que temos um vazamento? — perguntou Bourbon, com voz baixa.
Miguel sustentou o olhar.
— Estou dizendo que alguém sabia exatamente onde atacar.
O silêncio que se seguiu foi o mais pesado até agora.
Dona Glória sentiu.
Aquilo era o começo.
Desconfiança.
Interna.
Perigosa.
Exatamente o tipo de ruptura que ela havia previsto.
Bourbon caminhou lentamente até a mesa.
— Então vamos descobrir quem.
Miguel assentiu.
— Já comecei a perguntar.
— Com cuidado — disse Bourbon.
— Sempre.
Dona Glória observava os dois.
Duas forças.
Uma leal.
Outra dominante.
E agora…
Desconfiadas.
Ela deu um passo à frente.
— Posso ajudar.
Ambos olharam para ela.
— Como? — perguntou Bourbon.
Ela não hesitou.
— Observando quem muda de comportamento.
— Isso não é suficiente — disse Miguel.
Ela sorriu levemente.
— Às vezes… é tudo.
O silêncio voltou.
Mas agora não era apenas tensão.
Era início de algo maior.
Um jogo dentro do jogo.
Porque, naquele momento, uma nova verdade começava a se formar:
O império de Bourbon não estava apenas sendo atacado.
Estava sendo testado.
E Dona Glória…
Já estava pronta para jogar com isso.
O peso das palavras de Miguel ainda pairava no escritório quando o silêncio se alongou mais do que o confortável. Bourbon mantinha-se imóvel, os dedos apoiados sobre a mesa, como se medisse cada possibilidade antes de agir.
— Informação não vaza sozinha — disse ele, por fim.
Miguel assentiu.
— Alguém falou… ou alguém ouviu o suficiente.
Dona Glória observava os dois com atenção redobrada. Aquela não era apenas uma investigação — era o início de uma mudança estrutural. Quando a desconfiança entra, o controle começa a rachar.
— Quem sabia da rota? — perguntou ela.
Bourbon respondeu sem hesitar:
— Poucos.
— Nomeie.
Ele a olhou.
Não com irritação.
Mas com avaliação.
— Eu, Álvaro… Miguel… e dois capatazes.
Miguel completou:
— E os homens da própria caravana.
— Que estão mortos — disse Bourbon, seco.
O silêncio voltou.
Dona Glória caminhou lentamente pelo ambiente.
— Então temos três possibilidades — disse ela. — Um dos homens mortos falou antes de morrer… alguém aqui vazou… ou estamos lidando com alguém que observa mais do que deveria.
— Espiões — disse Miguel.
— Ou concorrência organizada — completou Bourbon.
Dona Glória parou.
— Ou governo.
Os dois homens olharam para ela.
— Valdez — disse ela.
Bourbon estreitou os olhos.
— Ele não ganharia com isso.
— Ganha pressão — respondeu ela. — Mostra que você não está tão seguro quanto parece. Torna você mais… flexível.
Miguel cruzou os braços.
— Arriscado demais.
— Para nós — disse ela. — Para ele… pode ser investimento.
O silêncio ficou mais denso.
Bourbon caminhou até a janela, como fizera antes.
— Não gosto de coincidências — murmurou.
— Nem eu — disse Dona Glória.
— E também não gosto de teorias sem prova.
Ela se aproximou.
— Então vamos criar provas.
Miguel soltou um leve riso sem humor.
— E como você pretende fazer isso?
Ela virou-se para ele.
— Fazendo alguém se expor.
— Como?
Ela sustentou o olhar.
— Dando algo para ser roubado.
O silêncio que se seguiu foi imediato.
Pesado.
Miguel foi o primeiro a reagir.
— Uma isca.
— Exatamente.
Bourbon virou-se lentamente.
— Você está sugerindo que eu arrisque outra carga?
— Estou sugerindo que você descubra quem está jogando contra você — respondeu ela, firme.
Ele a observou por alguns segundos.
— E se perdermos mais?
— Você já perdeu.
A resposta veio rápida.
Precisa.
Ele não retrucou.
Porque era verdade.
Miguel se aproximou da mesa.
— Se fizermos isso… precisa parecer real.
— Vai ser real — disse Bourbon.
— Então vamos precisar de homens confiáveis.
O olhar dele mudou sutilmente.
— Todos aqui são confiáveis.
Dona Glória inclinou levemente a cabeça.
— Até que se prove o contrário.
O silêncio voltou, mais incômodo.
A dúvida agora estava instalada.
Não apenas como hipótese.
Mas como presença.
Bourbon respirou fundo.
— Muito bem.
Miguel levantou o olhar.
— Vamos fazer.
Dona Glória não demonstrou reação externa.
Mas por dentro…
Algo se consolidava.
— Uma nova rota — continuou Bourbon. — Informação limitada. Só nós três… e mais ninguém.
Miguel assentiu.
— E os homens?
— Eu escolho.
— E eu observo — disse Dona Glória.
Os dois olharam para ela.
— De perto.
Bourbon não negou.
A decisão estava tomada.
Naquela noite, a casa parecia mais silenciosa do que nunca.
Mas não era tranquilidade.
Era tensão contida.
Dona Glória caminhava pelo corredor com passos leves, quase inaudíveis. Seus pensamentos se moviam com precisão agora. Não era mais apenas sobre entrar no jogo.
Ela já estava jogando.
E melhor…
Estava influenciando as regras.
Ao passar pelo escritório, percebeu a porta entreaberta.
Luz acesa.
E vozes.
Ela parou.
Aproximou-se sem fazer som.
— …não confio nisso — dizia Miguel, em tom baixo.
— Não precisa confiar — respondeu Bourbon. — Precisa executar.
— E ela?
Um breve silêncio.
Dona Glória prendeu a respiração.
— Ela é útil — disse Bourbon.
— Ou perigosa.
— As duas coisas não se excluem.
O silêncio seguinte foi mais longo.
— Você acha que ela pode estar envolvida? — perguntou Miguel.
O coração de Dona Glória permaneceu calmo.
Mas sua mente… afiada.
— Ainda não — respondeu Bourbon. — Mas não descarto nada.
Ela se afastou antes que a conversa continuasse.
Sem ruído.
Sem pressa.
Sem emoção visível.
Mas agora…
O jogo havia mudado novamente.
Eles desconfiavam.
Dela.
Um leve sorriso surgiu enquanto ela caminhava de volta ao quarto.
Perigo.
Real.
Concreto.
E inevitável.
Mas isso não a enfraquecia.
Pelo contrário.
A tornava mais precisa.
Mais cuidadosa.
Mais… perigosa.
Ao entrar no quarto, fechou a porta com calma.
Encostou-se por um instante.
E então deixou escapar um suspiro leve.
Não de medo.
Mas de excitação.