A casa rangia como se estivesse viva.
Cada passo de Helena pelo corredor estreito fazia o assoalho reclamar, ecoando no silêncio pesado que se instalara desde que Ele voltara. O cheiro era o mesmo — madeira antiga, café frio, algo indefinido que sempre a fazia lembrar noites m*l dormidas e promessas quebradas.
Ela parou diante da porta da sala.
Respirou fundo.
— Você ainda fuma aqui dentro? — perguntou, antes mesmo de entrar.
A resposta veio em forma de riso baixo.
— Ainda mando nessa casa… ou pelo menos em algumas partes dela.
Helena fechou os olhos por um segundo. Quando entrou, encontrou Miguel encostado na janela, a luz amarelada do abajur desenhando sombras duras em seu rosto. Ele parecia diferente. Mais cansado. Mais perigoso. Mais… próximo.
— Você prometeu que ia parar — ela disse, cruzando os braços, tentando ignorar como o coração batia rápido demais.
Miguel deu de ombros, tragou devagar e soltou a fumaça para o lado.
— Promessas envelhecem. Pessoas também.
— Não mude de assunto.
Ele virou o rosto lentamente, os olhos encontrando os dela. Aquele olhar. Sempre aquele olhar que a desarmava.
— Você veio brigar comigo ou veio porque sentiu falta?
Helena engoliu em seco.
— Eu vim porque essa casa… — a voz falhou. — Porque essa casa ainda não me deixa ir.
Miguel apagou o cigarro com cuidado excessivo, como se cada gesto fosse calculado. Aproximou-se devagar, respeitando uma distância mínima que, ainda assim, parecia íntima demais.
— Ou talvez — disse ele, em tom baixo — porque eu não deixo.
— Não se coloque como vítima — ela rebateu, mas o corpo não acompanhou a firmeza da voz. — Você foi embora. Você escolheu sair.
— Eu escolhi não te destruir — ele respondeu, mais sério. — Foi diferente.
Helena riu, nervosa.
— Você sempre teve um talento impressionante pra decidir o que é melhor por nós dois.
O silêncio que se seguiu foi denso. Quente.
Miguel deu mais um passo. Helena sentiu. Não precisava olhar para saber o quanto estavam próximos. O ar parecia mais pesado entre eles.
— Você ainda treme quando fico assim perto — ele murmurou.
— Você imagina coisas.
— Não. — Ele inclinou o rosto levemente. — Eu lembro.
Ela levantou o queixo, desafiadora.
— Lembrar não significa ter o direito.
— E você? — Ele sorriu de canto. — Ainda se convence disso?
Helena sentiu o calor subir pelo peito, um misto de raiva e algo muito mais perigoso.
— Não se aproxime mais.
Miguel parou. Mas não recuou.
— Você diz isso com a boca — respondeu — mas seu corpo nunca aprendeu a mentir pra mim.
O coração dela martelava forte demais. A casa parecia segurar a respiração junto com eles.
— Nós não somos mais aquilo — ela sussurrou.
— Não — ele concordou. — Somos piores.
Por um instante, pareceu que tudo o que viveram voltaria com força total. As noites, as discussões, o desejo que sempre vinha carregado de culpa e necessidade.
Helena deu um passo para trás.
— Eu não posso… — disse, mais para si mesma.
Miguel assentiu lentamente.
— Eu sei. — A voz dele estava rouca. — Mas não vou fingir que não sinto.
Ela o encarou uma última vez antes de sair da sala, sentindo o peso daquela troca que não precisou de toque algum para ser intensa demais.
Quando fechou a porta do quarto, apoiou a testa na madeira fria.
Do outro lado da casa, Miguel permaneceu imóvel, olhando para o espaço vazio onde ela estivera.
A casa ainda batia.
E dois corações insistiam em não esquecer.