4° A Escolha

1341 Words
Heitor acordou antes mesmo do sol nascer. O corpo ainda pesado, mas a mente presa aquela mulher pele clara, cabelos negros, olhos verdes profundos. A mulher que nunca viu, mas que em seus sonhos o tocara como se o conhecesse a vida inteira. Ele respirou fundo, esfregando o rosto. — Besteira… falta de sexo — murmurou para si mesmo, irritado por estar obcecado com algo tão… impossível. Determinou ali mesmo: assim que resolvesse as pendências na sede, passaria em um dos bordéis. Aquilo, para ele, explicava tudo. Saiu de casa sem sequer dar bom-dia à mãe. Rita apenas o viu cruzar a porta com o rosto tenso e não ousou chamá-lo. Na sede da máfia A primeira coisa que fez foi ir direto à sua sala. Trancou a porta, abriu a gaveta mais alta e tirou a pasta com as candidatas. Ele precisava resolver aquilo logo, antes que os anciões o pressionassem novamente. Sentou-se na poltrona de couro e começou a folhear. Loiras. Ruivas. Morenas. Altas, baixas, magras, cheinhas… Ele analisava cada ficha com praticidade, como quem escolhe um investimento. Mas nenhuma despertava algo além de tédio. — Próxima… Obviamente estava irritado, até cansado. Até que… Ele virou a última página. E congelou. A foto dela. A garota do sonho. A pele branca. O cabelo n***o. Os olhos verdes — exatamente iguais. — Não… não é possível… — sua respiração falhou por um segundo. Atordoado, ele apertou o botão na mesa com força. — MATTEO! — o grito ecoou pelos corredores. Segundos depois, Matteo entrou quase tropeçando, arregalado, achando que algo grave tinha acontecido. — D-don Heitor? Heitor empurrou a pasta para ele, apontando para a foto. — Quem é o pai dessa garota? — sua voz saiu baixa, porém intensa. Matteo piscou, tentando entender o motivo daquele desespero. — Está na ficha dela, senhor. — virou as páginas. — Gabriela Costa, 20 anos, filha única de Samuel Costa, aliado antigo… Mas Heitor não estava ouvindo o resto. Seu olhar estava preso na foto, como se ela fosse uma resposta que ele nem sabia que procurava. — Como ela era pessoalmente? — perguntou sem tirar os olhos do papel. Matteo franziu a testa. — Tímida, senhor, muito tímida, aquela típica garota criada em casa… m*l falava, olhava para o chão o tempo todo, quase não consegui tirar a foto. Heitor fechou a pasta devagar, respirando fundo, tentando esconder o efeito que aquilo causava. — Chame o pai dela, agora para uma reunião. Matteo engoliu seco, fez um leve aceno e saiu apressado, ainda sem entender por que aquela candidata, entre todas, tinha provocado tal reação. Heitor ficou sozinho novamente. Mas agora… não conseguia pensar em outra coisa além de Gabriela. A garota desconhecida que ele sonhou tocar antes mesmo de vê-la. E que agora… estava prestes a ser convocada para o seu destino. Meia hora depois, o som firme dos sapatos ecoou pelo corredor. Matteo abriu a porta com cuidado e entrou acompanhado de Samuel Costa, um homem de meia-idade, postura rígida, olhar sempre desconfiado. — Senhor… trouxe o pai da garota. — informou Matteo, que logo se retirou, fechando a porta e deixando os dois sozinhos. Heitor não perdeu tempo. Levantou-se da cadeira, apoiou as mãos na mesa e encarou Samuel com a frieza típica de um Don. — Sente-se. Samuel obedeceu, mas sua expressão era de quem não fazia ideia do motivo de estar ali. Heitor deu um passo à frente. — Vou ser direto — sua voz cortou o silêncio como uma lâmina. — Eu vou me casar com sua filha, Gabriela. Samuel empalideceu. — C-como é, senhor? — a voz falhou. — Entre todas as candidatas apresentadas, ela foi a escolhida para ser minha esposa. — Heitor foi claro, sem permitir discussão. — A primeira-dama da máfia. Samuel parecia lutar para processar aquilo, seus dedos apertavam o chapéu que ele segurava no colo. Heitor continuou: — O casamento será neste fim de semana. Três dias. Samuel arfou. — T-três dias, Don Heitor? Isso… isso é muito pouco tempo para preparar qualquer coisa… Heitor o interrompeu com o olhar firme. — Não estou pedindo sua opinião, estou apenas informando. Organize tudo que precisa ser organizado: roupas, documentos, dote, presença da sua família, Matteo cuidará do restante. Samuel engoliu seco, sentindo um peso gigantesco nas costas, seu rosto oscilava entre o orgulho e o medo. — Entendo, senhor, Gabriela… Gabriela será honrada, farei o possível para que ela esteja pronta. Heitor fechou a pasta devagar e voltou para trás da mesa. — Certifique-se de que ela esteja preparada. A cerimônia será pequena, apenas para os aliados. Sem erros, sem atrasos. Samuel levantou-se, cabisbaixo, sabendo que não tinha escolha. — Como desejar, meu Don. — Pode ir — finalizou Heitor, já mergulhando novamente na rigidez de líder. Samuel saiu apressado, claramente atordoado. Quando a porta se fechou, Heitor soltou um longo suspiro — o primeiro desde que viu aquela foto. Três dias. Em apenas três dias, ele teria uma esposa, e aquela garota de pele clara, cabelo n***o e olhos verdes… se tornaria sua propriedade. Mesmo sem entender por que, ele sentia que aquele casamento mudaria tudo. Assim que Samuel deixou a sala, Heitor apertou o botão ao lado do telefone interno. — Tragam minha mãe, agora. A voz seca não deixava espaço para dúvidas. Minutos depois, a porta se abriu e Rita entrou com passos firmes, porém elegantes, trazia no olhar aquela mistura de orgulho e preocupação que nunca desaparecia desde que o marido morreu — Matteo disse que você queria falar comigo, meu filho… — ela começou, tentando ler a expressão dele. Heitor não deu voltas. — Eu escolhi minha esposa. Rita piscou, surpresa. — Já? Mas… você ainda nem havia analisado todas as candidatas com calma… Ela se aproximou, colocando as mãos sobre a mesa. — Heitor, meu amor, não precisa se apressar só porque aqueles velhos insistem nesse casamento. Você ainda está de luto… Ele a interrompeu com a mão erguida. — Está decidido. Rita fechou a boca, sentindo a seriedade dele pesar na sala. — Quem é a garota? — perguntou, mais contida. Heitor puxou a pasta e entregou para ela. Rita abriu, virou algumas páginas até encontrar a foto de Gabriela. A expressão dela suavizou imediatamente. — Ela é… linda. — murmurou, surpresa. — Parece tão jovem… tão delicada… Heitor desviou o olhar. A imagem da garota do sonho lhe atravessou a mente de novo, como um golpe quente e inesperado. — O pai dela já foi avisado. O casamento será no fim de semana. Rita arregalou os olhos. — Três dias? Heitor, isso não é um casamento, é uma convocação! E a menina? Ela ao menos sabe? — Saberá hoje — ele respondeu sem emoção. — Não posso perder tempo, a máfia precisa de estabilidade, uma primeira-dama, herdeiros no futuro, não quero mais pressão dos anciões. Rita suspirou, passando a mão na testa. — Você está agindo como seu pai agiria. Heitor lhe lançou um olhar gelado. — Meu pai morreu por ser mole demais com certas pessoas, eu não cometerei os mesmos erros. Rita sentiu um aperto no peito, mas respirou fundo. Foi até o filho e tocou seu rosto com delicadeza, embora ele permanecesse imóvel. — Só peço uma coisa… trate essa menina com respeito. Mesmo que não a ame, não a destrua. Heitor fechou a expressão, mas sua voz saiu mais baixa. — Não pretendo machucá-la. Ela só precisa cumprir o papel dela. Rita olhou para ele como quem enxerga um abismo se abrindo — não por causa do poder, mas pelo que o poder estava fazendo com seu filho. — Muito bem… — disse finalmente. — Vou providenciar tudo do meu lado. Ela se virou para sair, ainda processando a notícia. Antes de cruzar a porta, ouviu a última frase dele: — Ela será minha esposa. E ninguém questionará isso. A porta se fechou atrás dela. E Heitor sentiu o peso de suas próprias palavras se instalando aflito em seu peito — algo que ele se recusava a admitir.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD