Capítulo Três — O Que Nunca Foi Dito

670 Words
A madrugada avançava lenta, como se a casa tivesse decidido torturá-los. Helena estava sentada na cama, abraçando os próprios joelhos, quando ouviu a porta do quarto ranger. Não precisou perguntar quem era. O silêncio que entrou junto com ele tinha peso demais para ser de outra pessoa. — Eu disse que precisava ficar sozinha — ela murmurou, sem encará-lo. Miguel fechou a porta atrás de si. — Você sempre diz isso quando quer que eu fique. Ela levantou o olhar, irritada. — Você não tem esse direito. — Eu sei — respondeu ele, aproximando-se apenas o suficiente para que ela sentisse o cheiro familiar, perturbador. — Mas não consegui ir embora sabendo do que você ainda não sabe. O coração dela falhou uma batida. — Do que você está falando? Miguel hesitou. Pela primeira vez desde que voltara, parecia… inseguro. — Senta direito, Helena. — Não me dê ordens. — Por favor. Ela obedeceu. E isso a deixou furiosa consigo mesma. Miguel passou a mão pelo cabelo, andando de um lado para o outro, como se buscasse coragem no próprio movimento. — Eu não fui embora só porque tinha medo de nós. — Então por quê? — ela disparou. — Porque até hoje isso é tudo o que você me deu: silêncio. Ele parou diante dela. — Porque naquela noite… — engoliu em seco. — Eu ouvi uma conversa. Helena franziu o cenho. — Que conversa? — A do seu pai. Com o advogado. O sangue dela gelou. — Meu pai morreu naquela semana. — Eu sei. — A voz de Miguel caiu para um tom grave. — E ele morreu achando que estava te protegendo. — Protegendo do quê? Miguel se aproximou mais. Agora estavam perigosamente próximos. Não havia espaço para fugir — nem fisicamente, nem emocionalmente. — Da verdade sobre a casa. Helena riu, nervosa. — Essa casa só tem memórias ruins. — Não. — Ele negou com a cabeça. — Essa casa tem um nome que nunca foi colocado no papel. O olhar dela vacilou. — Você está falando em enigmas. — Estou falando de herança. — Ele respirou fundo. — E de um testamento escondido. O silêncio explodiu dentro dela. — Isso é impossível. — Seu pai descobriu que a casa não era só dele. — Miguel sustentou o olhar. — Era nossa. No papel… e no sangue. Helena se levantou de um salto. — Não diga isso. — Ele queria te contar. — Miguel estendeu a mão, sem tocá-la. — Mas tinha medo do que isso faria conosco. — Você está mentindo. — Eu fui embora porque, se ficasse, você teria que escolher. — A voz dele tremia. — E eu sabia que perderia. Helena sentiu as pernas falharem. Miguel a segurou pelo braço, instintivamente. O toque foi breve — mas devastador. Os dois congelaram. O ar entre eles parecia em chamas. — Não encoste em mim — ela sussurrou, embora não se afastasse. — Então se afasta você — ele respondeu, num tom baixo demais para ser seguro. Nenhum dos dois se moveu. Helena ergueu o rosto, os olhos marejados. — Você foi embora me deixando sozinha… por algo que eu nem sabia? — Eu te amava demais para te destruir — ele disse, a voz rouca. — E ainda amo. Ela fechou os olhos. Sentiu o peito apertar, o corpo reagir apesar da razão gritar. — Não diga isso. — Diga você para eu parar. O silêncio foi a resposta. Miguel aproximou a testa da dela. Não havia beijo. Não havia toque além daquele limite c***l. Mas era pior assim. — Nós não devíamos — ela murmurou. — Nunca soubemos como parar — ele respondeu. A casa estalou ao redor deles, como se concordasse. Helena se afastou de repente, respirando rápido. — Se isso for verdade… tudo muda. Miguel assentiu. — Eu sei. — E completou, com um meio sorriso triste: — Por isso resistir está ficando impossível. Ela saiu do quarto sem olhar para trás. Mas dessa vez, não trancou a porta.
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