Capítulo Dois — O Silêncio Entre Dois Corações

605 Words
A casa rangia como se estivesse viva. Cada passo de Helena pelo corredor estreito fazia o assoalho reclamar, ecoando no silêncio pesado que se instalara desde que Ele voltara. O cheiro era o mesmo — madeira antiga, café frio, algo indefinido que sempre a fazia lembrar noites m*l dormidas e promessas quebradas. Ela parou diante da porta da sala. Respirou fundo. — Você ainda fuma aqui dentro? — perguntou, antes mesmo de entrar. A resposta veio em forma de riso baixo. — Ainda mando nessa casa… ou pelo menos em algumas partes dela. Helena fechou os olhos por um segundo. Quando entrou, encontrou Miguel encostado na janela, a luz amarelada do abajur desenhando sombras duras em seu rosto. Ele parecia diferente. Mais cansado. Mais perigoso. Mais… próximo. — Você prometeu que ia parar — ela disse, cruzando os braços, tentando ignorar como o coração batia rápido demais. Miguel deu de ombros, tragou devagar e soltou a fumaça para o lado. — Promessas envelhecem. Pessoas também. — Não mude de assunto. Ele virou o rosto lentamente, os olhos encontrando os dela. Aquele olhar. Sempre aquele olhar que a desarmava. — Você veio brigar comigo ou veio porque sentiu falta? Helena engoliu em seco. — Eu vim porque essa casa… — a voz falhou. — Porque essa casa ainda não me deixa ir. Miguel apagou o cigarro com cuidado excessivo, como se cada gesto fosse calculado. Aproximou-se devagar, respeitando uma distância mínima que, ainda assim, parecia íntima demais. — Ou talvez — disse ele, em tom baixo — porque eu não deixo. — Não se coloque como vítima — ela rebateu, mas o corpo não acompanhou a firmeza da voz. — Você foi embora. Você escolheu sair. — Eu escolhi não te destruir — ele respondeu, mais sério. — Foi diferente. Helena riu, nervosa. — Você sempre teve um talento impressionante pra decidir o que é melhor por nós dois. O silêncio que se seguiu foi denso. Quente. Miguel deu mais um passo. Helena sentiu. Não precisava olhar para saber o quanto estavam próximos. O ar parecia mais pesado entre eles. — Você ainda treme quando fico assim perto — ele murmurou. — Você imagina coisas. — Não. — Ele inclinou o rosto levemente. — Eu lembro. Ela levantou o queixo, desafiadora. — Lembrar não significa ter o direito. — E você? — Ele sorriu de canto. — Ainda se convence disso? Helena sentiu o calor subir pelo peito, um misto de raiva e algo muito mais perigoso. — Não se aproxime mais. Miguel parou. Mas não recuou. — Você diz isso com a boca — respondeu — mas seu corpo nunca aprendeu a mentir pra mim. O coração dela martelava forte demais. A casa parecia segurar a respiração junto com eles. — Nós não somos mais aquilo — ela sussurrou. — Não — ele concordou. — Somos piores. Por um instante, pareceu que tudo o que viveram voltaria com força total. As noites, as discussões, o desejo que sempre vinha carregado de culpa e necessidade. Helena deu um passo para trás. — Eu não posso… — disse, mais para si mesma. Miguel assentiu lentamente. — Eu sei. — A voz dele estava rouca. — Mas não vou fingir que não sinto. Ela o encarou uma última vez antes de sair da sala, sentindo o peso daquela troca que não precisou de toque algum para ser intensa demais. Quando fechou a porta do quarto, apoiou a testa na madeira fria. Do outro lado da casa, Miguel permaneceu imóvel, olhando para o espaço vazio onde ela estivera. A casa ainda batia. E dois corações insistiam em não esquecer.
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