Marquei um encontro com o Yago em um restaurante bem bacana. Eu já o conhecia de algumas reuniões que a Fernanda deu em seu apartamento, mas nunca dei muita moral para ele. Entretanto, estava decidida a evitar que meu interesse antigo no Bernardo ressurgisse das cinzas e Yago podia me ajudar nisso. Ele era bonito, alto, mãos grandes e olhar profundo. O único problema era que eu não me sentia atraída por ele. Mesmo hoje, em que Yago estava especialmente bonito, vestindo uma camisa social azul e seu perfume me abraçava como um polvo.
Não rolava.
Mas tentei ser gentil e atenciosa.
Quem sabe o clima pintasse depois.
— Nem acreditei quando me ligou — esbocei um sorriso educado para ele.
— Estou um pouco mais tranquila agora, então pensei em te conhecer melhor — informei, esperando não criar muitas expectativas nele.
— A Nanda comentou comigo que você está sem trabalho, posso ver se estão precisando na minha empresa e… — o cortei.
— Não quero falar sobre isso — fiz uma careta. — Vamos jantar.
Eu era pouca coisa orgulhosa, além disso, meu foco não era esse naquela noite.
— Concordo — ele pegou o cardápio e olhou por alguns segundos.
Antes de um garçom aparecer vestido um terno que parecia novo em folha.
— Vou querer macarrão ao molho branco com aspargos.
Olhei meu cardápio e decidi pedir o mesmo, não gostava de comer muito nos primeiros encontros. E ao estar ali com o Yago, percebi que o estava usando e me senti muito m*l. Portanto, resolvi ao menos encher a barriga para diminuir a sensação de fracasso por marcar um encontro com alguém que eu não nutria interesse algum além da amizade.
Nossos pedidos chegaram, então me concentrei no meu prato. O restaurante era agradável, a decoração puxava para o rústico e a comida era ótima. Eu não podia negar que Yago era um homem interessante, mas em todo momento eu pensei na possibilidade de estar ali com outra pessoa.
Yago foi gentil comigo o tempo todo, fazendo perguntas e mantendo o assunto fluindo. Enquanto eu procurei me manter aparentemente interessada no nosso diálogo. Mas internamente planejava não sair mais com ele, eu estaria me enganando e precisava gastar minhas energias em encontrar um trabalho. Não em encontros.
Após o jantar, eu disse que iria embora de Uber. Contudo, ele não quis deixar.
— Eu te levo — insistiu e quando me dei conta, estava no banco do carona.
Fomos conversando sobre filmes até minha casa, eu estaria mentindo se dissesse que não foi um encontro agradável. Mas apenas isso. Não senti nada demais quando ele me beijou no rosto e sussurrou que gostaria de repetir outro dia.
Ainda agradeci por ele não ter tentado me beijar na boca. Eu não sabia como teria agido nessa situação, só o que sabia era que não iria corresponder.
Yago deu partida e foi embora, olhei para o lado e vi Bernardo chegando sozinho. Fiquei me perguntando onde estaria a Rebeca, mas perdi o raciocínio quando seu perfume me atingiu. Entramos praticamente juntos, então Bernardo puxou assunto comigo.
— Seu namorado? — Indagou me pegando de surpresa.
— Não — chamei o elevador, porque não estava com ânimo para subir os lances de escadas.
Ele não demorou a chegar.
— Hm — murmurou, desviando os olhos.
Ficamos em silêncio até estarmos no nosso andar. Era extremamente constrangedor pegar o elevador com outros vizinhos. Nem sempre tínhamos o que dizer, deveria ter uma lista de assuntos banais pregada na parede para termos o que falar.
Frases como:
O dia está bonito, não?
Será que chove hoje?
Você é um p**a gato e é meu numero, pena que é casado.
Argh!
— Boa noite — acenei com um sorriso.
Entrei no meu apartamento sem olhar para trás. Agora que não ia sair mais com o Yago, precisava lidar sozinha com meus sentimentos confusos pelo meu vizinho. Ficar longe dele era a melhor opção, ainda que não fosse tão fácil assim.
Yago: Adorei a noite, Beatriz. Será que você vai me dar a chance de te ver de novo?
Recebi no w******p, quando já estava embaixo das cobertas.
Beatriz: Também gostei de hoje, foi bem legal. Eu estou um pouco atarefada procurando emprego, mas quem sabe…
Deixei em aberto, não menti ao dizer que foi legal. Legal era diferente de memorável. Mas o Yago não precisava saber disso.
(...)
Minha rotina se resumia a enviar currículos para todos os lugares possíveis. Eu não queria assinar aqueles sites de procura por emprego porque não tive boas experiências com nenhum deles. Só me restava aquele jornal amarelinho que também não era de grande ajuda e os sites gratuitos. Estava a manhã toda ali, entretida, procurando. Riscando opções que tentei e não deu certo, entrevistas que fiz e fui rejeitada. Quando era preciso atravessar a cidade… Eu não podia ser muito seletiva, mas precisava colocar na balança os prós e contras de cada vaga.
Meu celular tocou.
Atendi toda estabanada, porque era um número desconhecido e poderia ser de alguma empresa no qual eu tinha feito entrevista nos últimos dias.
E realmente era.
Ofereceram uma vaga de assistente gerencial – existia esse cargo? Mas eles só ofereciam uma condução e era na Zona Oeste. Ou seja, eu teria que tirar as outras passagens do meu bolso. Sem chance. O salário nem era bom, não era nem razoável.
Eu estava perdida.
Coloquei as mãos na cabeça após recusar a vaga.
Eu podia ter aceitado, ao menos dava para aguentar até achar outro melhor. A culpa começou a me a****r, senti lágrimas se formarem no canto dos meus olhos. Funguei, tentando segurá-las.
Meu celular vibrou, olhei a tela era mensagem da minha irmã.
Bia: Como estão as coisas? Faz dias que você não liga, estamos com saudades. Adivinha o que papai e eu fizemos hoje?
Minha irmã enviara uma foto em que ela e papai faziam a minha receita de cookies. Depois uma bandeja lotada de biscoitos.
Dei risada.
Pelo menos eles estavam bem, eu não precisava preocupá-los.
Beatriz: Oi, Bia. Estou em fechamento no trabalho, por isso não liguei. Mas parece que os biscoitos estão uma delícia, deu até v*****e de fazer aqui.
A resposta veio de imediato.
Bia: Você precisa descansar, vê se pega leve, tá? Papai tá mandando um abraço.
Beatriz: Pode deixar, manda outro pra ele.
E então eu chorei por alguns minutos, pelo menos até ouvir uma batida na porta. Me recompus como pude e espiei pelo olho mágico. Era o Bernardo.
Droga!
Não queria vê-lo, estava confusa e irritada. Não queria piorar as coisas. Mas ele era sempre tão gentil comigo, eu não podia ignorá-lo. Respirando fundo, limpei o resquício de lágrimas e abri a porta.
— Beatriz, eu… — iniciou, mas então viu meu rosto — Você estava chorando?
— Ah — disfarcei. — Eu estava vendo uns vídeos de resgate de animais, fiquei emocionada — menti na cara dura.
Ele assentiu.
— Não quero atrapalhar — mordeu o lábio hesitante.
— Que isso, não estava fazendo nada demais. Você me salvou de uma barata, estou eternamente em dívida com você, o que precisa? — Descontrai, para melhorar o clima.