A madrugada avançava lenta, como se a casa tivesse decidido torturá-los.
Helena estava sentada na cama, abraçando os próprios joelhos, quando ouviu a porta do quarto ranger. Não precisou perguntar quem era. O silêncio que entrou junto com ele tinha peso demais para ser de outra pessoa.
— Eu disse que precisava ficar sozinha — ela murmurou, sem encará-lo.
Miguel fechou a porta atrás de si.
— Você sempre diz isso quando quer que eu fique.
Ela levantou o olhar, irritada.
— Você não tem esse direito.
— Eu sei — respondeu ele, aproximando-se apenas o suficiente para que ela sentisse o cheiro familiar, perturbador. — Mas não consegui ir embora sabendo do que você ainda não sabe.
O coração dela falhou uma batida.
— Do que você está falando?
Miguel hesitou. Pela primeira vez desde que voltara, parecia… inseguro.
— Senta direito, Helena.
— Não me dê ordens.
— Por favor.
Ela obedeceu. E isso a deixou furiosa consigo mesma.
Miguel passou a mão pelo cabelo, andando de um lado para o outro, como se buscasse coragem no próprio movimento.
— Eu não fui embora só porque tinha medo de nós.
— Então por quê? — ela disparou. — Porque até hoje isso é tudo o que você me deu: silêncio.
Ele parou diante dela.
— Porque naquela noite… — engoliu em seco. — Eu ouvi uma conversa.
Helena franziu o cenho.
— Que conversa?
— A do seu pai. Com o advogado.
O sangue dela gelou.
— Meu pai morreu naquela semana.
— Eu sei. — A voz de Miguel caiu para um tom grave. — E ele morreu achando que estava te protegendo.
— Protegendo do quê?
Miguel se aproximou mais. Agora estavam perigosamente próximos. Não havia espaço para fugir — nem fisicamente, nem emocionalmente.
— Da verdade sobre a casa.
Helena riu, nervosa.
— Essa casa só tem memórias ruins.
— Não. — Ele negou com a cabeça. — Essa casa tem um nome que nunca foi colocado no papel.
O olhar dela vacilou.
— Você está falando em enigmas.
— Estou falando de herança. — Ele respirou fundo. — E de um testamento escondido.
O silêncio explodiu dentro dela.
— Isso é impossível.
— Seu pai descobriu que a casa não era só dele. — Miguel sustentou o olhar. — Era nossa. No papel… e no sangue.
Helena se levantou de um salto.
— Não diga isso.
— Ele queria te contar. — Miguel estendeu a mão, sem tocá-la. — Mas tinha medo do que isso faria conosco.
— Você está mentindo.
— Eu fui embora porque, se ficasse, você teria que escolher. — A voz dele tremia. — E eu sabia que perderia.
Helena sentiu as pernas falharem. Miguel a segurou pelo braço, instintivamente. O toque foi breve — mas devastador.
Os dois congelaram.
O ar entre eles parecia em chamas.
— Não encoste em mim — ela sussurrou, embora não se afastasse.
— Então se afasta você — ele respondeu, num tom baixo demais para ser seguro.
Nenhum dos dois se moveu.
Helena ergueu o rosto, os olhos marejados.
— Você foi embora me deixando sozinha… por algo que eu nem sabia?
— Eu te amava demais para te destruir — ele disse, a voz rouca. — E ainda amo.
Ela fechou os olhos. Sentiu o peito apertar, o corpo reagir apesar da razão gritar.
— Não diga isso.
— Diga você para eu parar.
O silêncio foi a resposta.
Miguel aproximou a testa da dela. Não havia beijo. Não havia toque além daquele limite c***l. Mas era pior assim.
— Nós não devíamos — ela murmurou.
— Nunca soubemos como parar — ele respondeu.
A casa estalou ao redor deles, como se concordasse.
Helena se afastou de repente, respirando rápido.
— Se isso for verdade… tudo muda.
Miguel assentiu.
— Eu sei. — E completou, com um meio sorriso triste: — Por isso resistir está ficando impossível.
Ela saiu do quarto sem olhar para trás.
Mas dessa vez, não trancou a porta.