Eu já estava acostumada a acordar todos os dias cedo, tinha que manter a rotina e dar conta de tudo. Dormir poucas horas por noite e cochilar escondido de vez em quando.
Naquela amanhã acordei mais cedo do que todo mundo, não era cedo, mas sim muito cedo mesmo.
Passei um tempo olhando para o teto sem ter muito o que fazer, e depois levantei para preparar o café.
Quando os pais da Línea acordaram eu já tinha arrumado boa parte da casa e estava tomando café pela segunda vez, e não eram nem 6 da manhã ainda.
Enquanto tomávamos café eu encarava algum ponto aleatório da cozinha, estava com vergonha de manter contato visual com eles.
Por outro lado, a mãe da Lina não parava de me olhar.
— O que houve com a bochecha? — Ela apontou para o próprio rosto como se instruísse onde estava o meu hematoma.
— Fui assaltada. — Comprimi os lábios encarando a mesa.
— Entendi.
Ficamos em silêncio por uns instantes, eu ainda sentia que ela tinha uma pulga atrás da orelha, queria questionar algo diretamente mas não sabia como perguntar.
— Você esta bem focada nos estudos, Ruby?
— Não falto sequer um dia na escola, e me esforço ao máximo.
Línea ainda não tinha acordado, era acostumada a dormir bem e ficar entediada. Então não dava para julgá-la.
— O que vai fazer quando esse ano acabar?
— Como? — A sua pergunta me fez quase engasgar.
Eu não tinha parado para pensar nisso, por mais que fosse conseguir me virar bem, as coisas que me esperam não é nada do que eu esperei para mim. Todos aqueles sonhos de quando criança, se transformaram em furtos, me levaram a inocência e a minha infância, com a adolescência de brinde.
— Está concluindo o terceiro ano, não é?
— É, estou. — Pensei um pouco. — Eu não sei, não parei para planejar ainda. Acho que nós seres humanos só damos jeito nas coisas em cima da hora.
— Mas você parece ser muito esforçada. — Sorriu sem mostrar os dentes. — Ou é só porque está aqui?
— Com toda certeza não. — Forcei um sorriso irônico.
Mais tarde quando a Línea acordou, nos arrumamos para a escola e saímos para esperar o ônibus.
Foi divertido, bom… esperar ônibus não é divertido, mas dessa vez eu não estava esperando sozinha.
Subimos, nos sentamos uma ao lado da outra e depois de alguns quilômetros Abby subiu também.
Eu estava ansiosa para ir para a escola, não porque lá tivesse algo verdadeiramente interessante mas porque eu precisava ver o Dean. Por mais que eu estivesse explodindo de raiva, eu precisava vê-lo.
Línea agora me entendia, eu não estava mais tão sozinha. Ela me via olhando para os lados de vez em quando a procura dele, esperando que ele estivesse descendo aquela calçada que ele costumava descer todo santo dia sem falta para a escola desde que o pedi para fazer.
A Línea também estava tentando distrair a Abby, na verdade, estava conversando normalmente e isso ocasionava em Abby não desconfiar o meu esmorecimento.
Deu a hora de entrar na escola, e a gente caminhando por aquela rua vimos todos os amigos do Dean entrando na escola. Menos ele.
A preocupação começou a me corroer por dentro, mas ainda não tinha motivos para se preocupar demais.
Entramos na sala normalmente, e mais uma vez não estava lá, não chegou mais cedo como as vezes chegava.
— Killer. — O chamei tentando aliviar a tristeza nas expressões mas não dava, eu continuava com cara de cachorro que caiu da mudança. Os outros saíram andando e ficamos só nós dois para trás parados na porta.
— Late. — Ele respondeu sorrindo com brincadeira não percebendo que eu estava falando sério, tinha que ser homem. — O que houve com a sua bochecha?
— Você tem alguma notícia do Dean? — Ignorei sua pergunta e questionei baixo para o restante não escutar.
— Não. — Me olhou desconfiado. — Aconteceu alguma coisa?
— Eles também não sabem? — Ignorei novamente gesticulando a cabeça na direção daqueles outros projetos de rebeldia e xerox m*l feita do Dean.
— Vou perguntar, eu aviso você.
Eu assenti e saímos caminhando até nossas carteiras. Killer deixou a mochila no lugar dele e sentou lá no fundão junto com os outros amigos dele.
— Vocês sabem alguma coisa do Dean? Ele não responde as minhas mensagens. — Killer comenta como quem não quer nada.
— Vi ele saindo ontem com o Jason e não o vi mais. Nem sinal. O que era de tão importante? — Marck levanta uma sobrancelha.
— Nada que te interesse, intrometido. — Killer me olhou e balançou a cabeça me fazendo comprimir os lábios.
Línea e eu nos entreolhamos, ela ergueu as sobrancelhas e tentou sorrir acolhedora.
Agora sim eu estava começando a me preocupar de verdade, Dean foi embora para casa sozinho ontem a noite de moto. Mil e uma possibilidades começaram a surgir em minha mente, coisas que eu não gostaria nem de imaginar.
Eu já devia estar procurando o rumo para a minha vida, mas eu ainda estava aqui, preocupada com um i****a que deve estar me odiando com todo o ódio que guarda dentro de si.
Aquela aula parecia não querer acabar nunca, e aí veio a segunda, depois a terceira, o recreio… eu só conseguia pensar em pular aquele muro e ir logo atrás dele.
Mais uma vez, quarta aula e finalmente a última. Não sobraram fios de cabelo na cabeça, boa parte deles devem estar no chão agora.
Chamaram a Abby para ir fazer uma prova na biblioteca, e então aproveitei para conversar com Línea.
— Muito obrigada por me ajudar ontem a noite, de verdade. — Ela sorriu fraco. — Não vou embora hoje, vou tentar me virar mais uma vez. Já está virando um talento.
— Para onde vai? Por que não vai embora?
— Vou procurar o Dean. — Comprimi os lábios. — Ele é cabeça dura, mente fraca e não posso simplesmente ignorar o sumiço dele.
— Se você for procurar ele, ele vai dizer as coisas mais desagradáveis que você já ouviu antes, tem consciência disso, não tem? — Levantou uma sobrancelha.
— Tenho, mas também tenho pena da mãe dele. Ela precisa de apoio.
— Entendi. — Sorrimos sem ânimo.
Abby chegou depois de uns minutos, no relógio faltava cinco minutos para acabar e todos levantaram para ficar na porta.
Meu estômago estava embrulhando e eu não conseguiria parar de tremer a perna. Quando o sinal tocou todos caminharam correndo, eu saí realmente correndo subindo aquela calçada que subimos da última vez.
Correr é tudo que tenho feito nos últimos tempos, fugindo de tudo, estou sempre fugindo. Me pergunto quando que isso iria mudar, e quando que eu iria parar em um lugar e ficaria realmente sossegada.
— Dean! Raquel! — Gritava enquanto batia na porta, praticamente a esmurrando, não conseguia controlar.
— Ruby!? — Raquel abriu a porta pálida me olhando com os mesmos olhos que a olho.
— O Dean está aqui? — Questionei metendo a cara na porta e olhando em volta buscando por algum sinal dele.
— Eu também queria saber onde ele está, não o vejo desde antes de ontem quando você esteve aqui. O que está acontecendo?
— Para onde ele pode ter ido, você tem alguma noção de para onde ele pode ter ido? — Questionei praticamente em um grito, nós estávamos conversando aos gritos. Raquel parecia tão desesperada quanto eu.
— Eu não sei, eu estava mais tranquila porque imaginei que ele estivesse com você. Mas o que houve, Ruby?
— Brigamos, foi isso. — Balancei a cabeça tentando me sentir menos culpada por falar do problema como se fosse muito mais pequeno do que realmente era.
— Eu não faço a menor ideia dos lugares que ele frequenta, não sei mais sobre a vida dele e nem com quem ele anda. Eu não sei onde ele pode estar.
Virei de costas encarando aquelas ruas e pensando “se eu fosse o Dean, para onde eu iria?”. Eu tinha a noção de onde ele poderia estar, mas não sabia como chegar até lá.
— Onde fica a comunidade? — Virei novamente para a Raquel.
— Comunidade… favela? — Assenti.
Raquel saiu para fora, chegou na ponta da calçada e gesticulou para as ruas que eu precisaria entrar, os bairros que eu iria passar e as coisas que eu precisava tomar cuidado e saber.
— Eu vou buscar ele, Raquel. Não se preocupe, eu não volto aqui sem ele. — Afirmei com convicção e ela me olhou surpresa.
— Ele não vai estar lá, Ruby. Meu filho não andaria nesse lugar.
— Seu filho não é mais criança, você não o conhece mais. — Obriguei um sorriso sem dentes, me aproximei e lhe dei um beijo na testa. — Tome um calmante, ele vai aparecer daqui a pouco. Irei trazê-lo.