Após termos fugido de Vasars, com mais do que o cônsul nos procurando, seguimos caminho para o nordeste. Saqueávamos nobres que andavam negligentemente desprotegidos por estradas, sendo eu usado para chamar a atenção deles enquanto Gulian e Vitto roubavam despercebidos.
Não houve uma época melhor antes disso.
Evitávamos cidades grandes para não sermos notados como ladrões — por vivermos andando sujos em meio aos cidadãos que, ainda pobres, eram limpos — e acabarmos pegos, resultando em lar de órfãos.
É perigoso passarmos por cidades, dizia Gulian. Se passássemos, tinha de ser nas cidades certas. Nas pequenas poderíamos ser notados ainda mais, já que nestas todos se conhecem e ninguém nos conheceria.
Foram nas médias cidades que Gulian e Vitto desenvolveram uma coordenação motora para o m*l, que me deixavam assustado. Suas mãos passavam de bolsos em bolsos, roubando o que havia de precioso ou não, enquanto caminhavam em ruas e avenidas movimentadas demais para que as pessoas prestassem atenção nas mãos uns dos outros.
No início, algumas pessoas percebiam que foram roubados logo no ato, mas, em meio à multidão, era errado apontar o dedo a alguém. Depois de meses aperfeiçoando a leveza dos dedos e todo o desempenho necessário, nunca mais seus roubos foram notados em imediato.
Planejavam ficar rico do roubo. Já não passávamos mais fome. O problema era que não havia um lugar decente para dormir, já que era arriscado nos hospedarmos e nos prenderem, querendo saber de onde dois meninos órfãos, com um sumo, tiraram dinheiro.
Saímos de Vasars, deixando uma carta na casa suspensa como uma promessa de que voltaríamos futuramente, após conseguir algo da vida; algo que desse para sustentar a todos e garantir o mínimo de conforto. Gulian prometeu, pois sempre teve conforto, e desejava isso a sua família. Nunca precisou se preocupar com o que tinha para comer, e agora era o responsável por mais duas cabeças além da dele.
Após algumas cidades, ainda em Neerit, seguindo pelo Nordeste e semanas depois pelo norte. Só começamos a seguir pelo Leste quando já estávamos no sul de Resson.
Já na divisa de Resson com Dabinlat, quatro meses após partirmos de Vasars, passamos a noite em uma viela escura da cidade de Adi. Era um lugar assustador durante a noite; uma cidade de dogmas, que cresceu, mas se esqueceu de avisar aos cidadãos.
Tudo silenciava e ninguém perambulava as ruas penumbrosas quando a lua chegava ao centro do céu. Ninguém com boas intenções.
Era uma cidade muito chuvosa e fria. Uma neblina espessa cobria as ruas e tudo em mim gritava, pedindo calor. Eu sentia o frio com mais intensidade que um velho cheio de dor nos ossos sentiria. Sumos naturalmente morrem no frio. Literalmente. Simplesmente não nos adaptamos ao frio como os humanos ao longo de nossas existências.
Portanto, ficávamos os três grudados, dividindo uma coberta fina que eu carregava somente para o meu uso, mas como eu era o sumo de Gulian, deveria lhe oferecer o melhor e o que restar poderia ser meu. E nesse caso, eu dividia o que me sobrava com Vitto.
— Poderíamos usar o dinheiro para ficarmos em alguma hospedaria. Não é mais tão arriscado — Vitto murmurou, batendo os dentes.
Um rato fuçando uma caixa de madeira com resto de alimento nos chamou atenção. Ele fuçava o lixo como se fosse um banquete. Eu fuçaria se Gulian não me tivesse comprado um pão doce bem grande, que tive de dividir com Vitto mais cedo.
— Combinamos, ao sair de Vasars, que não nos hospedaríamos para não chamar atenção de ninguém. Para não saberem da nossa localidade e acabarem nos levando a um lar de órfãos.
Ele olhou para Vitto após parar, talvez esperando que ele caísse em sã consciência e percebesse que seu desejo, que ainda por meio de dor, fosse e******o. Não que eu achasse. O frio me deixava burro e eu só me importava com o agora, não estava nem aí com planos, só queria calor. No entanto, ainda assim eu percebia que Gulian só tentava nos proteger dos adultos que desejariam nos prender e nos obrigar a trabalhar para pagar a ajuda da cidade, caso nos capturassem.
— Entendo — Vitto murmurou um pouco mais alto que um sussurro. — Não tenho a intenção de procurar uma explicação sua a cada vez que desejo nos hospedar. Só estou com frio.
Gulian suspirou.
— Se comprássemos cavalos, chegaríamos mais rápido ao nosso destino e teria como carregar coisas, como objetos para armar tendas e cobertores — sugeri.
Para isso, havia outra regra que ele criou. Era como se nossa vontade fosse irrelevante — pelo menos a minha sempre foi, ainda que nesta época eu não enxergasse isso, pensando ser parte desse trio de dois:
— Sem coisas que não podemos carregar caso estejamos em fuga.
— Mas... — Vitto tentou dizer algo. Entretanto, foi interrompido com apenas um olhar do primo. — Tá — disse, enfado.
O que Gulian não enxergava era que tanto para carregarmos coisas que não podemos recolher em momento de extrema fuga ou não, tinha os prós e contras. Mas de fato a situação em que nos encontrávamos era a mais segura. Sem laços, sem raízes, sem peso. Só eu era o peso.
— Poderíamos fazer alguma coisa para agitar o corpo e espantar o frio — sugeri, enquanto percebia tanto Gulian quanto o lacônico Vitto me olharem. — Poderíamos brincar.
No mesmo instante o primo menor bufou, seguindo com uma risada cortada, forçando Gulian a rir com ele, vendo, não sei onde, tamanha graça na minha sugestão.
— Não — garantiu Gulian. — Não vamos brincar, Telo.
— Esquentaria o nosso corpo! — relutei.
— E também ficaríamos cansados e iríamos querer dormir mais para repor a energia, o que faria sermos enxotados desse beco, assim que amanhecesse, por alguém da região, e teríamos que seguir viagem amanhã com o corpo cansado, sem contar que seríamos notados aqui por alguém que poderia denunciar a presença de dois adolescentes na rua e fora do lar para órfãos pela madrugada.
— É verdade. — Vitto assentiu com a cabeça.
— Mas nós podemos fazer uma coisa — Gulian decidiu dar algo em troca às compreensões dos diversos “não” que levamos por meses no meio de nossas caras.
— E o que seria? — indaguei.
Ele me olhou dos pés cobertos pelo pano a pontas mais alta do meu rebelde cabelo, rindo em descaso.
— Você não, Telo. É novo demais para isso.
Franzi a testa, caindo em mim. Eles achavam que eram os únicos que precisavam de entretenimento. Nunca eu. Eu era só o sumo, o sumo burro, que tempo algum tinha para estudar, já que vivia perambulando na cola de dois adolescentes que não tinham propósito na vida. Eles nunca me incluíam, e quando eu os tentava incluir em algo que eu queria, Gulian dava um jeito de me tirar de minha própria ideia.
Para aonde vamos? — Vitto ficou curioso o suficiente para questionar o primo, já que este apenas sorria e pensava.
Gulian demorou um pouco mais para responder e, ao dizer, olhou para Vitto com um sorriso no canto da boca:
— Você ainda é virgem?
ACABOU QUE A PERGUNTA NOS LEVOU a um bordel propositalmente escondido no meio da cidade, já que com uma cultura velha e que zelava pelos princípios humanos, não era permitido que sem-vergonhices fossem bem localizadas em avenidas tumultuadas daquela cidade.
Em um palco de madeira, no fundo do bordel, cortesãs dançavam com apenas as roupas de baixo, ou menos do que isso, enquanto homens bebiam e as assistiam, felizes.
O lugar fedia a suor, álcool e a corpo sujo. Era uma mistura detestável, embora Vitto e Gulian não parecessem se importar.
Mesas com bancos estavam espalhadas pelo grandioso salão. Logo na entrada, ao lado esquerdo da porta que vivia aberta, um balcão de madeira rústica se mantinha abarrotado de gente, com vários vidros de diversas formas e cores espalhados por uma estante de madeira bem atrás, e um rapaz gordo servindo em copos de barro o que lhes pediam.
Eu olhava para tudo e não chegava à conclusão alguma, senão de que aquele era um lugar para os homens serem simplesmente homens, onde não tinham dever com a sociedade ou com a família. Eles estavam crus, mostrando quem realmente eram ou quem queriam ser, metendo-se em pequenas brigas, que terminavam em risadas por parte dos outros que só olhavam, ou forçando alguma cortesã a sentar-se em seu colo, enquanto com a mão apalpava seu corpo e com suas bocas beijava e mordia vários lugares delas, demonstrando não estarem incomodados por elas serem constantemente tocadas e beijadas por outros.
Gulian bateu com seu ombro no ombro de Vitto, sorrindo.
— Vamos, escolha uma.
No mesmo instante, duas mãos alcançaram os ombros tanto de Gulian quanto de Vitto e uma voz sussurrou próximo aos seus ouvidos:
— Não é bem assim “escolha uma”, irmãos.
Os primos giraram e rapidamente avistaram um bêbado magricelo e desnecessariamente alto, atrás deles.
— E como é? — Gulian perguntou.
O magricelo passou no meio deles, mexendo com os ombros e andando num molejo que parecia que desabaria a qualquer instante.
— Vocês tem que pegar as que forem sobrando. As que já não tem mãos sobre elas. — Se virou do nada e apontou para os dois, com um sorriso bêbado no rosto sujo. — Entenderam?
Vitto fez que sim com a cabeça e Gulian olhou para todo o salão. Eu sabia que por mais que Gulian tivesse entendido o que o bêbado magricelo lhes havia dito, ele não concordava com a natureza com que as coisas funcionavam ali. Ele nunca foi do tipo de pessoa que aceitava o mundo do jeito que ele era. Gulian adequava a realidade para melhor lhe agradar sempre que possível.
Era o contrário do que Jado vivia me dizendo: o mundo existe antes de você, portanto, não é ele quem deve se adequar aos seus caprichos. É você quem deve se adequar ao sistema.
Quando o bêbado se virou e saiu de perto, Vitto inclinou para o lado, na direção do primo e disse com um rosto nada contente:
— As que sobrarem? — Gulian olhou para ele. — E se não sobrar nenhuma mulher bonita?
— São mulheres, ainda assim — o primo maior semicerrou os olhos, como se Vitto tivesse algum problema.
Então Vitto sussurrou algo no ouvido de Gulian, que não pude entreouvir, devido ao desespero de todos os outros sons à volta. Mas como o primo menor fez questão de sussurrar baixo, imaginei que tinha relação a ele ainda ser virgem e querer algo “especial”; ou alguém de melhor aparência para lhe romper esse primeiro selo de sua inocência.
Gulian fez uma expressão de dever. Foi uma daquelas expressões em que viramos os olhos, por não querermos fazer, mas que devemos.
— Eu tenho um plano — o primo maior anunciou, depois ele soltou um sorriso cretino, olhou em volta e encarou o primo menor. — Escolha qualquer uma, independentemente de estar acompanhada ou não. Se estiver, nós fazemos o acompanhante dormir. Tenho pó de hira o suficiente para apagar alguns.
Adentrando neste plano traiçoeiro de Gulian, Vitto acenou com a cabeça e despojou um sorriso idêntico ao do primo maior que, mesmo adolescente, já tinha características adultas, enquanto Vitto, com a sua pele amanteigada e seu rosto desenhado por uma entidade angelical, mais parecia um bebê crescido que um adolescente prestes à fase adulta.
Os dois se separaram, cada um indo rondar uma área do bordel, e, após uma minuciosa pesquisa de campo, enquanto eu me mantinha no meu canto, resmungando por ter sigo ignorado e injustiçado, eles se encontraram mais ou menos no meio e eu fui atrás.
— Qual você quer? — Gulian se atreveu a sussurrar alto, enquanto tantos homens nos rodeavam.
— Aquela — Vitto apontou para uma nativa ou descendente da península Carelon, do continente Menambico.
Era uma mulher de olhos grandes e amarelos como o mel; de lábios finos, mas rubros; de largos quadris; de pernas pequenas e torneadas, de s***s fartos e de uma pele caramelizada. Seu nariz pontudo e bem afilado foi o que de primeiro condenou sua ascendência, assim como seu rosto magro — quase sem bochecha — e o seu pescoço levemente mais comprido que os demais.
— E eu aquela — Gulian apontou para uma jovem loira, nativa de não sei de onde, dos continentes pertencentes ao polo norte, embora aquela expressão de garota pesqueira me fizesse lembrar-me de uma família do reino de Gerlendi que fez negócios quando eu ainda não tinha completado dois anos, no porto de Aleavékci, com o velho Dergo.
Os olhos azuis e pequenos da moça, que pareciam dois pedaços de oceanos, viravam em nossa direção oras e outras. Ela não parecia enxergar Gulian, apenas sondava os clientes enquanto servia o seu com mãos que deslizavam de um lado ao outro de seu corpo.
— Agora é só colocar o pó de hira nas bebidas dos homens certos? — Vitto perguntou.
Gulian acenou maliciosamente com a cabeça.
— Isso, e ficar perto das mulheres que escolhemos para ninguém pegar elas antes de nós.
Já decidido o que fariam a seguir, os primos levantaram da mesa, dividiram o pó de hira e, à espreita, se inclinaram entre a mesa e colocaram uma quantidade exagerada nos copos dos sujeitos, que mesmo demorando a tomar, os fizeram tombar sob a mesa com apenas alguns pares de minutos.
Nisso, Gulian se insinuou e deixou claro o desejo que sentia pela loira, ao sentar em seu lado e beijar o pescoço dela, enquanto Vitto, todo tímido e amigo das mulheres, deixou, relutantemente, nítido o seu interesse pela menambica, sussurrando em seu ouvido que pagaria por seus serviços, caso ele fosse interessante o suficiente para ela tirar a sua virgindade. Isso tudo com muita cortesia e educação. Soube disso, por ele ter dito ao Gulian, dias depois, e Gulian ter rido muito da cara do primo.
Acabou que os primos foram cada um para um quarto, e tiveram uma noite agitada com as mulheres que escolheram.
Eu, claro que sim, fiquei sentado, sendo roçado por homens velhos e gordos, e por t***s de mulheres humanas a todo instante.