2-28 Ruby

1658 Words
Caminhando sem rumo, sem chão. Eu tinha uma vida, do jeitinho que a vida havia me proporcionado, sim. Mas era o mais perto da paz que eu já tive. Agora eu não tinha mais nada. Corra garotinha. Eu corro. Igual aquela noite que corri na chuva pelo gramado até cair desmaiada. Correndo mais e mais, mais e mais. Sem ter para onde ir, sem nada para chamar de meu. Mas estou sendo dramática, porque não é a mesma coisa de antes. Agora eu ainda tenho pessoas, ainda tenho como lutar. Vejo no caminho um ponto de ônibus, e então fico ali a essa hora da noite esperando. Era assustador ficar aqui, vestida assim, sozinha e ainda descalça com os pés cheios de farpas. Mas por mais doloroso que fosse, era o mais relaxante que eu tinha. Fico olhando as ruas com a cabeça escorada na janela enquanto o ônibus anda, tento ao máximo ignorar aqueles velhos me olhando de cima a baixo. Talvez seja a roupa, pela primeira vez a culpa realmente é da roupa. Esse tipo de vestido só é usado por garotas de programa, mas eu não sou, porém estou usando. Irônico. Coloco aquela camisa de gola alta que o Dean me emprestou aquela vez para me cubrir, ainda consigo sentir o cheiro dele nela. Mais alguns quilômetros até que finalmente desço, corro por mais algumas ruas olhando em volta com medo de que tenha algum homem me seguindo. Paro em frente à porta, envergonhada pelo horário mas também destruída. Crio coragem para bater, para pedir ajuda e com medo de explicar o que estava acontecendo. O que eu poderia dizer? Que meus pais me expulsaram de casa e esse tempo todo tenho vivido em um bordel às custas da prostituição? Parecia ser simples, mas não é. Isso muda tudo o que as pessoas verão em nós, e isso era o que me assustava. Talvez se eu bater nessa porta as coisas podem mudar ainda mais, mas acho que não vai fazer diferença. O Dean já descobriu. — Ruby!? — A mãe de Línea aparece na porta me encarando com os olhos arregalados. — Oi. — Obrigo um sorriso pequeno. — Eu posso entrar? Preciso de um lugar para ficar pelo menos só por essa noite. — Claro, pode entrar. — Ela deu espaço na porta e eu entrei vendo a sala enorme com os móveis padrões e a mesinha de centro cheia de porta-retratos da Línea criança, dos pais dela casando, fotos em família, deles quando eram crianças e mais jovens. — Desculpa pelo horário, eu realmente não tinha para onde ir. — Virei para ela que me olhava de cima a baixo preocupada. — Não se preocupe, estávamos acordados. Minha família está aqui, vieram para o meu aniversário e ficamos até agora conversando. — Ah, meu Deus. — Olho em volta me dando conta vendo pessoas na cozinha no final do corredor conversando. — Me desculpa, é melhor eu ir embora. Não acredito que estraguei seu aniversário, me desculpa. — Não, não, não! — Ela me segurou antes que eu abrisse a porta para sair. — Você não estragou nada, calma! Venha, vou chamar a Línea para arrumar um lugar para você no quarto dela. A mãe de Línea caminhou pelo corredor e eu fiquei a olhando receosa. — Vem! — Ela me chamou novamente gesticulando com a mão. — Línea? — Que? — Ela respondeu de dentro do quarto. — Abra a porta. Então ela abre a porta e me olha surpresa. — Arrume um lugar para a Ruby dormir no seu quarto, ela precisa de um lugar para ficar hoje. — A mãe dela ordena, sorri fraco para mim enquanto alisa minhas costas e volta para a cozinha. Línea e eu nos olhamos por alguns segundos, não consigo olhar muito e abaixo a cabeça. — Desculpa. — Murmurei. — Tudo bem, vem, entra. Não se preocupe. Está com fome? — Balancei a cabeça negativamente em resposta. Eu poderia vomitar se tentasse comer algo. Sento na beirada da cama e Línea caminha até o banheiro e depois volta. — Vai lá, toma um banho quente. Acho que vai te ajudar a dormir, você está com uma cara péssima. — Ela diz com as mãos para trás, mais sem jeito do que eu. — Enquanto isso eu arrumo um colchão para você. Quer umas roupas? — Não precisa. Está bem, obrigada. — Forcei um sorriso, tirei o casaco e deixei em cima da escrivaninha enquanto caminhava com os pés no chão até o banheiro. — Você tem um chinelo para me emprestar? — Embaixo da pia. Assenti voltando para dentro do banheiro vendo uma toalha em cima da pia, shampoo e condicionador, escova de cabelo e de dentes nova, sabonetes para o rosto e para o corpo, é uma pasta de dente. Sorri comigo mesma mas meu sorriso morreu quando vi minha bochecha com um hematoma e o lábio inferior cortado. Tentei esquecer e entrei no box. Tomei um banho quente, lavei o cabelo que deu muito trabalho para desembaraçar e escovei os dentes. Vesti uma calça larga e uma regata branca, calcei as pantufas da Línea e quando saí do banheiro, já havia um colchão arrumado no chão ao lado da cama de Lina com almofadas em forma de ursinhos fofos, dois travesseiros e uma coberta macia. Vesti novamente o casaco gola alta de Dean e sentei no colchão refletindo enquanto Línea não aparecia. Quando ela apareceu tinha um saco de gelo nas mãos, sentou ao meu lado no colchão e pôs sobre a minha bochecha. Segurei o saco de gelo e ela escorou as costas na cama em silêncio. Eu sei que ela queria uma resposta, mas também sei que ela é compreensiva o suficiente para saber que algo sério estava acontecendo. — O que aconteceu com você? — Ela questionou finalmente. Respirei fundo sem saber por onde começar, há tantas coisas que precisam ser ditas para eu ter chegado até aqui. — A história é longa. — Não tem problema. — Ela assegurou ainda me encarando. Então eu contei, sobre minha mãe me expulsar de casa, sobre eu ter sido obrigada a viver naquela boate da Ruth para sobreviver, sobre o bullying que eu sofri na antiga escola por ser “garota de programa” e tive que mudar para a escola a atual, contei também sobre o Dean descobrir e sobre a Ruth querer me leiloar como se eu fosse uma mercadoria. — Por favor, não conta para ninguém. — Pedi suplicante. — Eu não vivo assim porque quero, vivo por necessidade. — Tudo bem. Está tudo bem. — Ela assentiu ainda horrorizada. — A Abby sabe? — Não. Não conta para ela também. — Pode deixar. O Dean não sabe da história inteira, sabe? — Não, não tive oportunidade de contar com detalhes. Ele estava eletrizado demais. — Respirei fundo tentando jogar a dor para fora pela respiração. — Ele vai entender, eu sei que vai. — Não vai, ele é cabeça dura. Mas está tudo bem, tenho coisas mais importantes para me preocupar. — Você é tão forte, eu já estaria enlouquecendo. — Ela sorriu fraco. — As vezes acho que já enlouqueci. — Murmurei. — Onde coloco? — Levantei o saco de gelo já quase inteiro derretido. — Me dá, vou deixar na cozinha. — Entreguei para ela que saiu e voltou depois de uns minutos. Meu cabelo já estava seco o bastante para não molhar o travesseiro, então deitei a cabeça em um dos travesseiros e abracei o outro. Línea entrou novamente, apagou a luz deixando só o abajur ligado, trancou a porta e deitou na sua cama ao meu lado. — Você prefere que eu apague o abajur ou que deixe aceso? — Você dorme no escuro? — Não, tenho medo do escuro. — Ela confessou. — Bom… só quando durmo sozinha. Mas hoje você está aqui comigo. — Deixe acesa, você deve estar mais acostumada a dormir com luz. Não vai me incomodar, me adapto a qualquer coisa. Línea deitou mais na beirada da cama me olhando encarar o teto, parecia pensar alguma coisa e querer dizer algo. — O Killer está apaixonado por você, não é? — Questionei logo de cara a fazendo ficar nervosa e comecei a rir. — De onde tirou isso!? — Juntei as peças, acho que eu já sabia desde o dia que ele começou a babar por essa garota misteriosa. — Dei de ombros sorrindo de canto. — Mas não sei se ele é bom para mim. — Ela comentou brincando com os cordões do próprio moletom. — Por que? — Me endireitei de lado na cama a encarando. — Ainda pergunta? Vê como ele é babaca? Sem futuro e acredita ser o garanhão por causa disso? — Esbravejou como se fosse óbvio. — Desde que ele conheceu o seu namorado, ele ficou assim. — Nem venha, o Dean não é assim. O Killer só mostrou o que ele é de verdade, o Dean pode até ter influenciado a ser rebelde, cabular aulas e a fumar baseado. Mas a ser cafajeste e encontrar um amor da vida toda semana, ele não influenciou. — É, tem razão. E eu também tenho certeza que daqui uma semana realmente o Killer encontra um outro amor da vida dele, que por coincidência pode ser a Abby ou você também. — Cruzou os braços irritados quase me fazendo rir. — Ele não merece você, tem mais é que se f***r na vida mesmo. Ele e aquele parceiro dele, duas farinhas do mesmo saco. — Ué, não era você que estava defendendo o Dean? — Lina gargalhou. Não era comum ela rir e conversar tanto assim, estava me surpreendendo. Ela costumava falar muito pouco, e quando falava alguma coisa. Estava ficando orgulhosa, era bom ver ela resolvendo seus problemas que no caso era a timidez, ajudava a preencher pelo menos 1% do meu vazio.
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