Atirados à sorte

1845 Words
Acordei gritando, transbordado em dores inimagináveis. Meu rosto queimava como se brasas vivas estivessem acima do corte feito pelo demônio. No chão só havia alguns homens ainda vivos e marcados de diferentes formas pelos demônios, assim como eu fui. Outros se reduziram a pastas e o restante estava destroçado. Vivos, restaram apenas algumas pessoas, das várias que estavam rodeando o quarto. Gulian já estava acordado, mexendo em Vitto e se certificando de que o primo ainda estivesse vivo. Outros estavam zonzos, dois vesgos. O oitavo homem estava com todo o couro cabeludo a carne viva, querendo cicatrizar. O outro estava sem ambas as pernas e sem ambos os braços, gritando de pavor. Todos nós estávamos sujos dos restos mortais de nossos companheiros de viagem. Eu ainda não havia me situado direito, minha cabeça fazia chiados irritantes e meu corpo ainda doía. Ainda sem força alguma, me levantei do chão e me dirigi a um pequeno espelho de Gulian que estava dentro de seu armário de roupa. Assustei ao me ver com o rosto inchado e terrivelmente inflamado. Encostei com o dedo indicador no lado de minha ferida e senti uma contração tão forte se enraizar no meu cérebro que cheguei a fechar os olhos e cerrar o punho. Gulian veio até mim, tirou o espelho da minha mão e olhou seu rosto. Suas feridas eram tão vaidosas quanto ele. Tinha um furo de unha na bochecha direita, que cicatrizaria rápido a modo de logo ser imperceptível, e tinha os cantos de seus lábios que já não estavam mais rasgados. Feridas superficiais eram tudo o que restavam. Ainda com dores, começamos a ajudar os mais afetados e os deixamos na enfermaria do Dergo, que era na cozinha. Me peguei no pensamento, torcendo para que para que Caero ainda estivesse vivo. E para a nossa infelicidade, vivo algum tinha. Fomos de rede em rede e Caero não estava lá nem em vida e nem em morte. Depois de ajudar todos, Gulian e eu levamos Vitto para seu quarto, o deixamos no conforto de sua cama e subimos ao deque e reparamos que era manhã ou fim de tarde, já que o sol estava subindo ou abaixando. Mas pelo clima não se parecia com o fim de uma tarde. Estava fresco como no raiar do dia. Lá, nos deparamos com o restante dos quarenta e três tripulantes e escravos que não estavam nos andares abaixo. E dentre tantos mortos, haviam três homens vivos. Um dos homens estava sem todos os dedos, outro sem os lábios e o outro sem o nariz e sem as orelhas. Erámos onze agora; onze pessoas marcadas pelos demônios em meio a dezenas de outros que não tiveram a mesma sorte que nós. Eu me fazia diversas perguntas que provavelmente nunca seriam respondidas. Meu rosto latejava e tudo o que eu fazia era desejar estar apagado por mais um tempo, só para não ter de sentir tanta dor. — Precisamos parar no lugar mais próximo, limpar o Dergo e hospitalizar os que precisam — Gulian anunciou, não abrindo muito a boca ao falar. — Acredito que ficamos desacordados por não mais que um dia e meio. — Neste instante me veio à cabeça que esta era a primeira briga que o capitão perdeu sem causar um arranhão sequer no inimigo. — O problema é que o Dergo divagou pelo oceano nesse meio tempo. Eu... — balbuciou. — Pela noite eu vou traçar a área no mapa astrológico para descobrir onde estamos e em que rumo estamos seguindo agora. Ele olhou para mim, olhou bem para o meu machucado e depois olhou profundamente em meus olhos. — Cuide de Vitto. Eu o deixei no quarto dele, já que é um dos raros lugares no Dergo em que não tem pessoas mortas. Queria que os demônios tivessem o machucado do jeito que ele machucou Vitto. Mas até nisso Gulian tinha sorte; até contra os demônios Gulian teve sorte de sair só com duas feridas nos cantos dos lábios e um furo na bochecha. Eu nunca lhe havia desejado tanto m*l, não com intenção de que esse m*l lhe fosse atingir. — Tudo bem. — Assenti com a cabeça e saí de perto dele. Enquanto eu me distanciava, ele dava diversas ordens ao menos feridos, numa insensibilidade exagerada até a ele. No quarto, Vitto gemia ainda desacordado. Meu coração doía por ele. Vê-lo sendo surrado por Gulian me fez despertar alguma empatia por pelo primo menor. Limpei todo seu corpo com um pano molhado afim de tirar o sangue pisado de seu rosto. Aproveitei e dei pontos em seu nariz após colocá-lo no lugar. Fui até o quarto de Gulian e de lá peguei um pote com ervas que aliviaria suas dores e tiraria o inchaço. Ainda apagado ele deveria estar sofrendo de dor. Limpei seu quarto e pendurei minha pequena rede nele. Depois passei a erva esmagada verde-acinzentada em meu machucado também. Ardeu por alguns instantes, mas logo passou. — Fomos roubados — Gulian anunciou, atravessando a porta. Me olhou com tanto ódio em meio a sua impotência. — Fomos roubados pelos demônios. Eles levaram todas as moedas, o ouro e os melhores instrumentos de guerra. Nos levaram até as bombas! Semicerrei meus olhos. Que interesse os demônios teriam nessas coisas? — Será que enquanto o Dergo estava navegando sozinho, nenhum outro navio nos roubou? De repente pensaram que estávamos mortos. — Mexi com os ombros, indicando um talvez. Gulian ponderou. Seus pés não o permitiam ficar parado enquanto a mão direita não soltava as feridas nos cantos dos lábios. — Faz... Faz sentido. Faz sentido por não termos também achado Caero. Ele deve ter sobrevivido e sido roubado também. — É... Faz sentido isso também — assumi. — Eu te odeio, seu canalha — Vitto disse com os dentes cerrados, abrindo os olhos. — Vitto, outra hora você expressa sua raiva — Gulian falou, aproximando dele de olhos arregalados. — Uma legião de demônios possuíram o Dergo. Quase todos estão mortos. Vitto arqueou as sobrancelhas e olhou para mim. Eu confirmei com o olhar. — Eram horríveis e nojentos — completei. — Eles nos causaram dor de uma forma que... — Encolhi os ombros. — Não dá para dizer. Um deles me mostrou uma memória que eu nem sabia que tinha e me fez recordar dos piores momentos da minha vida. Gulian me olhou. — Ele fez isso comigo. E no final, antes de eu apagar... — Gulian olhou para o primo. — Antes de eu apagar ele falou: a partir de agora, uma vida que tirar, um ano envelhecerá. — Ele suspirou. — Enara os trouxe até o Dergo. — Eu não sei se agradeço a moça por ter te impedido de matar mais pessoas ou se sinto pena da sua situação — Vitto respondeu. — Só espero, que com todas as coisas que estão te acontecendo, você tenha a decência de sair do Dergo e me deixar viver a vida em paz. Gulian arqueou as sobrancelhas. Eu também. — Não vou deixar o Dergo, primo — Gulian disse. — Gulian, eu quero te lembrar que o Dergo não é inteiramente seu. Eu sofri muito mais do que você para conseguir esse navio. Pessoas morreram por causa desse navio. Os nossos amigos mais velhos também tem uma parte dele. Você não o conseguiu sozinho, então ele não é mais seu que nosso. — Eu sou o capitão do Dergo, Vitto! — Sim, você é. Só que não existe apenas um homem aqui dentro. Não existe só você e eu estou cansado de te repetir isso. — Vitto suspirou. — Já tem tanto tempo que eu te peço para fazermos uma frota e, a cada navio que nos apossamos, você diz: na próxima. Às vezes nem diz isso. — Ele riu, olhando para o primo. — Você não enxerga que eu estou cansado de você? Eu quero uma frota para eu ser o capitão do meu próprio navio. Estou cansado de estar abaixo de você, Gulian. Sabe por quê? Porque abaixo de você não tem ninguém e eu estou cansado de ser um ninguém. — Primo... — Gulian, deixe o navio — Vitto exigiu ao interromper. — Você foi amaldiçoado. A bruxa disse que vai espalhar a notícia de que você não pode matar ninguém, senão envelhecerá. Você matou também o duque de Tamre. — Vitto suspirou. — Você vai ser caçado pelo resto da sua vida. E o que você quer ficando no Dergo? Quer que lutemos suas lutas? Quer que sigamos, para você, seu estilo de vida? Eu não vou! Não vou viver uma vida desgraçada até conseguirem te pegar e me matarem junto. — Eu nunca pediria isso a você. — Não com palavras, Gulian. Você tem outras maneiras de pedir. De exigir! Gulian se distanciou de Vitto e o olhou à distância. — Se você não quiser ficar por perto, sugiro que abandone então o Dergo — pediu o primo maior. — Você e todo o resto. Por que não sei se você tem noção, mas quase todos já estão mortos. Os demônios os mataram. Vitto ergueu as sobrancelhas e balançou a cabeça. — É o que eu estou falando. Você é uma desgraça de pessoa para se ter por perto. — O primo menor se ajeitou na cama e apontou o dedo para o Gulian. — Só para provar que merda de pessoa você é, me responda uma coisa: você se culpa pela morte dos seus homens? Gulian não respondeu. Neste instante recusou-se a olhar para o Vitto e rodeou o próprio corpo, pensativo. Vi de soslaio a cabeça de Vitto virando em minha direção e o olhei de volta. Ele não disse nada nos primeiros instantes, só depois: — Octávio sobreviveu? — Não — respondi. — Werno? — Não. — Balancei a cabeça. — Jeão? Hesitei e primeiramente fiz um movimento com a cabeça. — Também não. — Os mais antigos. — Vitto colocou a mão na cabeça e riu de raiva. — Os nossos amigos mais antigos morreram por uma estupidez sua. E eu tenho certeza que você não se culpa. — Gritou a seguir: — Eu tenho certeza que você acha normal um monte de homens morrerem por sua causa. — Vitto apontou para a porta. — Octávio e Jeão eram meus amigos. Werno eu m*l o via, mas era um dos conhecidos mais antigos que eu tinha. Eu queria o bem de todos eles e jamais colocaria suas vidas em risco. — Encheu os pulmões de ar. — Mas você! Ahhh, você... Você é o capitão Gulian Beho, não é? O ser mais egocêntrico ser que já vi na p***a da minha vida inteira. É uma pena saber que joguei a metade da minha vida te seguindo como um cachorro. — Apontou para mim. — Eu parecia seu sumo. Igualzinho um sumo que não tem nada melhor da vida para fazer senão seguir e servir seu senhor. Parecia que eu não conseguiria sobreviver sem o ter por perto. Mas agora eu te quero tão longe, Gulian.
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