Era noite quando fui buscar meu pedido na portaria, estava faminta e sem coragem de cozinhar. Bernardo chegava naquele momento, vestia uma camisa branca e calça social. A mochila pendurada no ombro indicava que ele voltava do trabalho. Eu o cumprimentei com um aceno e um sorriso discreto. Ele também sorriu, mas pareceu um pouco mais feliz do que eu esperava.
Procurei não ficar constrangida por estar vestindo uma camiseta do Pernalonga e uma calça de moletom. Entretanto, não era como se fosse possível chamar a atenção dele. Também nunca fiz o tipo que tem interesse em homens comprometidos.
O nosso prédio tinha cinco andares somente e às vezes eu preferia não usar o elevador, porque tinha medo de ficar presa. Eu odiava lugares apertados, era mais seguro usar as escadas. Mas naquele dia eu estava com muita fome e só queria voltar para o meu apartamento rapidinho.
— Segura o elevador — pediu, enquanto pegava uma encomenda.
Fiz o que ele pediu, sentindo certo desconforto. Bernardo era muito bonito e eu não estava nos meus melhores dias. Ainda que não importasse. Ele entrou em questão de segundos, só deu tempo de ajeitar disfarçadamente meus cabelos para ficar um pouco mais apresentável.
— Obrigado — agradeceu, então as portas se fecharam.
— Imagina — ele encostou ao meu lado, senti seu perfume e tentei me concentrar no cheiro da comida chinesa para me manter segura.
Eu não notara antes o quanto Bernardo era alto e, apesar de eu mesma ter um tamanho satisfatório, ainda assim batia em seu ombro.
— Beatriz — me sobressaltei por um segundo, mas me recuperei rápido — Quero pedir desculpa pela falta de noção da Rebeca.
— Ah, que isso! — contestei, mexendo nervosamente no cabelo. — Não tem problema nenhum.
Não costumávamos trocar mais do que duas ou três palavras quando nos esbárravamos, nossos horários não batiam e era raro nos encontrarmos no prédio ou fora dele. Agora eu precisava continuar mantendo uma certa distância do Bernardo, porque homem bonito desse jeito não servia se fosse comprometido.
Por instinto olhei para suas mãos, nada de aliança em nenhuma das duas. A menos que ele tivesse um dedo anelar escondido.
— Mesmo assim fico constrangido, já pedi pra ela não te incomodar mais com bobagens — dei risada.
— Esquece isso, sério. — A porta se abriu e eu escapuli para o meu apartamento.
Estaria segura se continuasse a manter distância do Bernardo como vinha fazendo desde que ele chegara aqui. Não podia permitir que a quedinha que eu nutria por ele atrapalhasse nossa convivência.
Fechei a porta e abri meu pedido, o cheiro de comida chinesa impregnou o apartamento. Era tudo o que eu precisava, ficar sozinha para traçar as metas da minha vida dali em diante. Eu sabia que Fernanda não me deixaria desfrutar da minha fossa por muito tempo. Logo ela ia bater na minha porta, mas eu aproveitaria enquanto isso. Tinha um pote de sorvete de flocos na geladeira, os filmes de Natal que não tive tempo de ver no final do ano estavam todos em fila da Netflix. A vida era boa. Pelo menos hoje eu me permitiria aproveitar.
Comi como se não houvesse amanhã. O tempo esfriou, então eu busquei uma manta mais quente para me aquecer. Até que a vi… Uma barata voadora deu um rasante no meu rosto e eu gritei com todo o ar dos meus pulmões. Corri para o corredor do apartamento, porque não dava para entrar em outro cômodo ou ela ia me alcançar.
Droga!
Eu só queria um pouco de paz.
Estava tudo escuro e silencioso no apartamento do Bernardo. Portanto, fiquei ali no corredor pensando no que fazer. Eu era uma mulher feita, deveria enfrentar a barata e mostrar quem é que manda. Mas de todos os insetos eu detestava baratas. Elas eram nojentas e asquerosas. Se fosse um rato eu não me importaria, mas uma barata voadora?
Era demais para mim.
Ensaiei chamar qualquer outro vizinho para me ajudar, só que já passava das onze da noite. Eu não incomodaria ninguém por causa de uma barata. Mas também não podia dormir no corredor, precisava mostrar quem era a dona do apartamento e não era aquela barata horrorosa... Encostei na parede, deslizando até o chão, e fiquei por vários segundos, buscando coragem para entrar no meu apartamento e exterminar a ameaça. Até que a porta do Bernardo abriu e eu quase tive um treco ao notar que ele estava sem camiseta.
Seus olhos estavam inchados e os cachos apontavam para todas as direções. Indicando que ele acabara de acordar.
— Beatriz, o que faz aqui fora? — perguntou, esfregando o olho direito. — Ouvi um grito, pensei que alguém estava com problemas.
Quase dei risada, porque ele pareceu bem mais novo do que imaginava ser. E porque eu definitivamente estava com problemas.
— Uma barata voadora me deu ordem de despejo — falei baixinho, morrendo de vergonha.
Ele riu.
— Não sei se ouvi direito, mas entendi que você fugiu de uma barata — seu tom de voz entregou uma pitada de diversão.
Acabei rindo também, porque era extremamente vergonhoso ser flagrada naquela situação.
— É isso — confessei, dando de ombros.
Evitava olhar para cima propositalmente, era melhor ele colocar uma camiseta para mantermos uma conversa civilizada.
— Quer ajuda? — ofereceu, agachando ao meu lado.
Ainda evitava olhar para o Bernardo, mas seria falta de educação continuar. Então eu foquei apenas em seus olhos cor de chocolate.
— Não que eu realmente precise, sabe? — esclareci — Mas se estiver disposto…
— Sei — ele riu outra vez e levantou.
Em seguida me estendeu a mão, que eu aceitei por educação. Seus dedos seguraram os meus por alguns segundos, antes de eu me afastar. Sua mão estava quente, mas eu não queria pensar nisso ou na sensação que seu toque me causava. A barata era minha prioridade e mesmo sem aliança, eu não deveria fantasiar sobre o quão agradável foi estar perto dele.
— Vamos? — indiquei meu apartamento mesmo querendo não parecer muito desesperada.
— Só vou vestir uma camiseta — assenti e ele entrou.
Aguardei do lado de fora, torcendo para Bernardo cair na minha mentira deslavada de que não precisava de ajuda. Mas sabia que não ia enganar ninguém, muito menos ele. Desejei sim que meu vizinho não me achasse medrosa e patética, então refleti que não importava o que Bernardo pensava de mim. Desde que dê um fim naquele bicho asqueroso.
Ele voltou vestindo um moletom de capuz e eu agradeci a iniciativa em pensamento. Menos distração para mim, tirando o fato de que a Rebeca provavelmente estava dormindo e, se ela acordasse, com certeza não ia gostar de encontrar o marido no meu apartamento.
— Você avisou a Rebeca que vai me ajudar? — Perguntei, dando espaço a ele.
Bernardo deu uma risada esquisita, eu abri a porta e o empurrei para dentro porque tinha preocupações maiores.
Sua atitude não foi esclarecedora, mas ele só ia botar a barata para fora. Ela não tinha porque se incomodar, certo? Eu sempre ajudava com pequenas coisas quando Rebeca precisava de algo. Ela poderia me emprestar o Bernardo uma vez na vida. Ainda que algum vizinho o flagrasse entrando no meu apartamento tarde da noite e interpretasse errado… Balancei a cabeça, era só uma m***a de uma barata!
Em questão de segundos a maldita passou voando por nós.
— Ah! — Gritei, me escondendo atrás do Bernardo.
— Acho melhor você esperar lá fora ou vamos tomar uma multa por causa do barulho — avisou, eu nem protestei.
Fiquei no corredor pelo que pareceu uns cinco minutos. Até ele surgir na minha frente e abrir um sorriso vitorioso.
— Você está segura agora — mordeu o lábio de leve, e eu não sei o que me deu.
Simplesmente pulei em seu pescoço e o abracei.
— Uau, se eu soubesse que você me agradeceria assim — recuei imediatamente.
Caramba!
O que eu estava fazendo?
— Desculpa — fechei os olhos e dei outro passo para trás. — Obrigada pela ajuda, eu já vou indo.
Fechei a porta e fiquei ali, com o rosto vermelho de vergonha. Pelo amor de Deus, eu abracei um cara comprometido. Era só o que me faltava, desempregada tudo bem, mas talarica não!
Achei melhor ir dormir, antes que surgisse outro inseto no meu apartamento. Ouvi barulho da porta do Bernardo se fechando e apaguei as luzes. Fui para o meu quarto com uma sensação estranha no peito. Eu agi feito uma doida, o abracei e fugi. Era melhor encontrar um emprego bem rápido, antes que coisas piores acontecessem.