No outro dia, acordei cedo, coloquei uma roupa confortável e decidi correr. Precisava espairecer a mente. Era feriado, mas para os desempregados não fazia diferença. Deixaria para tomar café quando voltasse, pretendia correr por pelo menos quarenta minutos.
— Bom dia — a voz ligeiramente rouca do Bernardo me sobressaltou.
Eu preferi descer de escadas, o clima estava bom e nesse horário sempre tinha fila nos dois elevadores. Afinal, nem todo mundo tinha o privilégio de folgar nos feriados.
— Oi — respondi, sem olhar para ele.
Bernardo teve a mesma ideia que eu, então descemos juntos.
— Dormiu bem? — Indagou com uma pitada de travessura na voz.
— Sim, obrigada pela ajuda de ontem — olhei de relance para Bernardo para não ser m*l educada ou deixar transparecer que o evitava propositalmente.
Ele estava lindo e extremamente cheiroso. Dava v*****e de fungar no seu pescoço e… abstraí o pensamento insano. Não podia deixar a minha queda pelo Bernardo ressurgir. Quando ele se mudou para cá, fiz um bolo para dar boas-vindas e então em menos de um minuto a Rebeca surgiu atrás dele toda sorridente. Ela acenou para mim e depois de chamá-lo por um apelido carinhoso, deixou um beijo em sua bochecha e saiu do apartamento. Naquele momento eu soube que não teria chances, logo após fui promovida no meu antigo emprego e não tive mais tempo para paixonites.
— Escuta — chamou, tocando de leve meu antebraço, mas logo recuou. — Fiz algo que você não gostou ontem?
— Não — soltei um suspiro — É que minha vida está meio complicada. Não tem nada a ver com você.
Bernardo assentiu, mas não pareceu convencido.
— Se precisar de alguma coisa pode me chamar, não precisa ficar sentada no corredor — seus lábios se curvaram em um sorriso provocador e foi impossível não retribuir.
— Obrigada, vou me lembrar disso — ele deu uma piscadela e desceu para o estacionamento.
Selecionei a minha playlist de corrida, para me motivar e segui em direção a um parque a dois quarteirões dali. Corri mais do que o esperado, o clima fresco e o cheiro da chuva noturna me deram o gás que eu precisava para colocar a cabeça no lugar. Correr sempre me ajudou a pensar e foi ótimo aproveitar o tempo livre para retomar uma atividade que me fazia tão bem.
Na volta mudei a playlist para uma mais suave. Quando entrei no meu apartamento, o celular tocou. Era a Fernanda.
— Oi — atendi no segundo toque.
— Amiga, você está bem? Estou saindo do trabalho e vou passar aí.
Fernanda era arquiteta, provavelmente finalizou um projeto pela manhã e quis dar uma escapulida. Ela fazia isso às vezes para almoçarmos juntas.
— Acabei de chegar, estou te esperando — finalizei a ligação e fui tomar um banho.
Meu apartamento era modesto, a cozinha minúscula, e na sala só cabia um sofá de dois lugares, uma poltrona e uma estante de livros daquelas compridas para não ocupar muito o espaço. Meu quarto pelo menos era um pouco mais espaçoso. O que era um feito e tanto para o que eu podia pagar, isso se voltasse a trabalhar o quanto antes.
Não enrolei no banho, eu sabia que a Fernanda não demoraria a chegar. Quando voltei para a sala, ela já estava batendo na porta. O nosso porteiro a conhecia e eu deixei autorizado que ela subisse direto. Abri a porta ainda enxugando os cabelos. Fernanda me deu um beijo na bochecha e entrou. Ela vestia um terninho azul escuro e os cabelos castanhos estavam presos em um r**o de cavalo.
— Acabei de sair de um projeto e quis te ver — assenti, fechando a porta.
— E como está o trabalho? — Coloquei a toalha no varal portátil.
— Está bem, mas não é sobre isso que vim falar — sentou na poltrona e deixou a bolsa ao lado. — Como você está?
Me ajeitei no outro sofá e cruzei as pernas.
— Acho que bem — menti, mas não queria parecer uma desesperada — Vou procurar emprego essa semana, só estou repondo as energias.
— Sabe que se precisar de ajuda, pode pedir, certo? — Fernanda estendeu a mão para mim, a segurei por alguns segundos, antes de jogar as costas no sofá.
— Não vou mentir, estou preocupada sim. Mas preciso acreditar que vou conseguir emprego — ela assentiu com as sobrancelhas juntas em uma expressão que detonava mais preocupação do que Fernanda queria deixar transparecer.
— Queria poder te arrumar um emprego onde eu trabalho, mas eles só contratam com diploma — encolheu os ombros como se fosse culpa dela.
Essa era uma das minhas dificuldades, meu cargo anterior não era compatível com minha escolaridade e por isso ninguém queria me contratar, mesmo com experiência comprovada. Eu deveria ter feito faculdade, ter me especializado, mas nunca parecia o momento certo e então fui empurrando com a barriga. Até a empresa decidir colocar alguém com diploma no meu lugar. Nada mais justo. A vida era assim, eu não podia me queixar. Graças ao meu emprego anterior tinha dado entrada neste apartamento, mas não sabia dizer até quando conseguiria quitar as parcelas.