O celular era velho, com a tela rachada e os botões falhando. Conseguir aquele aparelho dentro da Penitenciária Santa Cruz tinha sido um jogo de paciência, favores e ameaças. Não era bonito, não era moderno, mas funcionava. E para mim, funcionar era tudo o que importava.
Na cela, o silêncio da madrugada era quebrado apenas pelo som distante de correntes e passos pesados dos guardas. Eu me sentava no canto, costas contra a parede fria, o celular escondido dentro de uma sacola plástica. O cheiro de mofo misturado ao suor dos presos impregnava o ar. Apertei o botão verde, e depois de alguns segundos, a voz rouca e firme de Lucas, o 22K, ecoou do outro lado.
— E ai, chefe. Tá me ouvindo?
— Tô ouvindo, por.ra. — respondi, baixo, mas firme. — Como tá o morro?
Houve um silêncio breve, seguido de uma risada curta.
— O morro tá no controle, Coringa. Os caras tão respeitando. A boca tá vendendo bem, o dinheiro tá entrando. Caveira anda se mexendo, mas nada que a gente não segure.
Fechei os olhos, respirando fundo. Caveira. O nome queimava na minha mente como uma ferida aberta.
— Esse filho da put.a acha que vai segurar território. Mas quando eu sair, vai cair. Tá ligado, né?
— Tô ligado. — 22K respondeu sem hesitar. — Já deixei os meninos avisados. O morro é nosso.
Silêncio. Eu olhava para as tatuagens no meu braço, lembrando de cada invasão, cada sangue derramado. O celular chiava, mas a voz de 22K era clara, firme, como sempre.
— E as vendas? — perguntei. — Quero número.
— Tá girando bem. Cocaína tá saindo rápido, maconha também. O pó tá chegando direto, sem corte. O lucro tá limpo. A gente tá rodando uns cinquenta mil por semana só na Esperança.
Sorri, mesmo sozinho na cela.
— É isso que eu gosto de ouvir. Dinheiro não dorme, 22K. Dinheiro é poder.
— Dinheiro é respeito. — ele completou. — E respeito é o que segura o morro.
Ficamos alguns segundos em silêncio, como se estivéssemos lembrando juntos das noites de guerra, dos tiros, das corridas pelas vielas. Eu sabia que 22K era leal. Ele não falava muito, mas cada palavra dele carregava peso.
— Escuta, irmão. — falei, mudando o tom. — Amanhã tem visita íntima. Quero que você mande umas put.as pra cá e quero um celular novo, bom.
Do outro lado, ouvi a risada abafada de 22K.
— Sempre direto, né, Coringa? Tá bom. Vou mandar duas. As melhores, junto com o aparelho zero.
— Não quero qualquer uma. Quero mulher que saiba o que tá fazendo. — respondi, firme. — Aqui dentro, visita é mais que prazer. É respeito. Os caras precisam ver que eu ainda mando.
— Tá tranquilo. Vou ajeitar. — disse 22K. — Já falei com o pessoal. Amanhã elas tão aí.
Apertei o celular contra o ouvido, olhando para o teto da cela.
— Esse lugar tenta me quebrar, mas não consegue. Eu sou o Coringa. E quando eu sair, vai ter guerra.
— Vai ter sangue. — 22K completou.
— Vai ter Caveira morto. — acrescentei, com a voz carregada de ódio. — Esse filho da pu.ta me armou, me botou aqui dentro. Mas eu vou sair. E quando eu sair, ele vai pagar.
Do outro lado, silêncio. Eu sabia que 22K não precisava responder. Ele entendia. Ele vivia a mesma guerra que eu.
— E os meninos novos? — perguntei. — Tão firmes?
— Tão firmes. — respondeu. — Já botei dois vapores novos na boca. Moleque bom, sangue no olho. Se der certo, vão crescer.
— Crescer é bom. Mas crescer sem respeito é morte. — falei. — Ensina eles direito. Mostra que no morro não tem espaço pra moleque frouxo.
— Pode deixar. — disse 22K. — Eles já sabem quem manda.
O celular chiava, mas a conversa fluía como se estivéssemos lado a lado. Eu podia imaginar 22K sentado na laje, olhando o morro iluminado pelas luzes fracas, cigarro na boca, arma no colo. Ele era meu braço direito, meu irmão de guerra.
— Escuta, 22K. — falei, mais baixo. — Eu não confio em ninguém além de você. Aqui dentro, todo mundo quer ver o Coringa cair. Mas você sabe que eu não caio.
— Você não cai. — ele respondeu, firme. — Você é o Coringa.
Sorri, mesmo sozinho.
— É isso. Eu sou o Coringa. E esse jogo ainda não acabou.
Ficamos alguns segundos em silêncio, cada um perdido em seus pensamentos. Eu lembrava das noites de invasão, do cheiro de pólvora, do som dos tiros. Lembrava das corridas pelas vielas, dos gritos, do sangue. Lembrava das 22 mortes que deram nome ao meu braço direito. E sabia que, juntos, éramos imparáveis.
— Amanhã, quando as putas chegarem, quero que todo mundo veja. — falei. — Quero que os guardas vejam, quero que os presos vejam. Quero que todo mundo saiba que o Coringa ainda manda.
— Vai ser feito. — disse 22K.
— E Caveira? — perguntei. — Alguma novidade?
— Ele anda se mexendo. Tentou fechar negócio com uns caras de fora. Mas eu já cortei. O morro é nosso.
— Esse filho da pu.ta não aprende. — falei, com raiva. — Mas vai aprender.
Silêncio. O celular chiava, mas eu podia sentir a presença de 22K do outro lado.
— Escuta, irmão. — falei. — Quando eu sair, vai ter guerra. Vai ter sangue. Vai ter Caveira morto. E o morro vai ser nosso.
— Vai ser nosso. — 22K respondeu, firme.
Fechei os olhos, respirando fundo. O celular velho chiava, mas a voz de 22K era clara, firme, como sempre. Eu sabia que, mesmo dentro da prisão, eu ainda mandava. Eu ainda era o Coringa.
E amanhã, quando as put.as chegassem na visita íntima, todo mundo ia lembrar disso.