Heitor acordou antes mesmo do sol nascer.
O corpo ainda pesado, mas a mente presa aquela mulher pele clara, cabelos negros, olhos verdes profundos.
A mulher que nunca viu, mas que em seus sonhos o tocara como se o conhecesse a vida inteira.
Ele respirou fundo, esfregando o rosto.
— Besteira… falta de sexo — murmurou para si mesmo, irritado por estar obcecado com algo tão… impossível.
Determinou ali mesmo: assim que resolvesse as pendências na sede, passaria em um dos bordéis.
Aquilo, para ele, explicava tudo.
Saiu de casa sem sequer dar bom-dia à mãe. Rita apenas o viu cruzar a porta com o rosto tenso e não ousou chamá-lo.
Na sede da máfia
A primeira coisa que fez foi ir direto à sua sala. Trancou a porta, abriu a gaveta mais alta e tirou a pasta com as candidatas.
Ele precisava resolver aquilo logo, antes que os anciões o pressionassem novamente.
Sentou-se na poltrona de couro e começou a folhear.
Loiras.
Ruivas.
Morenas.
Altas, baixas, magras, cheinhas…
Ele analisava cada ficha com praticidade, como quem escolhe um investimento. Mas nenhuma despertava algo além de tédio.
— Próxima…
Obviamente estava irritado, até cansado. Até que…
Ele virou a última página.
E congelou.
A foto dela.
A garota do sonho.
A pele branca.
O cabelo n***o.
Os olhos verdes — exatamente iguais.
— Não… não é possível… — sua respiração falhou por um segundo.
Atordoado, ele apertou o botão na mesa com força.
— MATTEO! — o grito ecoou pelos corredores.
Segundos depois, Matteo entrou quase tropeçando, arregalado, achando que algo grave tinha acontecido.
— D-don Heitor?
Heitor empurrou a pasta para ele, apontando para a foto.
— Quem é o pai dessa garota? — sua voz saiu baixa, porém intensa.
Matteo piscou, tentando entender o motivo daquele desespero.
— Está na ficha dela, senhor. — virou as páginas. — Gabriela Costa, 20 anos, filha única de Samuel Costa, aliado antigo…
Mas Heitor não estava ouvindo o resto.
Seu olhar estava preso na foto, como se ela fosse uma resposta que ele nem sabia que procurava.
— Como ela era pessoalmente? — perguntou sem tirar os olhos do papel.
Matteo franziu a testa.
— Tímida, senhor, muito tímida, aquela típica garota criada em casa… m*l falava, olhava para o chão o tempo todo, quase não consegui tirar a foto.
Heitor fechou a pasta devagar, respirando fundo, tentando esconder o efeito que aquilo causava.
— Chame o pai dela, agora para uma reunião.
Matteo engoliu seco, fez um leve aceno e saiu apressado, ainda sem entender por que aquela candidata, entre todas, tinha provocado tal reação.
Heitor ficou sozinho novamente.
Mas agora… não conseguia pensar em outra coisa além de Gabriela.
A garota desconhecida que ele sonhou tocar antes mesmo de vê-la.
E que agora… estava prestes a ser convocada para o seu destino.
Meia hora depois, o som firme dos sapatos ecoou pelo corredor.
Matteo abriu a porta com cuidado e entrou acompanhado de Samuel Costa, um homem de meia-idade, postura rígida, olhar sempre desconfiado.
— Senhor… trouxe o pai da garota. — informou Matteo, que logo se retirou, fechando a porta e deixando os dois sozinhos.
Heitor não perdeu tempo.
Levantou-se da cadeira, apoiou as mãos na mesa e encarou Samuel com a frieza típica de um Don.
— Sente-se.
Samuel obedeceu, mas sua expressão era de quem não fazia ideia do motivo de estar ali.
Heitor deu um passo à frente.
— Vou ser direto — sua voz cortou o silêncio como uma lâmina. — Eu vou me casar com sua filha, Gabriela.
Samuel empalideceu.
— C-como é, senhor? — a voz falhou.
— Entre todas as candidatas apresentadas, ela foi a escolhida para ser minha esposa. — Heitor foi claro, sem permitir discussão. — A primeira-dama da máfia.
Samuel parecia lutar para processar aquilo, seus dedos apertavam o chapéu que ele segurava no colo.
Heitor continuou:
— O casamento será neste fim de semana.
Três dias.
Samuel arfou.
— T-três dias, Don Heitor? Isso… isso é muito pouco tempo para preparar qualquer coisa…
Heitor o interrompeu com o olhar firme.
— Não estou pedindo sua opinião, estou apenas informando.
Organize tudo que precisa ser organizado: roupas, documentos, dote, presença da sua família, Matteo cuidará do restante.
Samuel engoliu seco, sentindo um peso gigantesco nas costas, seu rosto oscilava entre o orgulho e o medo.
— Entendo, senhor, Gabriela… Gabriela será honrada, farei o possível para que ela esteja pronta.
Heitor fechou a pasta devagar e voltou para trás da mesa.
— Certifique-se de que ela esteja preparada. A cerimônia será pequena, apenas para os aliados.
Sem erros, sem atrasos.
Samuel levantou-se, cabisbaixo, sabendo que não tinha escolha.
— Como desejar, meu Don.
— Pode ir — finalizou Heitor, já mergulhando novamente na rigidez de líder.
Samuel saiu apressado, claramente atordoado.
Quando a porta se fechou, Heitor soltou um longo suspiro — o primeiro desde que viu aquela foto.
Três dias.
Em apenas três dias, ele teria uma esposa, e aquela garota de pele clara, cabelo n***o e olhos verdes… se tornaria sua propriedade.
Mesmo sem entender por que, ele sentia que aquele casamento mudaria tudo.
Assim que Samuel deixou a sala, Heitor apertou o botão ao lado do telefone interno.
— Tragam minha mãe, agora.
A voz seca não deixava espaço para dúvidas.
Minutos depois, a porta se abriu e Rita entrou com passos firmes, porém elegantes, trazia no olhar aquela mistura de orgulho e preocupação que nunca desaparecia desde que o marido morreu
— Matteo disse que você queria falar comigo, meu filho… — ela começou, tentando ler a expressão dele.
Heitor não deu voltas.
— Eu escolhi minha esposa.
Rita piscou, surpresa.
— Já? Mas… você ainda nem havia analisado todas as candidatas com calma…
Ela se aproximou, colocando as mãos sobre a mesa. — Heitor, meu amor, não precisa se apressar só porque aqueles velhos insistem nesse casamento. Você ainda está de luto…
Ele a interrompeu com a mão erguida.
— Está decidido.
Rita fechou a boca, sentindo a seriedade dele pesar na sala.
— Quem é a garota? — perguntou, mais contida.
Heitor puxou a pasta e entregou para ela.
Rita abriu, virou algumas páginas até encontrar a foto de Gabriela.
A expressão dela suavizou imediatamente.
— Ela é… linda. — murmurou, surpresa. — Parece tão jovem… tão delicada…
Heitor desviou o olhar.
A imagem da garota do sonho lhe atravessou a mente de novo, como um golpe quente e inesperado.
— O pai dela já foi avisado. O casamento será no fim de semana.
Rita arregalou os olhos.
— Três dias? Heitor, isso não é um casamento, é uma convocação! E a menina? Ela ao menos sabe?
— Saberá hoje — ele respondeu sem emoção. — Não posso perder tempo, a máfia precisa de estabilidade, uma primeira-dama, herdeiros no futuro, não quero mais pressão dos anciões.
Rita suspirou, passando a mão na testa.
— Você está agindo como seu pai agiria.
Heitor lhe lançou um olhar gelado.
— Meu pai morreu por ser mole demais com certas pessoas, eu não cometerei os mesmos erros.
Rita sentiu um aperto no peito, mas respirou fundo.
Foi até o filho e tocou seu rosto com delicadeza, embora ele permanecesse imóvel.
— Só peço uma coisa… trate essa menina com respeito.
Mesmo que não a ame, não a destrua.
Heitor fechou a expressão, mas sua voz saiu mais baixa.
— Não pretendo machucá-la. Ela só precisa cumprir o papel dela.
Rita olhou para ele como quem enxerga um abismo se abrindo — não por causa do poder, mas pelo que o poder estava fazendo com seu filho.
— Muito bem… — disse finalmente. — Vou providenciar tudo do meu lado.
Ela se virou para sair, ainda processando a notícia.
Antes de cruzar a porta, ouviu a última frase dele:
— Ela será minha esposa. E ninguém questionará isso.
A porta se fechou atrás dela.
E Heitor sentiu o peso de suas próprias palavras se instalando aflito em seu peito — algo que ele se recusava a admitir.