Lucas narrando
O relógio na parede da sala de interrogatório parecia mais lento do que o normal. O tique-taque era um eco constante na minha cabeça, misturado com o silêncio de Rafael. O garoto estava calado, com o olhar perdido, e eu sentia a frustração crescer. Eu já havia tentado de tudo: apelar para a família, para a vida dele, para a justiça. Mas ele continuava em silêncio.
— Rafael, eu preciso que você me diga quem está por trás disso. Eu sei que você não fez isso sozinho. Eu posso te dar proteção, mas você precisa nos ajudar — eu disse, com o tom de voz mais calmo que consegui encontrar.
Ele balançou a cabeça, negando.
— Eles vão me matar. Se eu falar, eles vão me matar.
Eu suspirei. A ameaça era real. O tráfico não perdoa. Mas eu não podia deixar que o medo o paralisasse.
— A gente pode te dar proteção, Rafael. Mas você precisa confiar na gente.
O silêncio voltou, e eu sabia que não ia conseguir mais nada. Ele estava com medo, e o medo o tornava uma pedra intransponível. Foi quando a porta da sala de interrogatório se abriu, e o Agente Barros entrou. Ele tinha um sorriso no rosto, um sorriso que eu não entendia.
— Lucas, parece que a sua sorte mudou. A irmã do garoto chegou, e ela não está sozinha. Ela trouxe um advogado.
O meu coração deu um pulo. A irmã. A voz do telefone. Eu me senti estranhamente curioso.
— E aí? Ela falou alguma coisa? — eu perguntei.
— Ela está com o advogado dela. É um tal de Eduardo. Ele parece ser um cara sério, mas a mulher… ah, a mulher...
O Agente Barros suspirou, com um olhar de quem estava apreciando uma obra de arte.
— O que tem a mulher? — eu perguntei, sentindo uma curiosidade que eu não sabia que tinha.
— É a mulher mais bonita que eu já vi na minha vida. Cabelos negros e longos, olhos de leoa, e um corpo... É uma escultura grega, Lucas. E ela está com uma roupa que, meu Deus. Uma calça jeans colada e uma blusa preta de alcinha que, meu Deus.
Eu ri. O Agente Barros era conhecido por ser um veterano mulherengo, e ele não perdia a oportunidade de fazer um comentário sobre uma mulher bonita.
— Calma, Barros. Você vai ter um infarto. Ela é a irmã do traficante. E ela está com um advogado. Vamos nos concentrar no trabalho.
O Barros riu.
— Que pena que você não a viu, Lucas. Eu juro, ela é uma das mulheres mais bonitas que já vi na vida.
Nesse momento, o Rafael, que estava em silêncio, levantou a cabeça e olhou para o Barros. Havia um lampejo de raiva em seus olhos.
— Não fala da minha irmã — ele disse, com a voz carregada de ódio.
O Barros se calou. O respeito pela família de um criminoso era um dos códigos da profissão.
— Vamos. A gente vai levar o Rafael para a cela temporária. O advogado dele está na sala de espera — eu disse, me levantando.
Nós saímos da sala de interrogatório e levamos Rafael para a cela. Ele andava em silêncio, com o olhar perdido, e eu sentia uma pontada de pena. Ele era um garoto, e estava jogando a vida fora.
Depois de levá-lo para a cela, eu e o Barros fomos para a sala de policiais. A sala estava vazia, e eu me sentei em uma das cadeiras.
— Sinceramente, Lucas. Eu não sei como você ainda não viu a mulher. Ela é um espetáculo — o Barros disse, com um sorriso.
Eu ri. Eu tinha uma namorada, Sofia. Uma mulher que eu amava e que eu respeitava. Eu não podia me permitir pensar em outra mulher, muito menos na irmã de um criminoso.
— O que você acha que vai acontecer, Barros? — eu perguntei, mudando de assunto.
— Eu acho que ela vai tentar de tudo para tirar o irmão da cadeia. E, pelo que eu vi, ela tem força de vontade.
Eu me calei. A descrição de Barros sobre Isabela me incomodava. Eu não a conhecia, mas eu me sentia intrigado. O que uma mulher tão linda, com tanta força de vontade, estava fazendo com um irmão tão problemático?
Eu não tinha a resposta. Mas eu sabia que, a partir de agora, a minha vida e a dela estavam conectadas. E, para o meu desespero, eu sentia uma curiosidade perigosa. A curiosidade que, em breve, me levaria a um caminho que eu jamais imaginei que seguiria.