PÉ DE GUERRA

872 Words
Voltei ao navio, esperando poder sair logo dessa cidade miserável, onde idiotas sonham com um dia perfeito em que eles poderão conviver igual e pacificamente com os humanos ou mandar neles. O que estão imaginando? Que um dia um deles pode se tornar um suserano e ter um vassalo humano? Ou que se tornariam cavaleiros reais, dando ordens a soldados humanos? O mundo funciona graças a uma ordem, por que alterá-la? Por que modificar uma coisa que já está dando certo? Agora só por que cerca de duzentos idiotas quiseram passar em Onttere, sabendo que somos proibidos de entrar lá, devo me sentir chocado e obrigatoriamente me envolver numa resistência, correndo risco de vida? E pior do que isso, fazendo sumos inocentes morrerem. Mais tarde, depois de andar pela parte central da cidade, subi até o deque do Dergo para acompanhar as notícias e saber quando partiríamos, quando rompi pela porta e dei meus primeiros passos à céu aberto, vi o capitão Gulian irritado e agitado no Dergo. Ele trovejava, descontando sua raiva em terceiros. Nem me aproximei muito, esperava que minha presença não fosse notada em meio àquele alvoroço, mas por via das dúvidas dei meia volta para voltar. Foi antes de eu passar pela porta para ir-me dormir que ouvi o som de sua voz sendo direcionada a mim. — Telo! Parei, minhas mãos seguravam a batente fria da porta do deque. Devo aparentar está disponível em todos os sentidos para aguentar os trovejos dele em cima de mim. Não fala nada, só escuta. Não fala nada, só escuta. Me virei e o olhei diretamente. — Sim, senhor. — Acredita que o lorde de Malpes não quis aceitar o nosso encontro hoje? Acredita que ele negou a minha presença em seu palacete? Boquiabri. O capitão Gulian estava mesmo desabafando comigo? Pensei que brigaria comigo por eu possivelmente ter chegado tarde demais e consecutivamente ter atrasado toda a tripulação do Dergo de sair dessa cidade. — Que insolente! — exclamei. — O senhor é o capitão Gulian Beho. Como ele pôde ter feito isso com o senhor? — Usei sua própria tática dos tons, para dar ênfase na frase e preencher seu ego. Percebi que funcionou ao vê-lo bufar. — Sim, eu sou o capitão Gulian Beho, do Dergo. O desbravador dos mares; o senhor das águas; o rei dos oceanos. E mesmo assim ele disse que o duque de Tamre está na cidade e que ele não pode nos ver fazendo negócios no palacete ou em lugar algum de Malpes. Creio que com isso ele quis dizer que eu sou baixo demais para estar em sua presença. Na presença do grandioso duque Rofaldo Baraqsi la Capré. — Ele chutou um barril de madeira cheio de cerveja preta, fazendo o quebrar com o choque e escorrer o líquido. — Eu sou o capitão Gulian Beho! — bradou. — Beho é meu sobrenome, será que ele se esqueceu? — Ele andou em círculos até parar, olhar para mim e apontar com seu dedo indicador na minha direção, que tinha o dobro do tamanho e grossura do meu, isso se não fosse o triplo. — Eu vou destruir Malpes. Vou acabar com toda essa cidade. O conde Nieo Enennai não tem homens o suficiente para ir contra nós. Depois de matar todos e destruir tudo eu irei matar o conde. Num ato impensado acabei dizendo algo puramente instintivo, mas fora da minha alçada de fazer. — O senhor é realmente o melhor em briga e guerra, mas isso nos mares. Nos mares o senhor domina todos os níveis de batalha, mas acredito que em terra firme não tem meios de o senhor ganhar. — Arregalei os olhos ao perceber o que eu fazia, mas eu tinha de continuar. Só conhecendo o capitão para saber que ele falava a verdade sobre sua intenção com Malpes e com o Conde. — Não tem canhões que o senhor possa ordenar seu uso, ou cordas onde o senhor pode usar para voar de um canto ao outro belamente da forma que só o senhor faz. Sem contar que o duque de Tamre está na cidade com boa parte de seu exército. Percebi Vitto deixando seu queixo cair. É agora que ele usará a raiva do capitão contra mim. Ele viu que a oportunidade é perfeita; pude perceber em seus olhos frios e manipuladores. Raça traiçoeira e pesteada. — O sumo tem razão — assumiu ele. Cheguei a arquear as sobrancelhas ralas que eu tinha, e a levar descompassadamente minha cabeça para trás. — Somos realmente bons no mar. Por isso peço que espere que o conde Nieo Enennai nos chame e aí quando estivermos a sós com ele, você pode descontar sua raiva. Pode fazer o que quiser. Não que não possa fazer o que quer agora também. — Até para conversar com o Gulian tinha que ser do jeito certo. — Só acho sensato que esperemos. Já está tarde e de fato dormiríamos em Malpes de qualquer jeito. O capitão Gulian o encarou. Estava feroz de um tanto que não se incomodou com nossa opinião, só as acatou e socou mais algumas coisas. E, após ter a mão toda machucada e sangrando, respondeu: — Esperemos então.
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