O Peso da Coroa
O saguão do Terminal 3 do Aeroporto Internacional do Galeão operava em uma frequência que agredia os sentidos de Adden. Para um homem cuja mente trabalhava como uma máquina de alta precisão, acostumado a processar variáveis complexas e a ditar o destino de transações bilionárias com um leve aceno de cabeça, a impotência diante daquela imobilidade cronometrada era a pior das torturas. O tempo, que no universo corporativo era um ativo moldável e escasso, parecia ter se transformado em um fluido espesso, estagnado, que pesava sobre seus ombros. Ao redor dele, o estalar seco de saltos altos contra o piso de granito polido, as vozes abafadas dos alto-falantes anunciando voos para a Europa e o clique intermitente da câmera do celular de Mirela criavam uma cacofonia insuportável em sua mente.
Mirela acabou seu show. Ela guardou o aparelho por dois segundos para checar o engajamento, alheia ao fato de que a irmã caçula estava prestes a cruzar o oceano.
— Prontinho, Yace! Amiga, postei! O feed vai amar essa nossa despedida — Mirela exclamou, ajeitando os óculos escuros de grife sobre a cabeça, já entediada com o momento real. — Amor, se despede logo dela que eu preciso ir ao banheiro retocar o gloss antes que os paparazzi nos vejam saindo.
Quando Mirela se afastou, o mundo ao redor pareceu finalmente silenciar. Toda a rigidez corporativa, a postura implacável de 1,98m que intimidava diretores e a acidez que vinha distribuindo na empresa nos últimos dias simplesmente evaporaram. Restou apenas o homem.
Adden deu um passo à frente. Seus olhos castanhos, geralmente frios e calculistas, suavizaram ao focar na figura miúda de Yacemin diante dele. Sem pedir licença ao protocolo que sua posição de cunhado exigia, ele a envolveu em seus braços fortes. Puxou-a para perto, aninhando-a contra o peito robusto com uma intensidade que nunca, em anos de relacionamento, havia demonstrado por Mirela. Era um abraço de proteção, mas também de posse, de quem tenta segurar a areia que escapa por entre os dedos.
Yacemin colou o rosto no terno sob medida dele, aspirando o perfume amadeirado misturado ao cheiro salgado que sempre parecia acompanhá-lo por causa do surfe. Ela estava tremendo.
Ao afastar-se apenas o suficiente para encara-la, Adden sentiu o coração ser esmagado. Com os dedos grandes e bronzeados, mas surpreendentemente trêmulos, ele tocou o rosto dela. Devagar, colocou uma mecha de cabelo teimoso para trás da orelha de Yacemin, usando o polegar para secar uma lágrima real, pesada e quente, que insistia em cair dos olhos da garota. Diferente das lágrimas ensaiadas da irmã, aquelas machucavam.
— Vai, minha pequena Yace — sussurrou ele. A voz grave, que costumava ditar ordens em salas de reunião, saiu baixa, rouca e direcionada direto ao ouvido dela, arrepiando a pele da jovem. — Vá estudar e volte como uma grande CEO para trabalharmos juntos. Eu vou te esperar.
As últimas palavras não foram ditas da boca para fora. Foram um juramento. Cinco anos era uma eternidade para o mundo dos negócios, mas para o que queimava no peito de Adden, pareceria apenas um hiato necessário.
Antes de solta -la por completo, ele fechou os olhos e pressionou os lábios demoradamente contra a testa dela. O beijo foi suave, mas carregava uma densidade quase palpável.
No milésimo de segundo em que seus lábios tocaram a pele quente de Yacemin, o teto do aeroporto pareceu desabar e dar lugar a uma avalanche de memórias. Fechando os olhos com força, Adden foi arrastado para trás, visitinha os fragmentos de uma vida secreta que eles haviam construído à margem da realidade.
Ele se lembrou perfeitamente dos passeios de fim de tarde que faziam quando conseguiam escapar das obrigações sociais. Lembrou-se de caminhar ao lado dela por ruelas arborizadas, sentindo a brisa leve do Rio de Janeiro desarmar sua postura rígida. Havia uma cumplicidade silenciosa que não precisava de rótulos. Lembrava-se da troca de olhares furtivos que cruzavam as salas de jantar durante os jantares oficiais da família. Enquanto Mirela monopolizava as conversas falando sobre festas e marcas, os olhos de Yacemin encontravam os deles do outro lado da mesa. Era um canal exclusivo de comunicação: um semi cerrar de olhos dela o fazia rir por dentro; um olhar firme dele funcionava como um escudo, acalmando a ansiedade da jovem diante da futilidade ao redor.
Sua mente foi inundada pelas madrugadas em claro passadas no w******p, onde a distância das paredes da casa sumia na tela do celular. Ele se lembrou do brilho da tela no escuro do seu quarto, das intensas trocas de mensagens que se estendiam por horas, abordando desde os assuntos mais profundos até as bobagens mais cotidianas. Vinha à memória o som abafado de suas próprias risadas sinceras, lendo os áudios espontâneos que ela enviava e respondendo com provocações que só ela entendia. Eram conversas magnéticas, uma conexão tão viva que nenhum dos dois queria ser o primeiro a dizer "boa noite", digitando em um ritmo febril até que o sono finalmente os vencesse e ambos dormissem com o aparelho ainda quente nas mãos, embalados pelas últimas palavras um do outro.
Os momentos de descontração em família passavam como um filme nítido em sua mente. Ele se viu na casa de veraneio, sentado na grama, assistindo a Yacemin rir abertamente de uma piada boba, uma risada livre que Mirela jamais se permitiria dar para não borrar a maquiagem. Nesses dias, os abraços longos aconteciam sob o pretexto de cumprimentos cotidianos, mas ambos sabiam que duravam segundos a mais do que o socialmente aceitável. Eram abraços em que Adden sentia o corpo miúdo dela se moldar perfeitamente ao seu peito robusto, um encaixe tão exato que fazia o mundo exterior parecer um erro geográfico.
Uma memória em particular o fez marejar os olhos: uma tarde chuvosa na varanda, onde, entediados, começaram uma brincadeira boba de luta. Yacemin, com sua energia contagiante, avançara contra ele desferindo golpes fracos e risonhos, tentando derrubar a muralha de quase dois metros. Adden apenas sorria, defendendo-se com os braços imensos, deixando-a acreditar por alguns segundos que tinha alguma chance. No final, com uma facilidade quase poética, ele a envolvia pela cintura, suspendendo-a no ar enquanto ela esperneava e gargalhava, para então derrotá-la de forma gentil, desabando com ela sobre os tapetes macios. Ele a imobilizava com leveza, os corpos colados, os rostos a centímetros de distância, até que o riso dela cessava e dava lugar a um silêncio denso, onde a respiração de ambos se misturava e o desejo reprimido quase quebrava as regras do jogo.
De volta ao presente, enquanto o beijo na testa se prolongava, Adden sentiu o peso insuportável de tudo o que fora vivido e de tudo o que agora estava sendo pausado. A dor da iminente ausência daquela espontaneidade foi demais para o homem de ferro. Quebrando a postura implacável que o mercado financeiro tanto temia, Adden permitiu que algumas lágrimas reais, pesadas e carregadas de um sentimento sufocado, caíssem de seu rosto. Elas rolaram pelas suas bochechas bronzeadas e sumiram nos cabelos de Yacemin, deixando um rastro úmido que era a sua única e mais sincera confissão de amor.
Havia ali um respeito profundo pela juventude e pelos sonhos dela, mas também uma promessa silenciosa de fidelidade ao que ambos sabiam, no fundo de suas almas, que existia entre eles — uma química sufocada pelas circunstâncias, mas longe de ser extinta.
Yacemin prendeu a respiração, assimilando o peso daquele toque e a umidade sutil que ele deixara em sua pele, antes de pegar sua mala de mão. Ela não olhou para trás quando deu os primeiros passos em direção ao canal de embarque, com medo de que, se olhasse, desistiria de tudo para ficar naquela órbita.
Adden permaneceu estático, observando a silhueta dela desaparecer na multidão da segurança. Seus punhos se fecharam nos bolsos da calça social. Ele sentia-se mais velho do que seus trinta anos. Sentia o peso de sua coroa corporativa esmagá-lo, sabendo que teria que voltar para a futilidade de sua rotina e para um noivado de aparências enquanto seu verdadeiro motivo de paz cruzava o Atlântico.
À distância, escondida atrás de uma pilha de malas de uma família de turistas, Mirela havia retornado mais cedo do que o esperado. Ela não estava no banheiro. O celular de última geração continuava erguido, a lente focalizada perfeitamente no abraço, no sussurro, no choro silencioso e no beijo de despedida que Adden dera em sua irmã.
A tela do aparelho mostrava o círculo vermelho da gravação avançando. Na tela, o foco automático capturara a intensidade nos olhos de Adden e o brilho das lágrimas que haviam escapado de seu rosto — uma expressão de vulnerabilidade absoluta que ele nunca direcionara à noiva. Mirela abaixou lentamente o aparelho, com as sobrancelhas levemente arqueadas. Ela não parecia triste ou traída; seus olhos brilhavam com o faro de quem acabara de encontrar o roteiro perfeito para o seu próximo grande drama de engajamento, ou talvez, a arma perfeita para manter o CEO exatamente onde ela queria.