De repente me pego lembrando da minha mãe, de casa.
A casa era um campo de batalha. Alberto e minha mãe, Rafaela, gritavam. Eu tentava me esconder, mas não havia escapatória.
— Você é uma inútil! — Alberto berrou, lançando um copo contra a parede.
— Alberto, pare! — Minha mãe chorava, protegendo-se.
— Alberto, por favor... — Eu tentava intervir.
— E você, pequena, não se meta! — Ele se virou para mim, olhos injetados.
— Ruby, não. — Minha mãe segurou meu braço. Ela agia como se ele estivesse certo, como se fosse normal e ele fosse apenas um pouco explosivo.
Eu estava em meu quarto, estudando, quando ouvi a briga. Meu coração acelerou. Mais uma vez, meu padrasto, Alberto, e minha mãe, Rafaela, estavam em conflito.
Corri para a cozinha, tentando intervir.
— Alberto, por favor, pare! — Eu gritei, vendo mamãe chorar, com olhos desesperados.
Alberto, com raiva estampada no rosto, virou-se para mim.
— E você, Ruby, não se meta! Isso não é da sua conta!
— Ruby, vai embora, filha... — Mamãe tentou me proteger.
Mas eu não podia abandoná-la.
— Alberto, você está ferindo mamãe! Isso não é justo!
— Você acha que sabe o que é justo? Você é apenas uma adolescente ingrata! — Ele deu um passo ameaçador, voz elevada.
— Não faça isso, Alberto! Mamãe não merece! — Eu me coloquei entre eles, tremendo.
Ele me empurrou com força. Eu caí no chão, sentindo dor e medo.
— Ruby, filha, está tudo bem? — Mamãe correu para me ajudar, chorando.
— Nós não vamos mais aguentar isso, mamãe. Precisamos sair daqui. — Eu me levantei, determinada.
— Vocês não vão a lugar nenhum! Esta é minha casa! — Alberto gritou, furioso.
— O que!? Não! — Mamãe me puxou para perto segurando meu rosto nas mãos. — Essa é a nossa casa Ruby, não é assim que as coisas funcionam.
Relembro também como eu não tinha liberdade.
Eu estava me preparando para uma noite divertida com amigas, escolhendo cuidadosamente minha roupa: uma saia jeans confortável e uma blusa simples, mas elegante. O quarto estava iluminado apenas pela luz suave da lâmpada, criando uma atmosfera acolhedora. Alberto entrou abruptamente, seu olhar crítico e desaprovador cortando o silêncio.
— Onde você pensa que vai com essa roupa?— Ele perguntou, voz baixa e ameaçadora, com um tom de desdém. — Você parece uma... uma jovem sem respeito.
— Vou ao cinema com minhas amigas. Nada de mais. — Eu interrompi, antecipando a crítica.
— O cinema? À noite? Com quem? — Alberto franziu a testa.
— Essa roupa é indecente. — Alberto criticou, apontando para a saia. — Você quer chamar atenção? Você não é mais uma criança. Deve se comportar como uma jovem respeitável.
— Ruby, talvez você deva mudar. Alberto está preocupado com sua segurança. — Mamãe entrou no quarto, mas não me defendeu.
Eu senti uma onda de frustração.
— A roupa não é indecente, mamãe. — Protestei. — É apenas uma roupa normal. Todas as minhas amigas usam roupas assim.
— Eu proíbo você de sair assim! Você é uma menina ingrata e desobediente. Você precisa aprender a respeitar. — Alberto se aproximou, olhos injetados de raiva.
Mamãe não interveio em meu favor.
— Ruby, obedeça Alberto. Ele quer o melhor para você. — Sua voz era suave, mas resignada, como se aceitasse a autoridade de Alberto.
— A melhor para mim? — Rebati, sentindo raiva e tristeza. — Viver presa aqui, sem liberdade? Sem poder escolher minhas próprias roupas ou atividades?
— Você precisa aprender a respeitar. Aqui é minha casa, minhas regras. Você vive sob meu teto, come meu pão. — Alberto sorriu, sarcástico. Hipócrita.
— Ruby, não desafie Alberto. Isso só piora as coisas. — Mamãe concordou.
Eu senti-me sozinha e presa. Minha mãe não me apoiava. Alberto controlava minha vida.
— Vou sair. — Declarei, firme, pegando minha bolsa.
– Não sairá enquanto eu não permitir. — Alberto bloqueou a porta.
Eu olhei para mamãe, buscando apoio. Ela desviou os olhos, incapaz de me ajudar. Senti-me abandonada, sem opções. Alberto controlava minha vida, e mamãe não fazia nada para mudar isso.
— Ruby? Alô, terra chamando. — Elay me chama intercalando seu olhar do voltante para mim.
— Ah, estou com sono.
— Como foi? Foi apenas um teste, vai ficar mais complicado a cada vez. — Avisou.
— Não foi as mil maravilhas, mas foi menos tenso do que dormir na rua.
— Dormir na rua? — Ele me olhou com uma sobrancelha arqueada.
— Minha mãe me colocou para fora de casa junto com meu padrasto, tive que dá um jeito para viver. — Dei de ombros.
— Sinto muito, eu… não imaginava.
— O que foi fazer quando deu a desculpa de ir ao banheiro?
— Pegar isso. — Ele levantou um pendrive entre os dedos me fazendo arquear uma sobrancelha.
— E o que isso seria? Além de apenas um pendrive.
— Provas que incriminam o Julian como um traficante de drogas. — Elay falou naturalmente enquanto continuava dirigindo.
— O que!?
— Ele roubou um carregamento do meu pai achando que não iríamos saber, só estamos dando o troco.
— Nossa… — Ofego sem saber o que dizer. — Poderia ter me explicado antes, eu quase infartei. Pensei diversas coisas erradas.
— Fica tranquila, Ruby. Pode confiar em mim. — Elay me encarou por alguns segundos como se tentasse transmitir essa confiança através do olhar. — Seu pagamento pela ajuda mínima vai estar em cima da sua cama.
— O que? Pagamento? Só por distrair ele?
— Foi o que combinamos, não foi? Você trabalhar me ajudando e sendo uma distração.
— Mas você não tinha explicado direito. — Resmunguei.
— Eu falei que você só iria entender na prática.
— Ok, mas se tivesse dado errado por causa da minha falta de conhecimento no assunto?
— Não tinha como dar errado, eu só fui procurar dados no computador dele e passei para o pendrive. Acertei um vaso na cabeça de um empregado que apareceu para atrapalhar, mas isso não foi um erro muito brusco. — Elay deu de ombros como se não fosse nada.
— O que… — Ofeguei surpresa com a informação.
— Ele vai ficar bem, o tranquei dentro do banheiro do escritório.
— Você disse que vai disso para a pior?
— É, ninguém vai obrigar você a trabalhar conosco, quiser voltar para a Ruth, volte.
— Eu beijei aquele maluco, e se as coisas fossem piores eu ia ter que t*****r com ele? — Esbravejei.
— É uma opção de distração, aí é com você. Você trabalha com distração, agora como vai distrair quem escolhe é você. — Elay mais uma vez deu de ombros enquanto dirigia normalmente.
Até onde eu sabia o jantar era amigável, eles iriam discutir sobre negócios e sobre uma compra.
Quando entrei no quarto para dormir, em cima da cama realmente haviam muitos bolos de dinheiro. Fiquei admirada e ao mesmo tempo notei o que queriam fazer, queriam me agradar para que eu continuasse. Era um dinheiro e tanto, me fez duvidar até mesmo do meu caráter.