P.O.V - DANTE
Ela saiu daquele restaurante como se tivesse vencido. Como se tivesse me deixado para trás com meu charme quebrado aos pés da mesa.
Mal sabia ela... Aquela noviça estava me enlouquecendo aos poucos eu nem ao menos conseguia pensar com clareza.
Giulia mexia comigo de um jeito que me tirava o ar. Aquela boca que dizia "não" com tanta firmeza era a mesma que tremia quando eu chegava perto. E os olhos verdes, malditos olhos verdes, me acompanhavam até quando ela já estava longe.
Recostei-me na cadeira, soltando um suspiro pesado. Chamei o garçom com um gesto sutil.
— Mais um uísque. Duplo.
Eu estava precisando, eu não conseguia arrancar aqueles pensamentos da minha cabeça.
O copo chegou rápido, e o fogo da bebida foi o único alívio imediato para o fogo que Giulia tinha acendido em mim. Fechei os olhos por um momento, imaginando aquela mulher desafiadora sendo rendida pelo próprio desejo. Eu sabia que ela se contorceria sob meu toque antes de permitir um gemido escapar. Ela era orgulhosa. Tão absurdamente deliciosa na sua resistência. Aquilo me causava uma certa fascinação terrível. Desde o inicio, quando ele me confrontou dentro daquele convento! O que eu não daria para f***r ela dentro daquela paróquia...
Eu a queria. Queria despir aquela armadura, expor o que havia por baixo daquela fachada de força, ouvir a voz dela se quebrar de prazer. E o pior de tudo? Eu não queria isso só por provocação. Eu queria porque ela era diferente de tudo que já conheci. Intensa. Honesta. Arisca.
Incontrolável.
Bebi outro gole, mais lento desta vez, enquanto deixava a imagem dela se desdobrar dentro da minha mente — Giulia deitada nos meus lençóis, o cabelo solto na minha pele, as unhas marcando minhas costas...
— A quanto tempo não nos vemos, Dante... — disse uma voz feminina, doce e envenenada — Sentiu saudades?
Levantei os olhos, ainda meio preso nos pensamentos sobre Giulia, e levei um segundo para reconhecer.
— Helena. — falei, surpreso, mas sem emoção.
Ela sentou-se sem convite, como se ainda tivesse algum direito sobre mim. Como se eu fosse uma lembrança inacabada que ela vinha reivindicar.
— Está mais bonito do que eu me lembrava. — disse ela, cruzando as pernas devagar, os olhos avaliando cada detalhe meu. — Ou talvez seja o mistério. Quem era a moça sentada com você?
Ela poderia colocar tudo a perder abrindo a boca para a minha família.
Sorri com um canto da boca, aquele sorriso que não dizia nem sim nem não.
— Observadora - Eu disse fugindo do assunto.
Ela deu uma risada baixa. — E então, resolveu o problema do seu noivado? Aquela é uma candidata?
Ela soltou a frase como se fosse um brinde envenenado, e eu entendi. Helena tinha voltado por um motivo: interesse. O mesmo motivo que me fez deixá-la, anos atrás. Linda, sedutora, mas vazia por dentro. O tipo de mulher que aprendia seus gostos para manipulá-los, não para amá-los.
— Voltei pra ficar, Dante. — ela disse, com a voz mais baixa, mais insinuante. — Talvez... seja hora de você reconsiderar certas coisas. Quem sabe esse casamento que você está "planejando" não seja só um erro passageiro?
Giulia apareceu de novo na minha mente. Seus olhos verdes, sua voz firme. A força com que me disse "não", mesmo com o corpo pedindo "sim".
— O que é, Dante? — Helena sorriu. — Está pensando em alguém?
— Sempre. — respondi, e meus olhos, mesmo voltados para ela, não conseguiam parar de procurar o verde que me perseguia.
Ela não sabia, mas havia perdido antes mesmo de começar - Eu vou indo, vou deixar um drink pago em nome dos velhos tempos...
- Ei, não faça isso! Vamos brindar, eu acabei de me sentar aqui, seria rude da sua parte! - Ela acenou para o garçom - Traga mais um drink para ele e o mesmo para mim! - Disse sorrindo.
Eu deveria ter ido embora.
Quando Giulia cruzou aquela porta, com sua postura firme e olhos verdes cravados em mim como uma última advertência, eu deveria ter me levantado. Ter pagado a conta. Ter virado as costas para qualquer tentação que não viesse com sua voz.
Mas não fui. Eu fiquei ali e aceitei aquele circo com aquela mulher que eu odiava demais. Mas eu avisei desde o inicio, eu era um monstro.
Helena sorriu como quem conhecia minhas fraquezas — e talvez conhecesse mesmo. Ela era habilidosa, uma artista da sedução revestida de passado. Um drink virou dois. Depois três. E então ela passou para o meu lado da mesa, como se nada nos separasse além do tempo.
— Você está tenso, Dante — sussurrou, com os dedos deslizando pelo meu antebraço — Talvez precise relaxar... esquecer essa tudo por uma noite.
O meu nome na boca de Helena soou errado. Áspero. Sujo.
Mas o uísque entorpecia. A raiva e frustração de ser recusado por Giulia, a provocação que ela deixara no ar, o desejo que ela plantou e não colheu... tudo se misturava em mim com o álcool. Eu estava queimando por dentro, e Helena, com seu corpo colado ao meu, oferecia uma saída fácil, uma válvula de escape.
Não foi amor. Nem prazer pleno. Foi necessidade crua e confusa.
A noite virou borrão. O meu carro, as risadas abafadas, roupas arrancadas com descuido. Minha mente gritava o nome de Giulia enquanto meu corpo afundava em outra pele.
Mas quando o silêncio chegou... quando Helena dormia ao meu lado, satisfeita, com um sorriso vitorioso no rosto... o gosto amargo da realidade me encheu a boca.
Acordei com a luz invadindo o quarto e uma dor de cabeça latejando como punição. Olhei ao redor, os lençóis bagunçados, o cheiro de perfume doce que não era o dela.
Helena se virou na cama, preguiçosa.
— Bom dia, futuro marido.
Fechei os olhos. Por um segundo, desejei que aquilo fosse um pesadelo.
Mas não era.
Me sentei na beira da cama, o coração apertado, a alma entalada no peito. O rosto de Giulia invadiu minha mente como uma faca. Eu traí algo que nem era meu ainda. Mas parecia.
Traí a promessa silenciosa que fiz a mim mesmo quando ela aceitou se casar comigo.
Ela confiou em mim. Com sua dignidade. Com sua mãe. Com sua vida.
E eu... me perdi.
O gosto do corpo de outra mulher estava na minha pele, mas o nome que ainda ecoava dentro de mim era dela.
Giulia.
E pela primeira vez em muito tempo... eu me odiei.