Capítulo 4

1281 Words
— Não se preocupe comigo, eu vou dar um jeito — esbocei o que para mim foi um sorriso confortador. Fernanda não pareceu muito convencida, mas eu tinha preocupações maiores para lidar. — … Se precisar de alguma coisa — iniciou outra vez — Tenho algum dinheiro guardado no banco e posso te ajudar. — Pode parar, sei que tem planos para esse dinheiro — protestei, ficando ligeiramente incomodada — Acho melhor a gente mudar de assunto. Preciso te contar o mico que eu paguei ontem. Ela virou outra pessoa. Os olhos se arregalaram de leve, os lábios formaram um bico curioso. A discussão anterior fora completamente esquecida. Dei risada de sua curiosidade, mas contei todos os detalhes. Desde o momento em que Rebeca me pediu adoçante, até o meu encontro com Bernardo mais cedo. Ela riu. — Você abraçou o cara e fugiu? Sério? — Escondi o rosto nas mãos. — Isso mesmo! — confessei. — Agora ele deve achar que eu sou uma tarada ou coisa do tipo. — Ou ele gostou — deu um sorrisinho travesso. — Qual é, Fernanda? Ele é casado ou sei lá… — Bernardo já te disse isso com todas as letras? — Rebateu com uma sobrancelha castanha erguida. — Rebeca? — Murmurei apenas. — Não importa — deu de ombros. — Ele pode te achar atraente, não seria a primeira vez que um homem comprometido se interessa por outra mulher. — Por isso mesmo que eu vou aceitar o convite do Yago — despejei, não era bem o que eu queria... Mas dada as circunstâncias. — Não acredito! — ela bateu palmas toda empolgada. — Finalmente, ele é maravilhoso. Sério, você vai gostar dele. — Se o Yago é tão bom assim, por que são apenas amigos? — perguntei desconfiada. — Ele é muito caseiro, não gosta de balada e essas coisas. Combina com você, não comigo — deu uma piscadela. Acabei rindo. — Não crie muitas expectativas, só quero me distrair enquanto não arrumo emprego — expliquei, levantando do sofá. — Não pretendo namorar com ninguém agora. — Já é um começo — despejou, vindo atrás de mim. Resolvi fazer algo para almoçarmos, mas a Fernanda teria que voltar ao trabalho antes disso. Então nos despedimos e ela prometeu vir me ver assim que tivesse outra folga. Fernanda estava com vários projetos agendados e nem sempre ficava disponível para ouvir minhas lamúrias. Eu poderia ter pedido algo para comer, mas não podia gastar toda minha reserva com delivery e dentro da geladeira achei o necessário para fazer estrogonofe de frango. Ao finalizar os preparativos, voltei para a sala disposta a aproveitar o dia da melhor forma. Assistindo filmes. Era isso o que os desempregados faziam, certo? Eu não tinha namorado e nem falei tão sério sobre aceitar o convite do Yago. Era somente um blefe para quem sabe eu deixar de pensar no Bernardo. Mas não ia adiantar de nada se ele batesse na minha porta quando eu finalmente consegui afastar da minha memória a imagem dele sem camiseta. Olhei pelo olho mágico, quase disposta a fingir que não tinha ninguém em casa. Só que ficaria muito f**o para mim depois do que ele fez ontem. O cara me salvou de uma barata voadora! — Oi — falei, assim que abri a porta. Bernardo me olhou com os olhos castanhos suplicantes e mordeu o lábio inferior, antes de dizer: — A água do meu apartamento acabou, liguei na portaria e eles disseram que não sabem o que aconteceu. Acabei de chegar do trabalho, será que posso tomar um banho no seu apartamento? É rápido… — desembestou a falar parecendo mortalmente constrangido. — Claro, entra — autorizei sem nem pensar. Era o mínimo que eu podia fazer. Um trabalhador reconhecia a necessidade do outro. Ele assentiu com uma expressão de alívio. — Vou buscar uma toalha e uma muda de roupa — informou, dando as costas. — Não precisa da toalha… — Obrigado, prometo que vai ser rápido. — Não esquenta, eu estou te devendo muito mais por causa de ontem — encolhi os ombros e coloquei as mãos nos bolsos da calça. Ele riu. — Esquece isso, eu sempre espanto as baratas do meu apartamento porque a Rebeca odeia — assenti e tentei disfarçar o desconforto. Mas ele deve ter notado o meu sorriso desmanchando no rosto. Bernardo voltou em alguns segundos, mostrei o banheiro e como ele trouxe tudo. O deixei tomar seu banho em paz. Eu estava faminta e parte de mim dizia para esperar Bernardo sair do banheiro para perguntar se ele queria almoçar comigo. A parte sensata queria expulsá-lo do apartamento o quanto antes. Então fiz um prato de comida e sentei no sofá, enquanto dúvida e anseio me assolavam. Só que Bernardo foi relativamente rápido, m*l tive tempo de comer e ele já estava diante de mim. Os cabelos estavam molhados, mas os cachos insistentes já se formavam. d***a, ele era realmente muito bonito. — Obrigado, vou tentar resolver o problema ainda hoje para não precisar te incomodar outra vez — objetou, já fazendo menção de ir embora. — Já almoçou? — perguntei num impulso. Ele fez que não. — Saí mais cedo do trabalho, mas não tive tempo de fazer comida ainda… Rebeca não dava as caras desde a última briga que eu ouvi, a curiosidade comichou. Mas não quis ser invasiva e deixá-lo desconfortável fazendo perguntas pessoais. — Fiz estrogonofe, se quiser — mostrei o meu prato para fazê-lo se interessar. A parte s*******o do meu cérebro falou mais alto. Seria a última vez, eu ia ligar para o Yago e marcar um encontro amanhã mesmo se isso me ajudasse a perder o interesse no Bernardo novamente. — Acho que vou aceitar, estou faminto — ele coçou a nuca, dando um sorriso acanhado. Levantei num rompante e o chamei com o dedo. Bernardo me seguiu até minha cozinha minúscula e eu o esperei fazer um prato. Ele sentou na mesa de dois lugares e eu fiz o mesmo, porque seria estranho voltar para a sala e deixá-lo abandonado. Eu precisava mesmo perder a mania de comer no sofá. Mas quando você mora sozinha, pode ser solitário comer todos os dias sem ninguém para conversar. Na sala pelo menos a televisão me fazia companhia. Começamos a comer em silêncio de imediato, até que ficou estranho demais. Ainda assim, ambos estávamos ocupados, por isso não foi tão r**m. Bernardo comia com gosto, eu julguei que minha comida estava mesmo gostosa não só para mim. Ou podia ser apenas a fome dele falando mais alto. — Isso tá muito bom! — exclamou, dando um gole no suco de graviola natural que eu fiz. — Obrigada — agradeci toda orgulhosa; Quando terminamos, ele quis lavar a louça. Eu protestei de início, em seguida percebi que não ia adiantar e mostrei onde ficavam os produtos. — Não precisa, sério — tentei outra vez, mas ele já estava com a mão na massa. — Que isso, é o mínimo que posso fazer — contestou, dando um sorriso de canto. E por um milésimo de segundo minha mente viajou para uma realidade onde eu e ele almoçávamos juntos. Depois a gente brigava para saber quem ia lavar a louça e por fim terminava com nós dois se beijando. O pensamento me assustou num nível, que eu simplesmente me afastei. Fui para a sala e sentei no sofá, quando Bernardo terminou de lavar a louça, agradeceu mais uma vez e se despediu. Eu não fiz nada. Apenas o deixei ir. Caramba, eu não podia me apaixonar pelo Bernardo. Entretanto, ficava muito difícil controlar o coração se ele continuasse tão perto de mim.
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