A morte está sempre à espreita

2617 Words
— Nada do que ela disse era verdade. Ela só queria me assustar — Gulian vociferou contra Vitto. — Queria assustar a todos. E pelo visto funcionou! Estão todos morrendo de medo. Ele estava revoltado e parcialmente descrente. Duvidava do poder daquela que imaginou ser apenas doce e inocente. Por horas ele se isolou de todos, me forçando a ficar do lado de fora de seu quarto, para que ele tivesse a liberdade de socar as coisas. Houve até um instante em que imaginei ter ouvido um soluço. — Você viu o que ela fez? O tempo a nossa volta quase parou. — Vitto gesticulava abertamente, como se apelasse aos gestos para que Gulian notasse a gravidade do perigo. — Ela atravessou o navio dela no Dergo e tanto ele quanto ela sumiram no ar logo depois. Sem contar no céu n***o e nos raios que evaporaram também. — Ele balançou a cabeça, indignado. — Primo, eu odeio dizer isso... — Então não diga! — vozeou, olhando Vitto com um ódio voraz. — Mas eu te avisei diversas vezes — Vitto continuou, o ignorando. — Tudo o que você faz, eu te aviso. — Cale a boca! Vitto voltou a gesticular enquanto seguia o Gulian, que perambulava revoltado por todo seu quarto. — Mas você é o poderoso capitão Gulian Beho, o rei dos oceanos. Por que motivo você ouviria o primo que sempre esteve ao eu lado? — Eu mandei que calasse a boca! — E socou a porta do armário de roupa feito de madeira, atravessando-a, e quase a fazendo cair no meu pedaço de quarto. — Você não manda em mim! — Vitto gritou contra ele. — Eu... Gulian levou a mão sangrando até a testa e a deslizou para trás, levando mechas soltas de seu cabelo e molhando a testa de sangue. Ele logo voltou a andar de um lado ao outro. Seus lábios sempre tão volumosos estavam ali contraídos um no outro. Seus olhos divagavam no quarto, enquanto silenciosamente balançava a cabeça. Percebi que seus olhos também estavam tão brilhantes como irritados, como se lutasse contra um insistente choro. — O tempo que eu vivia te alertando que chegaria, onde nenhum de nós conseguiria mais lidar com o tanto de problema que arranjamos, chegou. Agora você é um fugitivo do reino de Dasmoi, por matar o duque de Tamre, e também acusado de queimar toda a cidade da fumaça. Duas sentenças de morte! Ou você acha que ter despachado o conde Enennai e seus filhos antes de ontem nas ilhas de Esvária limpará sua barra? — Vitto... — Você está indefeso, primo. Agora você não é mais o poderoso capitão Gulian Beho. É só o capitão Gulian Beho, amaldiçoado por uma bruxa, numa época onde todo mundo tem medo de você. Tinha, pois a vida é um vai e vem. Quem está em cima, fica em baixo; quem perseguia, pode ser perseguido. Quem teme, pode ser temido. — Vitto chegou mais perto dele. — Primo, se o mundo saber sobre o que aconteceu hoje, todos virão atrás de você. Você sabe que não existe cordialidade e nem amizade entre os piradas. Eles não vão te ajudar. Se você ficar em terra, eles provavelmente te deixarão em paz, mas no mar eles te perseguirão para roubar seu título, assim como você matou vários para roubar os deles. O primo menor foi interrompido por Gulian com um soco no rosto. Vitto caiu ao meu lado. Foi rápido como ele se levantou do chão e se chocou contra o Gulian, fazendo-o voar e cair para trás; então Vitto ficou por cima, socando o rosto do primo. Gulian meteu sua testa contra a de Vitto, ao segurar a mão dele e forçar a cabeça para baixo, fazendo-o ficar tonto. Nisso, Gulian saiu de baixo e inverteu as posições. Em toda minha vida, esta era a segunda vez que os via brigar fisicamente. Quando crianças e adolescentes eram: Vitto e Gulian, Gulian e Vitto. Eram iguais, de certa forma; ninguém era melhor que ninguém. E ali era o capitão Gulian Beho e sua sombra, alguém só de enfeite, sem serventia, vice capitão Vitto Noir. Gulian, por cima de Vitto, lhe dava socos que o fazia perder o sentido. Estava cego de raiva e descontava tudo no primo. E eu era forçado a ver Gulian cometer talvez o maior erro de sua vida, de frente a porta para poder correr e pedir ajuda a qualquer instante, caso Gulian passasse da conta. — Para — Vitto pediu, com os olhos já roxos, misturado ao sangue que melava todo seu rosto e seu nariz torto e quebrado. Ele intercedia junto com as mãos erguidas, tentando frear os golpes. Odiei Gulian naquele instante. Mesmo não sendo fraco, Vitto não tinha chances contra ele. Sem contar que ele estava descontando toda sua frustração no único humano que sempre esteve ao seu lado. Logo vieram algumas pessoas até o quarto de Gulian e com pavor viam o que ele estava fazendo com o primo mais novo. — Faça eles parar — implorei para Octávio que, abaixo de Vitto, era o mais poderoso ali. Octávio mexeu negativamente com a cabeça. Eu não o culpava por seu receio, pois se ele tentasse algo, Gulian o destruiria, não se importando com a amizade desde o Forte. Ainda não querendo se meter na briga, Octávio parecia se remoer internamente, querendo dizer alguma coisa; fazer alguma coisa. Mas então algo aconteceu. Escutei um som estridente de dezenas de gemidos e agouros estranhos, somado ao ranger de cada madeira ao longo do Dergo. Cada pelo do meu corpo eriçou e senti que meu corpo não estava mais aguentando conter minha alma, como se ela soubesse o que era e quisesse correr de pavor. Graças a Imogen, Gulian deve ter sentido o mesmo, porque parou no mesmo instante e boquiabriu-se pavorosamente. Vitto já estava desmaiado, desfigurado, ensanguentado, e então Gulian se levantou do chão e divagou os olhos, entorpecendo-se de tudo o que todos já sentiam. Senti um frio inundar meu corpo e confundir a mente. Eu cairia no chão se meu corpo conseguisse se concentrar o suficiente para fazer isso. Meus olhos tentavam fenecer e tudo diante dele escurecia vagarosamente nos contornos. — Demônios — consegui dizer um pouco mais alto que um sussurro. Era uma visão muito literária do que acontecia, mas eu sentia ali tudo o que li sobre demônios e suas presenças. De fato Enara, que tinha se passado por uma inocente, tinha um poder tamanho a ponto de conjurar demônios; o que reforçava que: de fato o Gulian estava amaldiçoado, para quem ainda tinha dúvida. Tudo o que eu sabia sobre demônios era que possuíam poderes reveladores, assim como os espíritos imundos tinham, que eram confundidos por demônios. Consegui me virar na direção da porta e depois permaneci imóvel, não por escolha, assim como os outros, enquanto minha força vital era roubada de meu corpo. Só duraram alguns segundos para que eu ficasse em estado absoluto de medo e pavor, ouvindo aqueles gemidos e agouros, com todo o Dergo gemendo junto, como se estivesse quebrando para se afundar; como se estivesse se encolhendo para passar por um espaço bem menor que ele. Eu só me perguntava o quanto de poder alguém deveria ter acumulado num corpo para conjurar demônios do centro de Uenoque e controlá-los na superfície. Conforme eu imaginava que eles se aproximavam, meu corpo mostrava sinais de que estava drogado, do mesmo jeito que um corpo fica ao fumar certas ervas moída no cachimbo. Eu via sombras, via tudo muito lento e com sons distantes e horripilantes. Os gemidos e agouros se aproximavam e cambaleávamos molengas e sem vida. Eu insistia para fechar meus olhos, pois à frente da porta eu seria um dos primeiros a ver o que atravessaria por ali e torcia para que não visse. Eu via que as cores a minha volta mudavam de formas e ondulavam-se como se fosse água com cores sendo mexida. Cada osso do meu corpo começou a arder devido ao tremendo frio que se apoderou de meu ser; de meu espírito. Os sons se faziam cada vez mais distantes e enlouquecedores. Ainda fenecendo, meus olhos tiveram a infelicidade de ver sombras esfumaçadas descendo a escada de frente ao quarto de Gulian. Logo os pés de várias formas se mostraram em movimento, até que mostravam mais e mais, e mais do que só os pés. De pouco em pouco, lenta e assustadoramente, o restante dos corpos foram aparecendo e um odor pútrido e fétido se impregnou no ar. Suas roupas e seus braços se mostravam diante de mim, cada um de tamanho e forma diferente. Logo meus olhos se acordaram ao ver seus rostos: alguns tinham bocas rasgadas, outros as tinham costuradas; alguns nem rostos humanos tinham: eram de espécies que, sem vincular seus rostos à demônios, já eram assustadores; com chifres de vários tipos e em vários lugares: como um que tinha um rosto magro, de pele marrom-rosada, sem orelha e sem nada, de olhos esbugalhados, lábios finos e grandes, com chifres brotando de um ponto central detrás de sua cabeça e coroando toda a sua frente como espinhos grossos curvados. Alguns pareciam a lagartos de olhos negros e profundamente assustadores; outros tinham pele em putrefação, sem alguns pedaços de seus rostos; alguns andavam pela parede, astutos, como parasitas, olhando para tudo com certa expressão mórbida, mas ligeira; outros quase pareciam humanos comuns, só que de olhos inteiramente vermelhos, negros ou brancos, e todos esbugalhados — como se não tivessem pupilas — e de aspectos perversos e profanos, com peles escamosas; outros tinham cabeças de animais anexadas aos seus corpos; e alguns tinham duas cabeças: uma sempre muito pequena comparada a outra. Eles tinham um modo próprio de se movimentar, como se desfilassem para a morte e seu comitê. Quase nem andavam. Parecia que se deslizavam pelo chão, numa grandeza majestosa, fixando bem seus olhos em suas presas enquanto se aproximavam. Os gemidos e agouros se tornaram ensurdecedores e uma pressão em ondas invisíveis vinha até nós, parecendo que explodiria tudo. Sem muita demora e com muito pavor, eles logo me alcançaram, mas me ignoraram e foram até os demais, onde perversamente dominaram suas mentes. Outros nem se davam ao desperdício de atormentar ainda mais e estraçalhavam os corpos que eles primeiro alcançavam. Eu, até ali, estava sendo despercebido, até que um dos demônios que se deslizavam pelo chão, agonizando numa língua estranha, me alcançou, me olhou como se fosse me devorar e me derrubou pela perna. Ainda consciente, estava inconsciente parcialmente com o que acontecia. Eu só sentia meu corpo sendo dominado por aquele ser que subia lentamente em mim e em cada parte do meu corpo que ele tocava eu sentia uma dor profunda e gélida. Do chão pude ver um demônio tocando na cabeça do Gulian, o forçando a sofrer terrivelmente. Ele gritava com toda a força. Percebia isso por sua boca estar tão aberta enquanto gritava que chegava a rasgar nos cantos dos lábios. Ouvir, eu não ouvia direito seu grito, pois os agouros e gemidos dos demônios eram mais altos e penetrantes do que qualquer som mortal. Logo a mão fria do demônio tocou meu rosto e voltei a olhá-lo e a sentir aquela dor que inconscientemente ignorei ao me preocupar com meu senhor. Conforme a dor se impregnava mais em meu corpo, meu grito se intensificava. Nunca havia gritado com tanta vontade. Me mexia e contorcia de dor no chão com aquela coisa sob mim. Pensei em tirar aquele ser de cima do meu corpo, mas eu não me obedecia. Ainda com os braços livres e podendo agir, não agia. Eu era traído por mim mesmo. Logo aquela coisa deslizou suavemente suas mãos em minha cabeça e a agarrou firme. Meus olhos se fecharam, mas logo se abriram sem que eu pudesse enxergar mais nada, voltaram a se fechar e, ao voltarem a se abrir, fui forçado a recordar meus momentos mais dolorosos. Eu sentia todos intensamente enquanto se distanciavam, enfileirados, para que outros viessem à tona. Sentia como se aquele demônio me bagunçasse e juntasse todos os cacos formando uma nova coisa. O que mais se destacou, foi eu no colo de Lida: — Você é a criatura mais linda desse mundo, Meero — ouvi a voz dela soar tranquilamente, enquanto sentia meu corpo minúsculo ser balançado em seus braços. Lembro-me de abrir os olhos, de ter toda a visão incendiada pela luz do céu selvagem e piscar eles por repetidas vezes até se acostumarem à luz. Lida sorria para mim enquanto me ninava. — Durma, Meero. — É Telo! — ouvi a voz de Jado como um trovão se aproximando. — Gulian colocou o nome dele de Telo, Lida! — exclamou, irritado. — Se te ouvirem o chamar por outro nome te machucarão. Lida desgrudou seus doces olhos de mim e os direcionou agressivos a Jado. — Eu sou a mãe dele! Deveria no mínimo ter o direito de lhe por um nome. — É! — ele exclamou ao me tomar dos braços quentes de Lida. Minha visão ficou balançada, assim como todo meu corpo frágil. — Mas não é assim que as coisas funcionam. Você sabe que não. — Ele olhou para os lados, como quem devesse alguma coisa e, assim, terminou: — Se te ouvirem dizendo que é a mãe dele e não a progenitora, esses mercadores idiotas vão tirar suas regalias, Lida. — E pegou no braço dela com certa violência ao cerrar o maxilar e me manter com só um braço. — Pensei que fosse mais esperta que isso! Você vai nos entregar desse jeito. — Mas ele é meu filho, Jado. — Ela puxou seu braço do dele. — Ele também é meu filho! E não é por isso que vou demonstrar sentimentos pelo menino. Ele foi uma fatalidade. Lundaho queria que ele nascesse, não nós. Nunca planejamos filhos em meio a isso... — Se aproximou dela. — A isso tudo. Os olhos de Lida estremeceram e cintilaram, entristecidos. Quando ela abaixou a visão para mim, vi uma mãe revoltada. Logo a lembrança de desfez como fumaça e retornei a ver o que estava perante meus olhos. A princípio a lembrança me parecia boa, mas o final dela me deixou agoniado. Eu não sabia se a lembrança era minha ou se fora inventada pelo demônio e colocada ali. Entrei em pânico ao ter em meus lábios uma baba homogenia e fétida do demônio que descia de sua boca diretamente a minha. — Para — disse de boca aberta e quase me engasgando com a saliva dele. Tentei cuspi-la, mas não conseguia. Então o demônio abaixou sua cabeça, lambeu meus ouvidos e sussurrou horripilantemente nele: — Telo... — depois ele sussurrou palavras numa língua que eu não entendia. Não era bem uma língua falada entre humanos, parecia mais um barulho de algum animal, só que foneticamente entendida. Cada espinha do meu corpo ardeu numa sintonia assustadora. Depois ele ergueu outra vez a cabeça e, com a unha do dedo mindinho do braço direito, me fez um corte no rosto. Começou do fim da sobrancelha esquerda, passando pela minha bochecha, chegou a um dedo de distância do canto da minha boca e ao chegar perto do limite do maxilar, ao lado dele, deslizou na horizontal até alcançar o queixo. Gritei o mais alto que pude, pois senti sua unha no meu osso, rasgando as minhas veias e alcançando os nervos. Logo os sons se fizeram ainda mais distantes e distantes, e meus olhos se entregaram a toda a dor, fechando. Minha mente se desligou e pude largar de sentir toda a tormenta finalmente.
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