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O sol já tava descendo por trás do Chapadão quando o barulho de moto começou a ecoar pelo morro inteiro. Não era passeio, não. Era movimentação de respeito.
Negão vinha na frente, postura reta, fuzil atravessado no peito, olhar fechado, daqueles que não precisava falar muito pra todo mundo entender o recado. Atrás dele, os homens fechando a área, já organizando tudo antes mesmo do caminhão encostar.
No alto do morro, Machado observava de longe, sentado como se o mundo fosse extensão dele. Só o vento batendo na corrente grossa no pescoço. Quando viu o movimento lá embaixo, nem piscou.
— Tá chegando — um dos caras avisou.
Machado só soltou um riso seco, sem humor.
— Quero ver é chegar certo. Sem atraso, sem gracinha… sem vacilo.
Ele virou o rosto na direção do n***o.
— Chega aí.
Negão subiu rápido, sem correr, mas também sem enrolar. Respeito ali era no olhar e na atitude.
— Sim, chefe.
Machado mediu ele de cima a baixo.
— Tu vai ficar no corre desse carregamento. Quero tudo redondo, tá ligado? Não quero caô, nem malandro se achando esperto.
— Pode deixar, chefe. Tá comigo.
Machado deu só um aceno curto, tipo “vai”.
— Se der r**m… tu sabe como é.
Negão nem respondeu dessa vez. Só assentiu. Não precisava de mais.
Lá embaixo, o morro já tava em outro ritmo.
Lica tava no salão dela, o som baixinho, cheiro de produto forte no ar, cliente sentada na cadeira enquanto ela trabalhava com calma. Mas o burburinho lá fora mudou o clima na hora.
Moto passando rápido. Homem armado subindo e descendo. Comunicação seca, direta.
Uma das mulheres na cadeira falou baixinho:
— Aí… será que deu alguma merda?
Outra respondeu:
— Sei lá, quando eles ficam assim é porque tá vindo coisa grande…
Lica nem levantou a cabeça de primeira. Continuou passando a mão no cabelo da cliente, firme, concentrada. Só depois olhou pela porta de vidro.
Viu n***o descendo com mais uns caras.
E aquilo já foi suficiente.
O salão ficou meio em silêncio por um segundo.
— Lica… — uma das meninas tentou puxar assunto.
Ela cortou na hora, voz calma, mas firme:
— Continua o trabalho.
Simples assim.
Porque ali no morro, quem tinha nome não precisava explicar nada.
Lica era daquele tipo que chamava atenção sem esforço nenhum. Pele clara, cabelo longo e liso, corpo marcado por tatuagens que contavam mais da vida dela do que qualquer conversa. Mas o que mais pegava não era isso.
Era a presença.
Marrenta. Direta. Olhar que não abaixava pra ninguém.
E principalmente: mulher de n***o.
Isso sozinho já fechava qualquer assunto antes mesmo de começar.
Ninguém no morro era burro de se meter onde não era chamado.
E naquele dia, com o carregamento chegando e o clima pesado no ar, todo mundo sabia uma coisa:
Se alguma coisa saísse do controle… o Chapadão ia sentir.
O barulho das motos foi aumentando conforme o caminhão entrou pela subida principal do Chapadão. Devagar, pesado, escoltado.
Negão veio logo atrás, olho atento em tudo: esquina, beco, telhado. No morro, quem vacila paga caro — e ele sabia disso melhor que ninguém.
— Fecha os ponto! — ele mandou seco no rádio. — Ninguém encosta sem eu liberar, tá ligado?
— Tá suave — respondeu um dos homens.
Mas “suave” no morro nunca era garantia de nada.
Quando o caminhão parou no ponto combinado, já tinha meia dúzia de caras armados em volta. O clima ficou pesado na hora. Não era festa. Era negócio. E negócio ali era tratado como guerra fria: sem erro, sem conversa fiada.
O motorista desceu com a mão levantada.
— Tô na minha, chefe… tudo certo na carga — ele falou rápido.
Negão não respondeu de primeira. Só foi andando em volta do caminhão, olhando selo, lacre, posição, tudo. Um silêncio que incomodava até quem não devia nada.
— Abre — ele falou por fim.
Um dos caras puxou o lacre. A tampa abriu.
Tudo certo.
Caixas organizadas. Nada mexido.
Negão soltou um ar pelo nariz.
— Tá limpo.
Mas antes que alguém relaxasse…
Um dos olheiros veio correndo beco acima, ofegante.
— n***o! n***o!
Ele virou só o rosto.
— Fala p***a.
— Tem movimentação estranha na parte de trás do morro… vi luz apagada, carro parado… não é dos nossos não.
O silêncio mudou de nível.
Negão fechou a cara na hora.
— Repete isso direito.
— Eu vi dois carro parado, sem farol, mano… e uns cara que não conheço.
Ele já entendeu.
Não precisava de muito.
Lá no salão, Lica sentiu antes de ouvir.
Porque morro tem isso… muda o ar.
O som do secador parecia mais distante. As clientes ficaram mais quietas. Uma moto passou cortando giro lá fora, rápido demais até pra padrão dali.
Uma menina comentou:
— Ih… lá vem estresse…
Lica finalmente largou a escova na bancada.
— Tranca a porta — ela mandou.
— Oi?
— Tranca a porta do salão.
A voz dela não era alta. Mas não tinha espaço pra dúvida.
A menina foi rápido.
E foi nesse momento que o rádio do salão chiou, um dos meninos passando na rua falando alto:
— n***o TÁ FECHANDO O MORRO TODO! TEM ESTRANHO SUBINDO!
Lica respirou fundo.
Não era susto.
Era aviso.
No alto, Machado já tinha mudado de posição.
Antes tava sentado. Agora tava de pé.
Olhar duro.
— Estranho no meu morro? — ele falou baixo, mais pra si mesmo do que pros outros.
Um dos homens respondeu:
— n***o tá indo ver já, chefe.
Machado deu um passo pra frente.
— Se tiver X9 ou ideia errada… eu quero vivo.
Ele virou o rosto, frio.
— Mas só até eu falar o contrário.
Negão já tinha descido pro beco sem nem esperar ordem.
Fuzil firme, passos pesados, sangue frio.
— Fecha tudo! — ele gritou. — Quero esse morro parado agora!
Os homens começaram a se espalhar.
E aí veio o primeiro sinal.
Um estalo seco.
Depois outro.
Tiro.
Não era aviso.
Era tentativa.
Negão se jogou pra trás da mureta na hora.
— c*****o! — um dos caras gritou.
— CONTATO! CONTATO!
O morro que antes tava só tensão agora virou caos.
E n***o só pensou uma coisa, olhando rápido pro alto:
“Isso aqui não é aleatório…”
E no meio daquele inferno começando…
Lica, lá embaixo, encostou na parede do salão, olhando pra rua vazia, e falou baixo pra si mesma:
— Agora fodeu…