Já era manhã quando ele subiu em uma árvore alta para ver se alguém ou algo o seguia, não havia conseguido dormir a noite inteira, mas agora parecia estar tudo calmo, a árvore ficava em um pequeno monte na floresta de onde se podia ver a imensidão de árvores ao seu redor até perder de vista. Ele desceu e foi vencido pelo cansaço, parecia arriscado, mas ele decidiu dormir ali embaixo dela. Haviam vários arbustos ao redor que o escondiam muito bem, o dando uma falsa sensação de segurança.
...
Flames acordou algumas horas depois ao som de latidos muito perto, quando abriu os olhos o sol forte o fez cobri-los com a mão, logo notou uma silhueta de um cão que o encarava a poucos centímetros do seu rosto, ele arrastou-se para trás assustado até ser impedido pela árvore.
- Calma! - Gritou uma voz puxando o cachorro pela corrente. Era um homem com barba e cabelos grisalhos, portava uma espada e um arco, mas não aparentava ser um soldado, estava mais para um caçador, o que o aliviou, pois ele temia ser capturado pelos soldados de Kandaram novamente.
- O que faz dormindo no meio da mata? Essa floresta é perigosa, bastante estranha também. - Afirmou ele olhando Flames de cima abaixo, como se o analisasse.
- Eu sai pra caçar e acabei me perdendo. - Mentiu Flames tentando esconder o real motivo pelo qual ele estava ali, apesar de parecer amigável aquele senhor poderia facilmente entregá-lo a outros soldados de Kandaram em troca de algumas moedas, não podia confiar em ninguém.
- Tá bom... - Concordou o homem, ele parecia igualmente desconfiado. - E como estava caçando sem armas?
Flames puxou uma pequena adaga que ele carregava em sua cintura e o mostrou.
- Você estava caçando com isso? Tá bom. - Encerrou. - Se quiser um lugar para descansar pode vir comigo, não é seguro dormir no meio da mata, você deu sorte por eu ter te achado antes de algum animal selvagem.
Flames o olhou pensativo.
- Eu também posso lhe oferecer comida se quiser. - Continuou ele.
Flames estava tão faminto que sua fome superou a razão, seus olhos pesavam e sua cabeça doía de tanto cansaço, tentar achar o caminho de volta para casa era quase impossível já que ele não fazia ideia de onde estava. Mesmo que a ideia de seguir um desconhecido até sua casa parecesse estupida ele se deixou levar pela oportunidade de ter uma refeição, sua barriga estava tão vazia que o incomodava até na hora de dormir.
Flames acenou com a cabeça aceitando a proposta, o homem tomou a frente puxando seu grande cachorro pela corrente, eles seguiram por uma trilha estreita dentro da mata fechada, a cada passo que Flames dava seguindo-o a vontade de voltar atrás aumentava, até que eles chegaram em um lugar aberto onde as árvores deram lugar a um grande campo.
O sol já estava chegando em seu auge, faltava poucas horas para o meio do dia, os pássaros animavam o dia com seus cantos empolgados aliando-se com o som de águas chocando-se nas rochas que tornava aquele lugar bastante agradável, , Flames atravessou uma ponte pequena feita de madeira, no lago abaixo haviam carpas de diversas cores e tamanhos ziguezagueando dentro daquela água calma e tranquila, suas margens eram enfeitadas com rosas verdes, uma flor rara e de difícil cultivo, ele sabia daquilo pois Dammy cultivava várias flores e ele lembra de vê-la reclamar do quanto ela tentou cultivar as rosas verdes, mas elas nunca nasciam ou morriam antes de florescer, do outro lado da ponte havia uma casa humilde, feita de madeira escura e muito bem decorada, algumas trepadeiras no teto caiam fazendo uma cortina natural na varanda, a sua volta tinham pequenos cercados com bois, cabras e cavalos, e por todos os lados galinhas e patos ciscavam o chão, sem contar os animais silvestres que viviam por ali, eram muitos e não pareciam se assustar com a presença humana, pelo que parecia eles viviam ali também e eram cuidados por aquele homem.
Ao chegar perto da casa um grupo de nove filhotes correram do terraço até o cachorro que achou Flames, era na verdade uma fêmea e eles disputavam entre si um peito para se alimentarem, um deles ficou parado no terraço, parecia estar desanimado, ele era maior e mais robusto que os outros.
- Eu achei esse filhote na floresta, não sei bem de que espécie ele é, eu desconfio que seja um leão - Falou o senhor.
- Um leão? - Indagou Flames espantado.
- Não existem leões nessas matas, mas ele parece muito com um, acredito que ele possa ter sido perdido por algum contrabandista de animais, desde que eu o trouxe ele não come direito, passa o dia deitado, já dei remédios, mas não acho que isso se trate de doença física, ele está muito longe de onde nasceu e está sofrendo com isso. - Respondeu ele abrindo a porta da casa. - Vem, vamos entrar.
La dentro tudo era bem organizado e com um toque feminino, não parecia que ele morava sozinho naquela casa.
- Tome um banho, você está bastante sujo, vista isso aqui, quando você sair te dou algo para comer. - Disse o senhor colocando algumas roupas sobre a mesa.
A essa altura Flames já estava menos preocupado, o homem não aparentava ter más intenções, Flames foi para o quintal onde tinha um lugar reservado para banhar-se, tinha um grande balde cheio de água e uma bacia para ele molhar-se e uma espoja natural, a maioria das coisas naquela casa pareciam ser tiradas da natureza, quase tudo ele tinha feito com o que a floresta o ofereceu.
Flames saiu do banho e vinha enxugando seu grande cabelo preto e usava a roupa que o homem o ofereceu, um sobretudo azul com alguns cintos, bordas e botões dourados, ele notava que a costura era perfeita, imaginou quanto tempo a costureira passou para fazê-la e quão habilidosa ela era, Dammy sempre costurava suas roupas quando ele as rasgava em suas caçadas, por isso ele entendia um pouco sobre aquilo, o pensamento sobre como Dammy estava e a saudade dela o abateu, ela era a coisa mais próxima de uma família que ele tinha.
Ele andava distraído voltando para a casa, desatento, quando subitamente um cavalo apareceu correndo na sua direção velozmente, parando a poucos centímetros de seu rosto, a freada foi tão violenta que as patas traseiras do animal quase alcançaram as dianteiras, com o susto Flames tropeçou e caiu sentado.
- Desculpa. - Gritou uma garota pulando das costas do cavalo e indo ajudá-lo a levantar. - Você está bem?
- Sim, só tomei um susto. - Respondeu ele se recompondo.
Ela deu um pequeno sorriso e uma mecha do seu longo cabelo preto ondulado recaiu sobre seus olhos, a pele era de um tom marrom claro e era lisa como se não houvessem falhas, Flames a olhava encantado encarando seus lábios vermelhos que realçavam seu sorriso branco e por alguns instantes ele sentiu seu coração bater descompassado o deixando sem reação por alguns segundos.
- Essa é a minha filha, Ácura. - O homem falou aparecendo na porta. - Vamos, a comida já está na mesa.
Flames o seguiu até a mesa acompanhado pela menina, a presença dela o deixa um pouco sem jeito, ele nunca teve alguém para ensiná-lo a conversar com garotas, tornando-o bastante tímido na presença delas, mesmo assim ele tentava manter a postura, mostrar que estava nervoso só iria atrapalhá-lo.
- Então rapaz, qual o seu nome? - Perguntou o senhor enquanto cortava sua carne com uma faca que Flames achava exagerada para aquele pedaço de carne.
- Flames. - Respondeu ele tentando se manter calma em seu tom de voz. - Qual o de vocês?
- Thorgrond, mas me chame de Thor.
- O meu é Ácura, como já sabe. - Respondeu ela.
- Onde está sua mãe? - Perguntou Thor para Ácura.
- Ela disse que ia colher alguns morangos, nessa colheita os morangueiros deram muitos frutos, então ela foi pegar alguns antes que estraguem. - Respondeu ela com uma voz doce.
- Quantas pessoas moram aqui? - Perguntou Flames.
- Três, eu, minha mãe e meu pai. - Respondeu Ácura. - De onde você é?
- Eu venho de Dynarki.
- Já ouvi falar dessa vila. - Contou Thor.- É a vila dos caçadores.
- Então é um milagre, é uma vila com poucos habitantes e não tem nada demais para destacá-la então quase ninguém a conhece. - Retrucou Flames.
- Você passou a noite no meio da mata, não acha que seus parentes estão preocupados com você? - Indagou Thor, ele parecia estar tentando descobrir o real motivo dele está ali.
- Não, minha mãe morreu e eu nunca conheci meu pai, não tenho nenhum parente que eu conheça. - Respondeu Flames de uma maneira um pouco seca, tentando não passar sentimento em sua voz.
- Meus pêsames! - Sussurrou Thor. - Eu também tive uma infância sem uma mãe, e o meu pai, bom, preferia não ter tido um também. - Thor disse como se relembrasse algo r**m. - Mas você pode ficar aqui com a gente se preferir, temos um quarto sobrando.
Flames ficou pensativo. - Eu quero, mas não acho que vou ficar por muito tempo, tem algo que eu quero fazer em breve, sai da minha vila contra minha vontade, mas vou aproveitar e partir para a capital. - Respondeu Flames, mesmo achando o convite muito estranho ele preferia aproveitar toda a revira volta que o aconteceu para tentar mudar de vida, não estava deixando nada importante para trás em Dynarki.
- E o que é que você quer fazer? - Perguntou Ácura.
- Eu vou para Kings Town, quero me tornar um soldado e lutar na guerra. - Contou ele com um certo tom de orgulho.
Thor esboçou um sorriso no canto boca enquanto cortava a carne em seu prato. - Na guerra, é? - Perguntou ele.
- Sim, Kandaram atacou minha vila ontem e eu meio que quero me vingar, eu já queira ser um cavaleiro mesmo, com certeza vai haver um recrutamento em massa e o exército é a melhor forma de começar. - Flames disse.
Foi quando uma mulher entrou carregando uma cesta enorme cheia de morangos.
- Peguei o máximo que pude e mesmo assim não tirei nem a metade dos morangos que tinham lá, quero que vocês comam todos, não quero que eles se estraguem novamente. - Disse ela, entre respirações ofegantes, o sol estava quente e ela parecia ter vindo de longe.
- Mãe, temos visita. - Avisou Ácura. - Esse é Flames, ele vai ficar aqui com a gente por um tempo.
- Oi - Ele deu um sorriso desajeitado.
- Oi Flames, Meu nome é Diana. - Ela disse, sorrindo de volta, ela era uma bela mulher, Ácura tinha puxado muitos traços dela.
Ela colocou a enorme cesta de morangos em cima da mesa, Flames admirou-se com a cor e o tamanho dos morangos, pareciam suculentos, ele havia comido poucos morangos antes, embora gostasse bastante, em sua vila e arredores os morangueiros não cresciam e os mercadores cobravam preços injustos por eles.
- Pode comer o quanto você quiser. - Incentivou ela arrastando a cesta pro centro da mesa.
Flames fez exatamente isso e comeu o tanto que conseguia.
Ácura Terminou de comer e retirou-se da mesa, Flames a encava enquanto ela saia da mesa até ela sair de sua vista, ele tentou disfarçar quando percebeu que Diana tinha notado.
Flames também ia levantar-se da mesa quando Thor pediu para que ele permanecesse sentado e levantou-se indo em busca de algo.
Ele voltou com um livro velho e o pôs sobre a mesa, o livro estava empoeirado e um pouco rasgado, as palavras estavam apagadas pareciam ter sido escritas com tinta azul.
- Toque-o, vamos ver o que acontece. - Pediu Thor o oferendo o livro.
Flames não entendeu nada, mas não questionou, afinal ele só queria que ele tocasse um livro, mesmo assim ele fez isso um pouco desconfiado.
Flames encostou a ponta do seu dedo no livro e para sua surpresa ele a capa velha ficou vermelha, brilhando como fogo e logo se reconstruiu, suas páginas começaram a se passar sozinhas a medida que elas mudavam Flames via que ele ia se reescrevendo em um vermelho florescente, foi quando finalmente ele chegou em sua última folha, aquele livro velho se transformou completamente ficando novo e intacto, na cor vermelha com adornos dourado com os dizeres "Nascido do fogo" e um símbolo de uma chama.
Flames ficou impressionado e ao mesmo tempo confuso.
- Como eu desconfiava, você é um mago de fogo, não é? - Disse Thor empolgado, seus olhos arregalados e seu largo sorriso demonstravam seu interesse no assunto.
- Sim. - Respondeu Flames receoso de falar isso para desconhecidos, de certo ponto ele estava certo, magos não eram apenas admirados, também eram odiados e possuíam perseguidores perigosos, o exército de Kandaram o provou isso muito bem, Flames ficou temeroso por não poder continuar com eles, depois de revelar algo tão íntimo e perigoso partir era a melhor opção, não porque ele estava com medo de se machucar, mas ele sabia o quanto os soldados eram cruéis quando queriam informações, caso ele ficasse ele não só correria riscos como também colocaria em risco toda aquela família.
O clima da casa mudou em poucos segundos, o calor da tarde parecia ter sido substituído por uma noite fria, a casa estava escura, apenas algumas janelas entreabertas deixavam passar poucos raios de luz enfraquecidos pelas árvores do lado de fora, mesmo não sentindo frio Flames percebeu que tudo estava gelado e teve a impressão de ver uma fumaça passar entre suas pernas.
Antes que Flames perguntasse qualquer coisa Thor tomou a voz. - Eu também. – Ele ergueu as mangas e uma fumaça gélida saiu de seu braço e sua mão se transformou em uma pedra de gelo azul, Flames pensou que era uma brincadeira e chegou até a procurar o braço verdadeiro de Thor, mas percebeu que aquilo era real quando as pedras de gelo que eram os dedos moveram-se, Flames olhou espantado para aquilo, não acreditava nos próprios olhos, não existiam magos de gelo pensava ele enquanto observava admirado a fumaça gélida escorrendo suavemente do braço de Thor.
Continua...