As regras do jogo

1087 Words
Haviam passado pouco mais de duas horas desde que os advogados de Kendell abandonaram minha casa. Eu tinha me servido de uma taça de vinho, embora nem fosse meio-dia. Deixei-a pela metade sobre a bancada, enquanto caminhava descalça pela sala. O silêncio da casa me envolvia como um lençol pesado e, apesar de eu tratar de me manter serena, uma parte de mim sabia que aquela calma era o prelúdio de uma tempestade. E não me equivoquei. O rugido de um motor esportivo rompendo a quietude da vizinhança me pôs em alerta. Espreitei pela janela do corredor e o vi. Kendell. Desceu do carro como se o mundo lhe devesse uma desculpa. Como se ele fosse a vítima nesta história. Cruzei os braços, esperando. — Assim que já impôs suas condições... — disse ele, entrando sem esperar permissão. — Não sabia que agora batia na porta apenas por formalidade. Ou a Amanda te ensinou modos? Não respondeu, apenas virou-se para mim, aproximando-se com passos pesados. — Venho te dizer algo antes de assinar esse papel e******o — disse com a mandíbula tensa —. Não vou deixar a Amanda sozinha, ela está grávida do meu filho, Ana. Isso entra na sua cabeça? Cruzei os braços, obrigando-me a sorrir. — Sabe o que entra na minha cabeça, Kendell? Que se ela te importa tanto, você não deveria estar aqui falando comigo, mas sim lá, cuidando da sua mulherzinha. Mas claro... para você tudo é uma questão de território, não de afeto. — Não me provoque, Ana. Só vim falar dos termos. Sorri com malícia. — Que demônios você está fazendo? — disparou assim que me viu, seus olhos brilhando de raiva contida —. Você disse aos meus advogados que devo me afastar do meu filho durante um ano? Que tipo de mulher você é? — Ah, já chegaram a essa parte do contrato? — perguntei com fingida inocência, encostando-me no batente da porta —. Achei que você veria com mais madureza. Mas claro, esqueci com quem estava falando. — Não se atreva a jogar comigo, Ana! — rugiu, dando um passo em minha direção. — Jogar com você? — ri amargamente —. Por favor, Kendell, não se dê tanta importância. Isto não é sobre você. É sobre dignidade. Sobre respeito. Sobre o fato de que não estou disposta a ser a mulher que sorri enquanto seu —marido— dá beijos na boca de outra. Ele apertou os punhos. — A Amanda está grávida, caso tenha esquecido! — E você esqueceu que continuamos casados — retruquei com frieza —. Você e eu. Não você e sua amante. — Não fale assim dela! — Assim como? A verdade? Que você se deitou com ela enquanto ainda dormia na minha cama? Que ela debochou de mim na frente da sua família e você não moveu um maldito dedo? Sua mandíbula se tensionou. — Ana, a Amanda vai ter um filho meu. Não posso dar as costas para ela. — Não estou te pedindo para fazer isso — respondi, desta vez mais tranquila, mas com o fio da lâmina intacto —. Estou te pedindo para não me fazer passar ridículo. Que por uma vez na sua vida você seja capaz de cumprir uma única promessa sem se esconder atrás dos seus caprichos emocionais. — Isto não é um capricho! — gritou ele —. Estou formando uma família! — Você já tinha uma, Kendell! — gritei eu de volta —. Uma que você destroçou com suas mentiras, suas ausências, seus segredos! E agora vem me falar de formar uma família? Depois que você me usou como fachada para herdar o império do seu avô? Ele ficou calado. Respirava com força, como se cada palavra que eu dizia o atingisse direto no peito. Eu também estava arquejante, com os olhos ardendo. Mas não ia ceder. — Não é tão simples quanto você acredita — murmurou por fim. — Nunca foi — repliquei —. Mas não vou continuar sendo a mulher na sombra, enquanto a Amanda se pavoneia como sua verdadeira esposa. — Você não entende! Não posso deixá-la sozinha com o bebê! — E, no entanto, parece-lhe perfeitamente razoável me obrigar a fingir com você durante um ano inteiro — disse, com os olhos fixos nos dele —. Sabe o que me dá mais raiva? Que você nem sequer veio me pedir para fazer isso. Mandou seus advogados. Como se eu fosse uma propriedade a mais em seus documentos legais. Kendell baixou o olhar por um segundo. Depois se aproximou de mim. Perto demais. — Não te pedi para fazer isso porque sabia que você me diria que não — sussurrou com voz baixa, carregada de tensão. — Pois agora te digo que sim — respondi com a mesma calma —. Mas sob as minhas regras. Se você quer a herança, se quer cumprir o capricho do seu avô... então você vai se separar da Amanda por este ano, vai viver aqui, nesta casa, e vai me tratar com respeito. Porque se não, Kendell, não apenas perderá a fortuna. Vai me perder para sempre, embora isso não te importe. Ele me olhou. Com raiva. Com confusão. Com algo mais que não quis identificar. E de repente, sem aviso prévio, segurou-me pela cintura e me atraiu para ele. Sua boca encontrou a minha com uma mistura brutal de desejo e desespero. Um beijo que era guerra. Que era rendição. Que era uma súplica disfarçada de ataque. Empurrei-o uma vez. Ele não parou. Empurrei-o outra... e acabei puxando sua camisa, devolvendo o beijo com toda a raiva contida que eu havia guardado durante meses. Sua mão se agarrou à minha nuca. A minha golpeou seu peito. Não havia lógica. Não havia coerência. Apenas aquela maldita faísca que sempre, sempre, acabava nos incendiando quando menos devíamos. Separamo-nos enfim, arquejantes, nossas testas encostadas, trêmulos. Minha voz saiu quebrada. — Isto não muda nada, Kendell... — Eu sei — sussurrou ele, sem se afastar — Mas também não posso evitar, eu te acho tão viciante, você é uma maldita droga. Afastei-me lentamente, sem olhá-lo mais. — Terá minha resposta final em quarenta e oito horas — disse ele, sem parar de me olhar. — Enquanto isso... fora da minha casa — respondi tentando me acalmar. Ele não disse nada. Apenas assentiu com a cabeça e se retirou. E eu, pela primeira vez em anos, senti que havia vencido... embora a vitória me deixasse com a alma em ruínas.
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