Capítulo Quatro — Onde a Resistência Quebra

678 Words
A chuva começou sem aviso. Grossa. Barulhenta. Como se o céu tivesse decidido cair sobre a casa junto com tudo o que eles vinham evitando sentir. Helena estava na cozinha quando ouviu o trovão. As mãos tremiam enquanto ela tentava acender o fogão, repetindo para si mesma que precisava de algo simples. Café. Qualquer coisa que a mantivesse ocupada. — Você vai acabar queimando isso — a voz de Miguel surgiu atrás dela. — Eu não pedi ajuda — respondeu, sem se virar. Ele se aproximou mesmo assim. — Você nunca pede. O silêncio entre eles era diferente agora. Mais frágil. Mais perigoso. Miguel apoiou as mãos na bancada, prendendo Helena entre o corpo dele e o mármore frio — sem encostar de verdade, mas perto o suficiente para que ela sentisse o calor, a respiração, a presença que sempre a desarmava. — Você não dormiu — ele disse. — Nem você. — Eu fiquei pensando em tudo o que você disse… e no que não disse. Ela finalmente se virou. — Eu estou tentando entender quem você foi pra mim esse tempo todo — confessou. — E se ainda é a mesma pessoa. Miguel sorriu de lado, triste. — Eu nunca deixei de ser aquele que você conhece demais. A luz piscou. Por um segundo, a cozinha mergulhou na penumbra, iluminada apenas pelos relâmpagos do lado de fora. Helena prendeu a respiração. Miguel levou a mão ao braço dela por instinto. — Está tudo bem — ele murmurou. Ela não se afastou. E esse foi o primeiro erro. — Miguel… — o nome dele saiu fraco, como um pedido que ela não queria fazer. — Se você disser pra eu ir embora agora — ele disse, aproximando o rosto do dela — eu vou. Helena sentiu o mundo encolher ao redor dos dois. — E se eu não disser nada? — Então eu fico. O olhar dele desceu lentamente para os lábios dela. Não houve beijo. Não ainda. Mas a promessa estava ali, pesada demais para ser ignorada. Helena tocou o peito dele com a ponta dos dedos. Foi mínimo. Foi suficiente. Miguel fechou os olhos por um segundo, como se aquele toque fosse mais violento do que qualquer coisa explícita. — Isso não é justo — ele sussurrou. — Nada disso é — ela respondeu. A porta da cozinha se abriu de repente. — Eu sabia. Helena se afastou num salto. — Clara? A mulher estava parada no batente da porta, encharcada pela chuva, o olhar fixo nos dois. O rosto carregava algo entre decepção e alívio. — Você… você sabia? — Helena perguntou, a voz falhando. Clara entrou, fechando a porta atrás de si. — Há anos. Miguel passou a mão pelo rosto. — Então era você. — Seu pai me contou — Clara disse, sem rodeios. — Pediu que eu guardasse os documentos até ter certeza de que vocês estavam prontos. — Prontos pra quê? — Helena quase gritou. — Pra encarar que essa casa nunca foi só paredes — Clara respondeu. — Foi sempre sobre vocês dois. O silêncio que caiu foi ensurdecedor. — Você deixou eu odiar ele — Helena disse, encarando Clara. — Me deixou acreditar que ele foi embora porque quis. — Eu tentei proteger você — Clara respondeu, com a voz quebrada. — Mas também tentei proteger o que vocês sempre foram. Miguel olhou para Helena, os olhos cheios de coisas não ditas. — Eu nunca deixei de voltar — disse baixo. — Só não sabia se você ainda me reconheceria. Helena respirou fundo. O coração batia rápido demais. Tudo nela gritava para fugir. Mas o corpo não se moveu. — Eu não sei o que somos agora — ela disse. Miguel se aproximou, devagar. — Nem eu. — Parou a poucos centímetros dela. — Mas sei que fingir que não sentimos… não está mais funcionando. Helena não respondeu. A resistência não caiu com um beijo. Caiu com o silêncio consentido entre eles. E com a certeza de que, dali em diante, nada seria contido por muito mais tempo.
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