3-29 Ruby

1505 Words
Eu já estava acostumada a acordar todos os dias cedo, tinha que manter a rotina e dar conta de tudo. Dormir poucas horas por noite e cochilar escondido de vez em quando. Naquela amanhã acordei mais cedo do que todo mundo, não era cedo, mas sim muito cedo mesmo. Passei um tempo olhando para o teto sem ter muito o que fazer, e depois levantei para preparar o café. Quando os pais da Línea acordaram eu já tinha arrumado boa parte da casa e estava tomando café pela segunda vez, e não eram nem 6 da manhã ainda. Enquanto tomávamos café eu encarava algum ponto aleatório da cozinha, estava com vergonha de manter contato visual com eles. Por outro lado, a mãe da Lina não parava de me olhar. — O que houve com a bochecha? — Ela apontou para o próprio rosto como se instruísse onde estava o meu hematoma. — Fui assaltada. — Comprimi os lábios encarando a mesa. — Entendi. Ficamos em silêncio por uns instantes, eu ainda sentia que ela tinha uma pulga atrás da orelha, queria questionar algo diretamente mas não sabia como perguntar. — Você esta bem focada nos estudos, Ruby? — Não falto sequer um dia na escola, e me esforço ao máximo. Línea ainda não tinha acordado, era acostumada a dormir bem e ficar entediada. Então não dava para julgá-la. — O que vai fazer quando esse ano acabar? — Como? — A sua pergunta me fez quase engasgar. Eu não tinha parado para pensar nisso, por mais que fosse conseguir me virar bem, as coisas que me esperam não é nada do que eu esperei para mim. Todos aqueles sonhos de quando criança, se transformaram em furtos, me levaram a inocência e a minha infância, com a adolescência de brinde. — Está concluindo o terceiro ano, não é? — É, estou. — Pensei um pouco. — Eu não sei, não parei para planejar ainda. Acho que nós seres humanos só damos jeito nas coisas em cima da hora. — Mas você parece ser muito esforçada. — Sorriu sem mostrar os dentes. — Ou é só porque está aqui? — Com toda certeza não. — Forcei um sorriso irônico. Mais tarde quando a Línea acordou, nos arrumamos para a escola e saímos para esperar o ônibus. Foi divertido, bom… esperar ônibus não é divertido, mas dessa vez eu não estava esperando sozinha. Subimos, nos sentamos uma ao lado da outra e depois de alguns quilômetros Abby subiu também. Eu estava ansiosa para ir para a escola, não porque lá tivesse algo verdadeiramente interessante mas porque eu precisava ver o Dean. Por mais que eu estivesse explodindo de raiva, eu precisava vê-lo. Línea agora me entendia, eu não estava mais tão sozinha. Ela me via olhando para os lados de vez em quando a procura dele, esperando que ele estivesse descendo aquela calçada que ele costumava descer todo santo dia sem falta para a escola desde que o pedi para fazer. A Línea também estava tentando distrair a Abby, na verdade, estava conversando normalmente e isso ocasionava em Abby não desconfiar o meu esmorecimento. Deu a hora de entrar na escola, e a gente caminhando por aquela rua vimos todos os amigos do Dean entrando na escola. Menos ele. A preocupação começou a me corroer por dentro, mas ainda não tinha motivos para se preocupar demais. Entramos na sala normalmente, e mais uma vez não estava lá, não chegou mais cedo como as vezes chegava. — Killer. — O chamei tentando aliviar a tristeza nas expressões mas não dava, eu continuava com cara de cachorro que caiu da mudança. Os outros saíram andando e ficamos só nós dois para trás parados na porta. — Late. — Ele respondeu sorrindo com brincadeira não percebendo que eu estava falando sério, tinha que ser homem. — O que houve com a sua bochecha? — Você tem alguma notícia do Dean? — Ignorei sua pergunta e questionei baixo para o restante não escutar. — Não. — Me olhou desconfiado. — Aconteceu alguma coisa? — Eles também não sabem? — Ignorei novamente gesticulando a cabeça na direção daqueles outros projetos de rebeldia e xerox m*l feita do Dean. — Vou perguntar, eu aviso você. Eu assenti e saímos caminhando até nossas carteiras. Killer deixou a mochila no lugar dele e sentou lá no fundão junto com os outros amigos dele. — Vocês sabem alguma coisa do Dean? Ele não responde as minhas mensagens. — Killer comenta como quem não quer nada. — Vi ele saindo ontem com o Jason e não o vi mais. Nem sinal. O que era de tão importante? — Marck levanta uma sobrancelha. — Nada que te interesse, intrometido. — Killer me olhou e balançou a cabeça me fazendo comprimir os lábios. Línea e eu nos entreolhamos, ela ergueu as sobrancelhas e tentou sorrir acolhedora. Agora sim eu estava começando a me preocupar de verdade, Dean foi embora para casa sozinho ontem a noite de moto. Mil e uma possibilidades começaram a surgir em minha mente, coisas que eu não gostaria nem de imaginar. Eu já devia estar procurando o rumo para a minha vida, mas eu ainda estava aqui, preocupada com um i****a que deve estar me odiando com todo o ódio que guarda dentro de si. Aquela aula parecia não querer acabar nunca, e aí veio a segunda, depois a terceira, o recreio… eu só conseguia pensar em pular aquele muro e ir logo atrás dele. Mais uma vez, quarta aula e finalmente a última. Não sobraram fios de cabelo na cabeça, boa parte deles devem estar no chão agora. Chamaram a Abby para ir fazer uma prova na biblioteca, e então aproveitei para conversar com Línea. — Muito obrigada por me ajudar ontem a noite, de verdade. — Ela sorriu fraco. — Não vou embora hoje, vou tentar me virar mais uma vez. Já está virando um talento. — Para onde vai? Por que não vai embora? — Vou procurar o Dean. — Comprimi os lábios. — Ele é cabeça dura, mente fraca e não posso simplesmente ignorar o sumiço dele. — Se você for procurar ele, ele vai dizer as coisas mais desagradáveis que você já ouviu antes, tem consciência disso, não tem? — Levantou uma sobrancelha. — Tenho, mas também tenho pena da mãe dele. Ela precisa de apoio. — Entendi. — Sorrimos sem ânimo. Abby chegou depois de uns minutos, no relógio faltava cinco minutos para acabar e todos levantaram para ficar na porta. Meu estômago estava embrulhando e eu não conseguiria parar de tremer a perna. Quando o sinal tocou todos caminharam correndo, eu saí realmente correndo subindo aquela calçada que subimos da última vez. Correr é tudo que tenho feito nos últimos tempos, fugindo de tudo, estou sempre fugindo. Me pergunto quando que isso iria mudar, e quando que eu iria parar em um lugar e ficaria realmente sossegada. — Dean! Raquel! — Gritava enquanto batia na porta, praticamente a esmurrando, não conseguia controlar. — Ruby!? — Raquel abriu a porta pálida me olhando com os mesmos olhos que a olho. — O Dean está aqui? — Questionei metendo a cara na porta e olhando em volta buscando por algum sinal dele. — Eu também queria saber onde ele está, não o vejo desde antes de ontem quando você esteve aqui. O que está acontecendo? — Para onde ele pode ter ido, você tem alguma noção de para onde ele pode ter ido? — Questionei praticamente em um grito, nós estávamos conversando aos gritos. Raquel parecia tão desesperada quanto eu. — Eu não sei, eu estava mais tranquila porque imaginei que ele estivesse com você. Mas o que houve, Ruby? — Brigamos, foi isso. — Balancei a cabeça tentando me sentir menos culpada por falar do problema como se fosse muito mais pequeno do que realmente era. — Eu não faço a menor ideia dos lugares que ele frequenta, não sei mais sobre a vida dele e nem com quem ele anda. Eu não sei onde ele pode estar. Virei de costas encarando aquelas ruas e pensando “se eu fosse o Dean, para onde eu iria?”. Eu tinha a noção de onde ele poderia estar, mas não sabia como chegar até lá. — Onde fica a comunidade? — Virei novamente para a Raquel. — Comunidade… favela? — Assenti. Raquel saiu para fora, chegou na ponta da calçada e gesticulou para as ruas que eu precisaria entrar, os bairros que eu iria passar e as coisas que eu precisava tomar cuidado e saber. — Eu vou buscar ele, Raquel. Não se preocupe, eu não volto aqui sem ele. — Afirmei com convicção e ela me olhou surpresa. — Ele não vai estar lá, Ruby. Meu filho não andaria nesse lugar. — Seu filho não é mais criança, você não o conhece mais. — Obriguei um sorriso sem dentes, me aproximei e lhe dei um beijo na testa. — Tome um calmante, ele vai aparecer daqui a pouco. Irei trazê-lo.
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