Capítulo único - introdução

412 Words
A casa ainda parecia viva. Não pelos risos — esses haviam morrido meses atrás — mas pela memória deles. Pelas paredes marcadas por silêncios longos demais, pelos corredores que ecoavam passos que não se encontravam mais. Você e Gabriel Herton já foram tudo o que as revistas chamavam de casal perfeito. Ele, campeão de boxe, corpo moldado por disciplina e fúria, rosto conhecido nas passarelas e nos ringues. Você, esgrimista renomada, elegante, precisa, dona de uma beleza que não pedia permissão para existir. O amor veio rápido. Violento. Consumidor. E exatamente por isso… ruiu. Gabriel nunca soube amar sem exagero. O ciúme vinha como um soco cego, a obsessão como uma sombra constante. As discussões eram frequentes, intensas — não havia meio-termo com ele. Quando a raiva explodia, não era você quem ele atingia… mas as paredes, os móveis, a si mesmo. Mesmo assim, o medo ficou. O amor também. O divórcio aconteceu em silêncio, escondido do mundo. Anunciar seria um escândalo. Então vocês continuaram ali — dois estranhos dividindo a mesma casa, o mesmo passado, o mesmo ar. Quartos separados. Poucas palavras. Olhares evitados. Mas o corpo lembra o que a boca se recusa a dizer. Naquela noite, você estava sentada na cama, livros espalhados, tentando estudar. Tentando pensar em qualquer coisa que não fosse ele. O som veio do outro lado da casa. O impacto seco dos punhos contra o saco de boxe improvisado. A respiração pesada. O ritmo agressivo. Gabriel estava treinando. Sempre que estava tentando esquecer você. O suor escorria por seu corpo enquanto ele golpeava com força demais, como se pudesse expulsar a saudade na base da violência. Mas não conseguia. Nunca conseguia. O cheiro da casa ainda era o seu. O silêncio do quarto dele ainda esperava você. Quando vocês se cruzaram no corredor, foi por acaso. Ou talvez não. O olhar dele desceu por você num reflexo antigo, perigoso. Familiar. Seus dedos se fecharam lentamente, como se o corpo lembrasse antes da mente. — Você ainda usa aquele perfume… — ele murmurou, a voz baixa, contida. Você engoliu em seco. — Não significa nada. Ele sorriu de lado. Um sorriso triste. Quase quebrado. — Significa pra mim. O silêncio entre vocês era denso demais para ser ignorado. Não havia toque. Não havia palavras demais. Mas tudo o que não era dito… gritava. Vocês estavam divorciados. Mas a casa ainda batia dois corações. E ambos sabiam: viver assim era mais perigoso do que ter ido embora.
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