Abandonado

2724 Words
AO ANOITECER JOGAMOS OS CORPOS no meio do mar, enrolados em redes. Poucos puderam ajudar, por isso os que puderam estavam cansados no final. O capitão acertava a rota, usando sua sextante e guiava o Dergo até o sul de Genoas. Pelo mapa que eu segurava para ele, iríamos chegar à cidade de Isnarestra. Ficamos sozinhos no castelo da popa enquanto todos os homens faziam outras coisas abaixo. O vento estava fraco e o Dergo m*l saía do lugar. A noite estava serena e sem barulhos vinham os pensamentos latentes. Eu revia tudo na minha cabeça. Meus braços e minhas mãos se contorciam. Meus dedos dos pés abriam e se fechavam por dentro da minha bota. Meus pés estavam agitados. Deslizavam no chão e quando eu os olhei, percebi os do capitão numa sintonia parecida. Levantei a cabeça e o olhar e o encontrei de maxilar cerrado e uma expressão que misturava ódio e pânico. A pele de seu rosto se repuxava, mas seus olhos estavam vidrados no horizonte. Eu estava prestes a falar quando percebi os homens subindo no castelo da popa. Vitto estava parado, olhando quieto para o horizonte. — Senhor, descanse — disse Mongear, dando tapas no ombro do capitão e o massageando. — Já tivemos a nossa parcela de descanso. Agora é a vez do senhor e de sua criaturazinha. — Só duas pessoas além de mim podiam tocar nesse leme, marujo. Um deles era Octávio, que morreu. O outro era Vitto, que mesmo vivo já não significa muito para mim. — Olhou para o homem e mexeu o ombro, buscando se livrar do toque do marujo. — Além do mais eu não consigo dormir. Vitto o olhou à distância. Não pareceu se afetar pelo o que o primo falou. Olhei para Mongear a tempo de vê-lo puxar Gulian para trás pelo ombro. Outro desembainhou a Jafees da bainha e ameaçou cortar o pescoço do Gulian. — O que é isso! — gritou o capitão. Mongear puxou as mãos de Gulian e as levaram para trás, enquanto o outro homem chutou a lateral do joelho do capitão e ele caiu no chão com os homens por sobre seu corpo. Aquela ele não imaginava. Eu não imaginava! Avancei na direção do capitão quando vi amarrando as suas mãos e seus pés, mas alguém fechou os dedos no meio do meu cabelo e me ergueu no ar. Gritei de dor e me debati, para depois me segurar no braço do infame que fazia aquilo comigo, buscando não ficar pendurado pelo cabelo. Nesse instante Vitto subia a escadaria. — Como ousam, seus vermes?! — berrou o Gulian. — Eu sou o novo capitão do Dergo, meu primo. Um escolhido pelos sobreviventes. Gulian se debateu. As cordas envoltas dos pulsos dele afrouxaram pouco antes dos nós, mas os homens tornaram a puxar a corda enquanto um deles pisava no pescoço do capitão. Não teve escapatória. No final, o ergueram com todo o esforço para deixá-lo de joelhos. Vitto estava frente a frente com o primo, quando uma cusparada de Gulian voou até sua cara. — E quem são esses vermes para nomearem alguém a capitão do meu navio? — Gulian transigiu. — Eu sou o capitão Gulian Beho! Vitto limpou o rosto com a manga longa de sua camisa. — Sim, o amaldiçoado. O também tocado pelos demônios. O que será perseguido. O que será morto. — Vitto respirou fundo, depois de tantas coisas ditas sem uma pausa. — O que pagará suas dívidas com o mundo. É também aquele desgraçado culpado pelas mortes até dos seus. — Seu desgraçado covarde — Gulian urrou, querendo avançar para frente. — O que você fará comigo? Me jogará no mar aberto de mãos e pés amarrados? Você me teme tanto assim? Vitto ficou olhando para ele por um bom tempo, depois se virou para mim. Me olhou de cima a baixo, em descaso. — Solte o sumo. Telo não conseguirá fazer nada para nos impedir. Olhei dentro de seus olhos. Me arrependi por ter sentido raiva de Gulian por ter batido no primo. Mesmo Vitto tendo todos seus motivos para ficar contra o primo, eu não o imaginava fazendo isso no momento em que o Gulian mais precisava de seu apoio. Quando meus pés alcançaram o assoalho e os dedos se abriram, eu corri. Vitto se abaixou para me pegar, mas eu me joguei no chão e deslizei pelo assoalho. Quando cheguei em frente ao Gulian o abracei. Ouvi os passos alheios pararem nesse momento. Não senti em si o abraço. Senti o calor de seu corpo, senti o susto que ele tomou com meu abraço e o susto da lâmina fria que tocou sua mão, roçando a corda que o amarrava. Quando cortei a corda de cânhamo que prendia seus pulsos, ele pegou a adaga de minhas mãos e cortou a que prendia seus pés. Demorou para que percebessem o que acontecia ali. Quando Vitto notou que o primo estava a alguns segundos da liberdade, arregalou os olhos, apontou e gritou: — Ele vai fugir! Ainda abraçado a mim, Gulian se colocou de pé, girou comigo no ar, desatou o nó da adriça da manilha, subiu na sacada e disse: — Se segure em mim com as duas mãos, irmão. Me segurei e então ele pôde me soltar e segurar com ambas as mãos na adriça. Foi repentino como estávamos no castelo da popa num instante e no convés no outro, voando, seguros à corda. Eu sorria, vendo os homens descendo até o convés quando senti uma paulada nas minhas costas e, por instinto suicida eu me soltar do capitão. Ele tirou uma mão da corda no instante em que ela nos forçava uma volta ao atingirmos o mais longe do mastro grande e fechou os dedos envoltos do meu antebraço. Apenas uma de suas mãos segurando nós dois não foi o suficiente, ainda mais numa volta forçada daquelas e eu vi quando sua mão cedeu e escorregou um pouco na corda. Gulian cerrou os dentes, enquanto voávamos e logo despencamos, um sob o outro. Embolamos um no outro no chão e o resultado foi muita dor e gemido. Eu, pela minha inexperiência, continuei deitado, com uma das mãos no alto da testa e a outra no meu ombro esquerdo, que foram os que primeiro alcançaram o chão. Gulian reclamou um pouco e, mancando e com o corpo pendido para frente, colocou-se em pé imediatamente. Pena que da mesma forma rápida que ele levantou, rápido caiu. Vitto projetou um chute que acertou o meio do peito do primo e ele caiu no chão numa situação ainda pior que o tombo. Gulian tossiu de dor e gemeu baixo. Os olhos estavam cerrados de dor, os lábios tremiam e seu rosto se repuxava de várias maneiras. — É incrível como nos momentos de maior necessidade até a família vira as costas — comentei, perplexo por aquilo. Vitto se virou, jogou o cabelo loiro desarrumado para trás e apontou ordens. — Corram e prendam o ex-capitão do Dergo. E alguém amarre essa criaturazinha — riu — baixa. — Ele olhou para mim. — Você sabe, Telo, o quanto eu sofri na mão dele. Você sabe de tudo o que eu abri mão para ficar ao lado dele. Eu fiz literalmente tudo o que eu podia para melhorá-lo. Agora você acha que depois de tantos avisos e insistência eu vou acabar sendo caçado junto com ele? — Ele balançou a cabeça. — Eu amo a minha vida, Telo. Estou cansado de ser a sombra dele. — Respirou fundo e me levantou pela camisa de algodão. — Eu não sou o m*****o aqui. Só quero sobreviver, assim como todos os outros. O seu senhor é que caçou isso tudo para ele. — Apontou para o Gulian que estava sendo amarrado naquele instante. — Ele diz que não consegue controlar a raiva que sente. — Vitto encolheu os ombros. — Pois bem. Agora pague pelo resultado que esse descontrole lhe rendeu. — Ele também não é o monstro que você desenha — rebati. Vitto riu. — Não é? — Ergueu as sobrancelhas. — Você já leu todas as histórias que disse que escreveu dele? Já prestou atenção em quantas pessoas ele matou? A maioria delas sem necessidade? Sem misericórdia? — Ele balançou a cabeça. — Oh, Telo...! Se você fosse meu você entenderia o que eu passei. Você não entende o outro lado, porque você é dele. Você conhece um lado dele que não é m*l. Mas as outras pessoas não tem a oportunidade de vê-lo dormir, de vê-lo sorrir e cantar e dançar. As outras pessoas veem o rosto dele antes de morrer. Os que não morreram ainda, temem morrer quando o veem. — Ele não é assim. Ele não mata qualquer um — gritei. — Ele faz coisas ruins para qualquer um que disser não para ele. Mata qualquer um que esbarrar nele e não pedir desculpa por isso. Mata qualquer um que não reconhecer nele o que ele enxerga em si. — Se virou e olhou para o Gulian. Os dois primos se encararam em silêncio. — Gulian costumava ser o meu melhor amigo. Éramos iguais um à frente do outro. Eu daria a minha vida por ele. Mas as coisas se transformaram e eu comecei a ser inferior a ele a cada atitude que ele tomava sozinho e eu aceitava. Mas eu cansei disso tudo. Vitto olhou para mim e me abaixou. Lutei para me livrar dele, mas o primo menor me virou, uniu ambas as minhas mãos e as segurou com uma só dele e a ergueu para cima, me causando dor e evitando, assim, que eu buscasse me escapar dele. — Já colocaram o bote na água? — ele perguntou. — Sim, capitão — respondeu alguém. — Miserável — Gulian disse. — Miserável é o meu passado, Gulian. Um passado que perdi deixando em sua mão. Te abandonar dói mais em mim que em você, mas em algum ponto da vida o homem tem que tomar as rédeas sua vida. — Senhor — disse Reini, segurando Gulian por trás. — Devo jogá-lo no bote? — Por favor. Ele e a cria dele — Vitto respondeu. Fomos levados até ao bombordo do Dergo e vimos um bote boiando e mancando sobre a água calma. Gulian não aceitou de bom grado. Forçou a cabeça para trás, que bateu no rosto de Reini. O marujo o soltou para segurar o nariz que estalou na batida. Ele murmurou xingos abafados e, quando tirou a mão do rosto e viu sangue, xingou mais um pouco. Gulian se desiquilibrou e o corpo foi para frente, encostando a barriga no parapeito. As pernas se levantaram e a queda era eminente. Gritei por seu nome, mas Vitto o segurou com a outra mão livre, pela camisa e o puxou de volta. — A pesar de tudo eu não quero que você morra, primo. — Olhou para baixo, me prensando contra a madeira. — É uma queda muito alta. Poderia quebrar a cabeça ou o pescoço para depois quebrar, talvez, o fundo do bote. — Fez um movimento com a cabeça e alguém trouxe uma corda. — Amarre na cintura dele e o desça. O fizeram. Desceram Gulian todo amarrado, usando a vela principal enquanto três homens soltavam de pouco em pouco a corda, até Gulian estar perto do bote e soltá-lo de vez. Em seguida cortou a corda que mantinha o bote ligado ao Dergo. Meu coração estava doendo. Aquilo realmente estava acontecendo. Fiquei vidrado no pensamento até ver Vitto estendendo a mão e um homem se aproximando de nós com a minha bolsa transversal. — Aqui está a sua inseparável bolsinha, Telo. Antes dessa... emboscada, eu a preparei para você. Três livros que já estavam aí continuam aí. Tem sua caneta tinteiro, mais a tinta. — Virou minha bolsa do outro lado. — Aqui tem água o suficiente para três dias de viagem, se usarem com sabedoria. — Abriu a bolsa. — Tem pão em disco e ovos cozidos nesse vidro — o ergueu para eu ver. — Tem mantimento para chegarem saudáveis à Isnarestra e outros objetos menores. Com o Dergo chegaríamos agorinha, logo pelo raiar do dia. A remo vocês chegaram no máximo até o entardecer de hoje. Falo hoje por já ser de madrugada. Me limitei a apenas olhá-lo um pouco mais feio que o costumeiro. Vitto me encarou de volta até colocar minha bolsa sobre meu ombro e deixar pender para o lado, como a usava. Reini segurava uma corda para me amarrar. Quando pensei que eu seria amarrado à corda, Vitto me ergueu no parapeito e me jogou no meio do mar. Atingi a água e afundei, já que foram oito pavimentos de queda. Nadei agitado até a superfície. A cicatriz ardia, mas eu a ignorei. Nadei depois até o bote e, antes de eu subir, ouvi Vitto gritar para mim. — Ah! Eu esqueci de comentar que tem uma adaga na sua bolsa para soltar o seu senhor. — Depois ele sumiu de vista. Subi no bote e coloquei a bolsa ao lado. Tremi com o frio até avistar algumas cobertas e roupas limpas que deixaram no bote. — Telo, me solte. Eu vou matar ele — Gulian disse. Cacei a adaga na bolsa e não a achei. Joguei algumas coisas para fora, vasculhando e nada. De repente a Jafees embainhada em sua bainha caiu perto de meus pés e quicou para cima de mim. — Icem as velas — gritou Vitto lá de cima. O vi de lado, escuro pela distância e por estar quase contra a lua. — Telo! — gritou o Gulian. O Dergo já se distanciava. — Com licença, capitão — pedi, enquanto desembainhava pela primeira vez a Jafees. Ela tiniu e então a direcionei até as voltas da corda que envolvia os pulsos do capitão. Demorou para que eu a manejasse, grande e pesada que só, mas consegui libertá-lo da corda sem o machucar. Depois, sozinho, ele cortou a corda que envolvia seu pé. Ele foi rápido e quando cortou uma das voltas, agitou as pernas para se livrar da corda. Eu tentei o ajudar, mas antes de o fazer, Gulian se atirou no mar e o bote quase virou. Estatelei os olhos e olhei para o Dergo. Estava um pouco mais que dez metros de distância e no pulo o capitão ganhou uns três, junto ao comprimento de seu corpo. Agoniei-me do bote, olhando para o homem nadando com a pouca força que lhe restara de tudo o que veio lhe acontecendo desde Enara, os demônios e a briga. Como ele nadava rápido, se aproximava do Dergo cada vez mais, mesmo com o deslize do navio por sobre a água. Meu coração se gelou de alegria quando o vi tocar seu navio, mas repentinamente o vento encheu as velas de ar e a madeira do casco foi escorregando em sua mão sem que ele encontrasse um apoio para subir. Então o Dergo se distanciou o suficiente para que Gulian não o conseguisse tocar novamente. Ele nadou num ritmo frenético, mas o Dergo estava sendo mais rápido. Foi o que aconteceu com Enara. Aquela foi a primeira vez que eu vi o Dergo partir sem mim, sem o seu verdadeiro capitão. Ali o Gulian era só o velho capitão, assim como houve um velho Dergo. Tudo é substituível. Vitto estava nos olhando da popa enquanto o Dergo, todo listrado de amarelo e preto, gigante, como a b***a do Mar que nomeava o seu modelo, partia na imensidão do oceano. Meu coração contraiu e um gosto amargo inundou minha boca. Me doía saber que nunca mais subiria no Dergo. Que ele não era mais minha casa. Que eu não sentiria mais seu sacolejo nos mares e oceanos. Demorou para que o Gulian se rendesse e voltasse para o bote. Olhei na minha bolsa, enquanto o esperava e achei a adaga. Achei também a bússola e o sextante do capitão. Quando ele chegou, arfava de cansaço. Quando entrou o bote cambaleou, ameaçando escorraçarmo-nos como fomos do Dergo, mas logo se estabilizou. Depois de muito silêncio, Gulian olhou para o Dergo já pequeno no horizonte e chorou. Se para mim estava sendo difícil vê-lo partir, para o Gulian então deveria ser uma desgraça.
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