Capítulo 19

523 Words
Lucas narrando O motor da viatura roncava suavemente, um som familiar que preenchia o silêncio entre nós. Barros estava com um sorriso no rosto, um que ele só tinha quando algo o impressionava de verdade. Eu, por outro lado, ainda sentia um calor no peito. A imagem de Isabela, com o rosto corado de vergonha, o sorriso tímido enquanto falava das unhas... Aquilo me tocou de um jeito que eu não esperava. — Lucas, que mulher, hein? — Barros disse, quebrando o silêncio. — E que vestido. Me pergunto se ela sabia que a gente estava por perto. Se ela soubesse, teria furado o pneu antes. Eu ri, balançando a cabeça. — Conheci ela na praça. Depois na academia, e agora isso. Ela é diferente, sabe? Não é do tipo que se joga, mas tem um jeito que... me pegou. Barros assentiu, a expressão agora mais séria. Ele pegou o rádio, fez uma checagem rápida de rotina e, depois de largá-lo, me olhou de lado. — Eu sei quem ela é, Lucas. O ar na cabine pareceu rarear. O sorriso em meu rosto murchou, e um frio percorreu a espinha. — Como assim? — Ela é a irmã de Rafael Andrade. Aquelas palavras foram como um soco. A imagem de Rafael, o traficante que tínhamos prendido há algumas semanas, o rosto arrogante e o olhar de desprezo, invadiu a minha mente. O nome, que era apenas mais um em uma longa lista de criminosos, agora tinha um rosto e, pior, um elo com a mulher que não saía da minha cabeça. — Não pode ser. — É, Lucas. Eu vi o nome dela na ficha do irmão também conversei com ela aquele dia na delegacia. A menina, a que eu te falei que era gostosa demais, é a irmã dele. Eu passei a mão pela nuca, sentindo o conflito borbulhar. — Mas... isso não tem nada a ver, né? — minha voz saiu mais como uma pergunta do que uma afirmação. — É errado eu me interessar na irmã de um traficante? Barros me olhou, e no seu rosto não havia julgamento, apenas a calma de um veterano que já tinha visto de tudo. — Errado? Não. O crime foi dele, não dela. Você e eu sabemos que, na maioria das vezes, a família não tem nada a ver com as escolhas de um criminoso. Pela ficha dela e da mãe, as duas são trabalhadoras, nunca se envolveram. São vítimas, Lucas, não criminosas. Estão carregando o fardo de um erro que não foi delas. As palavras dele trouxeram um alívio imenso. Era a permissão que eu precisava. O fardo do meu trabalho, que por um momento parecia um muro entre nós, agora parecia ter uma pequena porta. A situação era complicada, sim, mas não era impossível. A atração que eu sentia por ela era real, e o fato de ela ser irmã de um criminoso não mudava quem ela era. Pelo menos, não para mim. Eu estava em uma encruzilhada, entre o meu trabalho e o meu coração. E pela primeira vez em muito tempo, meu coração parecia ter uma chance de vencer.
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