Fogo

977 Words
A manhã começou em silêncio, como se o mundo ainda não soubesse que minha vida estava prestes a dar uma guinada inesperada. Havia me levantado cedo, com o estômago revirado e a mente saturada de pensamentos. m*l tinha provado o café, mas já sentia que precisava de algo mais forte que cafeína para enfrentar o dia. E, como se o destino estivesse zombando de mim, às dez em ponto, a campainha tocou. Abri a porta com cautela, e lá estavam eles. — Bom dia, senhora Lesters — disse o primeiro, um homem de uns cinquenta anos, com óculos retangulares, terno escuro e expressão diplomática —. Sou o doutor Navarro, advogado do senhor Kendell Lesters. Ele nos pediu para nos reunirmos com a senhora para discutir os termos do ano estipulado pelo testamento. — E ele não pôde vir pessoalmente? — respondi com uma sobrancelha erguida, cruzando os braços sobre o peito. O advogado sorriu com cortesia. — Ele considerou mais prudente que esta parte do processo seja manejada com neutralidade. Neutralidade. Claro. Como se algo em nossa história tivesse sido neutro. — Entrem — disse-lhes, dando um passo para o lado —. Suponho que não me resta outra opção a não ser escutar. Sentamo-nos na sala principal, ao redor da antiga mesa de madeira onde minha mãe costumava servir o chá. O lugar estava limpo, fresco, com o aroma do passado ainda flutuando no ar. Sentei-me com as pernas cruzadas e o rosto impassível. Mais dois advogados se uniram à conversa. Um tomava notas; o outro me observava como se eu fosse uma peça de xadrez que devessem mover com cuidado. — Antes de mais nada — começou Navarro, ajeitando os óculos —, queremos deixar claro que tudo isto responde a uma vontade testamentária estrita. Nosso cliente deseja cumpri-la nos termos mais cordiais possíveis. Gostaríamos de lhe apresentar a proposta inicial. Assenti, sem falar. — Durante os próximos doze meses, a senhora e o senhor Kendell Lesters deverão manter um vínculo conjugal formal. Aparência pública de casamento estável, assistência conjunta a eventos familiares e cumprimento de uma convivência mínima. Ergui uma sobrancelha. — Convivência mínima? — Sim. A cláusula principal exige que vivam sob o mesmo teto e que passem, como foi dito na leitura, ao menos um mês completo na casa do lago, dois meses antes de o prazo terminar. Lá estava. O confinamento final. A cereja no bolo do inferno. — Entendo — respondi com calma —. Posso falar agora? — Com certeza — disse Navarro, sorrindo. Inclinei-me um pouco para frente, deixando que minha voz adquirisse aquele tom que eu costumava usar quando negociava com investidores: suave, pausado... letal. — Eu também tenho condições — disse, olhando para cada um deles —. E não vou negociar nenhum destes pontos. Os três advogados trocaram olhares. O que tomava notas levantou a cabeça. — Primeiro — disse, sem hesitar —, não compartilharei Kendell com Amanda. Se este ano deve parecer um casamento, quero respeito, ao menos na forma. Quero que ele corte toda relação sentimental com ela durante estes doze meses. — Mas senhora Lesters... — começou um deles. Levantei a mão, interrompendo-o. — Não me interessa se ele está apaixonado por ela, se sente falta dela ou se acredita que não pode viver sem seus abraços. Não vou ser o deboche da família dele. Se querem que isto funcione, quero exclusividade. Não emocional. Não s****l. Pública. Que ele não seja visto com ela nem em eventos, nem em hotéis, nem nas redes sociais. Se isso lhes parece exagerado, podem doar toda a herança para a caridade desde já. Silêncio. — Está pedindo uma separação formal durante esse ano? — perguntou Navarro, com tom precavido. — Exatamente. Papéis assinados. Uma ruptura clara. Não vou sorrir para a imprensa enquanto ele segura a mão de outra. — E suas outras condições? — Segundo — continuei —, ele viverá nesta casa. — Perdão? — interveio outro advogado. — Sim. Não voltarei para aquela mansão. Nunca mais. Se ele quer cumprir o ano, que o faça nesta casa, com as minhas regras. Sem empregados, sem serviço, sem seu enorme quarto com vista para o jardim. Aqui. Onde tudo começou. Navarro franziu levemente o cenho. — A senhora acredita que o senhor Lesters aceitará isso? — Se não aceitar, então que prepare seu discurso para quando a fortuna de seu avô acabar nas mãos de organizações beneficentes. O silêncio voltou a cair como um lençol grosso. Os advogados se olharam entre si. Não estavam acostumados a que uma mulher falasse com firmeza. Menos ainda com uma língua afiada e o coração blindado. — E por último — disse, recostando-me na cadeira com calma fingida —, quando o ano terminar, não quero voltar a vê-lo jamais. Nada de jantares de reconciliação. Nada de cartas, mensagens ou encontros casuais. Nada. Um dos advogados engoliu em seco. — Deseja incluir essa cláusula por escrito? — Isso mesmo. Preciso de um encerramento emocional. Legal. Real. Se ele aceitar, estarei disposta a interpretar o papel de esposa durante doze meses. Farei o necessário, fingirei, irei aos eventos, inclusive o suportarei na casa do lago. Mas ao finalizar tudo, será o fim. Os advogados anotaram tudo em silêncio. Navarro assentiu com gesto profissional. — Entendido. Faremos chegar à senhora uma cópia revisada do acordo com suas condições. Coloquei-me de pé com elegância. — Ah, uma coisa mais — disse antes de eles irem embora —. Se Kendell tiver alguma objeção, que venha me dizer pessoalmente. Desta vez, sem intermediários. Escoltei-os até a porta e, quando saíram, tranquei-a. Meu coração batia com força. Não porque temesse o ano que viria... Mas porque, no mais profundo de mim, sabia que brincar com fogo nunca termina bem. E Kendell Lesters era o incêndio mais perigoso que eu já tinha conhecido.
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