A casa ainda parecia viva.
Não pelos risos — esses haviam morrido meses atrás — mas pela memória deles. Pelas paredes marcadas por silêncios longos demais, pelos corredores que ecoavam passos que não se encontravam mais.
Você e Gabriel Herton já foram tudo o que as revistas chamavam de casal perfeito.
Ele, campeão de boxe, corpo moldado por disciplina e fúria, rosto conhecido nas passarelas e nos ringues.
Você, esgrimista renomada, elegante, precisa, dona de uma beleza que não pedia permissão para existir.
O amor veio rápido. Violento. Consumidor.
E exatamente por isso… ruiu.
Gabriel nunca soube amar sem exagero. O ciúme vinha como um soco cego, a obsessão como uma sombra constante. As discussões eram frequentes, intensas — não havia meio-termo com ele. Quando a raiva explodia, não era você quem ele atingia… mas as paredes, os móveis, a si mesmo.
Mesmo assim, o medo ficou.
O amor também.
O divórcio aconteceu em silêncio, escondido do mundo. Anunciar seria um escândalo. Então vocês continuaram ali — dois estranhos dividindo a mesma casa, o mesmo passado, o mesmo ar.
Quartos separados.
Poucas palavras.
Olhares evitados.
Mas o corpo lembra o que a boca se recusa a dizer.
Naquela noite, você estava sentada na cama, livros espalhados, tentando estudar. Tentando pensar em qualquer coisa que não fosse ele.
O som veio do outro lado da casa.
O impacto seco dos punhos contra o saco de boxe improvisado. A respiração pesada. O ritmo agressivo.
Gabriel estava treinando.
Sempre que estava tentando esquecer você.
O suor escorria por seu corpo enquanto ele golpeava com força demais, como se pudesse expulsar a saudade na base da violência. Mas não conseguia. Nunca conseguia.
O cheiro da casa ainda era o seu.
O silêncio do quarto dele ainda esperava você.
Quando vocês se cruzaram no corredor, foi por acaso.
Ou talvez não.
O olhar dele desceu por você num reflexo antigo, perigoso. Familiar. Seus dedos se fecharam lentamente, como se o corpo lembrasse antes da mente.
— Você ainda usa aquele perfume… — ele murmurou, a voz baixa, contida.
Você engoliu em seco.
— Não significa nada.
Ele sorriu de lado. Um sorriso triste. Quase quebrado.
— Significa pra mim.
O silêncio entre vocês era denso demais para ser ignorado. Não havia toque. Não havia palavras demais. Mas tudo o que não era dito… gritava.
Vocês estavam divorciados.
Mas a casa ainda batia dois corações.
E ambos sabiam:
viver assim era mais perigoso do que ter ido embora.