Doutor renan narrando Eu trabalhei o dia inteiro com a cara fechada, com o corpo presente e a cabeça distante, remoendo o gosto amargo daquela conversa com a Lívia. Saí da casa dela com o peito atravessado por uma sensação de impotência, e fui direto para o posto de saúde. A rotina ali me exigia concentração, escuta, humanidade, e eu tentei ao máximo me agarrar a isso. Atendi mães exaustas, senhores solitários, crianças com febre, e entre um atendimento e outro, ouvia histórias que me lembravam o quanto aquela realidade era crua, desigual e, muitas vezes, c***l. Ali dentro da favela, ninguém procura só um médico. Procuram alívio. Procuram escuta. Procuram um olhar que diga “você não tá sozinho”. A gente ouve desabafo sobre fome, abuso, abandono. Gente que só precisa de um antibiótico,

