Capítulo 8

863 Words
Lucas narrando O sol do amanhecer em Foz do Iguaçu nunca me pareceu tão cansativo. A luz, que devia ser um sinal de renovação, parecia apenas iluminar a exaustão que eu sentia em cada parte do meu corpo. A noite de plantão tinha sido longa. O caso de Rafael Andrade consumiu a maior parte das minhas horas, e a frustração com o silêncio dele ainda pesava na minha mente. A imagem do garoto, assustado e calado, e as palavras do Barros sobre a irmã dele, não saíam da minha cabeça. Eu entrei na viatura, o cheiro de café e de estofado velho me dando uma sensação de familiaridade. A estrada estava tranquila, e eu dirigi em direção ao meu apartamento. A minha única vontade era de tomar um banho quente, me deitar na minha cama e ter um momento de paz. Eu só pensava em chegar em casa e encontrar Sofia, minha namorada. Eu a amava, e a sua presença era a minha âncora, o meu porto seguro em meio ao caos da minha vida. Quando estacionei o carro, um carro que eu não conhecia estava estacionado na minha vaga. Era um carro caro, um modelo de luxo que eu sabia que eu nunca poderia comprar. Uma pontada de desconfiança me atingiu, mas eu tentei ignorar. Talvez um amigo da Sofia estivesse na cidade. Eu entrei no meu prédio, subi as escadas e me aproximei da minha porta. A porta estava entreaberta. Um arrepio subiu pela minha espinha. A Sofia era cuidadosa, ela nunca deixaria a porta aberta. Eu empurrei a porta, e o silêncio da casa era quebrado por um som que eu não conseguia identificar. Era um som abafado, um som de risadas e de vozes. O meu coração começou a bater mais forte. O meu corpo, treinado para situações de perigo, entrou em alerta. Eu peguei a minha arma e entrei em casa, o meu coração batendo tão forte que eu sentia que ele iria saltar do meu peito. E então eu vi. Na minha sala, no meu sofá, a minha namorada, Sofia, estava com outro homem. Eles estavam rindo, e ele estava com a mão na coxa dela. O meu mundo, que antes era de lei e de ordem, se desfez em pedaços. Eu não senti raiva. Eu não senti dor. Eu senti um vazio, um vácuo em meu peito, uma sensação de que tudo o que eu acreditava, tudo o que eu tinha, era uma mentira. A Sofia me viu, e o sorriso dela se transformou em uma máscara de medo. O homem, que era um cara alto, musculoso, com a aparência de quem era dono do mundo, me olhou com um olhar de quem havia sido pego em flagrante. — Lucas, eu posso explicar — ela disse, a voz trêmula. — Não precisa, Sofia. Eu já entendi tudo — eu respondi, com a voz tão fria que eu me assustei. Eu me virei e fui para o quarto. Eu peguei a minha mochila, coloquei a minha farda, e me virei para a porta. O meu olhar se perdeu no meu quarto, no meu mundo, no meu porto seguro que agora estava em ruínas. Sofia me seguiu. Ela estava chorando, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, mas eu não sentia nada. O vazio em meu peito era tão grande que eu não conseguia sentir. — Lucas, por favor, me perdoa. Eu juro que eu te amo. Foi um erro. — Foi um erro, Sofia? Um erro que você cometeu na minha casa, na minha cama? — Por favor, não faz isso. A gente pode conversar. A gente pode resolver isso. — Não tem o que resolver, Sofia. A gente acabou — eu respondi, a voz seca. Eu saí do quarto e fui para a sala. O homem estava lá, parado, com a aparência de quem não sabia o que fazer. Ele olhou para mim, e eu vi o medo em seus olhos. — Se eu fosse você, eu sairia da minha casa, agora — eu disse, a voz baixa, mas carregada de uma raiva que eu estava tentando controlar. O homem se vestiu rapidamente e saiu. Eu olhei para Sofia, e o meu coração se partiu em mil pedaços. Eu a amava. Eu a amava com todo o meu coração. E ela me traiu. Ela me trocou por outro. Eu saí da minha casa e fui para a rua. A luz do sol da manhã de Foz do Iguaçu me atingiu com uma força que eu não conseguia suportar. Eu entrei no meu carro e dirigi, sem rumo. O meu mundo, que antes era de ordem, de lei e de rotina, se transformou em um mundo de caos, de traição e de vazio. Eu não sabia para onde ir. Eu não sabia o que fazer. Eu só sabia que a minha vida havia mudado, e que a minha única certeza, o meu único porto seguro, havia se perdido. E, no meio de todo esse caos, a imagem de uma mulher de cabelos negros e olhos de leoa, que eu ainda não conhecia, me veio à mente. O destino, que antes me parecia tão justo, agora me parecia c***l.
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