CAPÍTULO 1

553 Words
Amará não lembrava do som exato da voz da mãe. Mas lembrava do calor. Havia um tipo específico de aconchego que só existia nos braços dela, um lugar onde o mundo parecia menor, mais lento, menos perigoso. Era ali que Amará dormia sem sobressaltos, com a respiração tranquila e o coração ainda intacto. Foi esse lugar que lhe foi arrancado. O dia começou como qualquer outro. O sol atravessava as cortinas claras, espalhando luz pela casa simples, mas cheia de riso. A mãe de Amará cantava enquanto organizava o café, e o pai a observava como quem agradece em silêncio por ter encontrado o amor da vida inteira. Do outro lado da mesa, havia um olhar que não sorria. A tia. Ela observava tudo em silêncio o carinho, os toques distraídos, a cumplicidade que não precisava de palavras. Via a forma como ele beijava a testa da irmã, como a filha era envolvida em proteção, como aquela família existia inteira, sem ela. O amor deles era um insulto. Enquanto uns recebiam afeto, outros colecionavam rejeições. Enquanto uns eram escolhidos, outros aprendiam a odiar em silêncio. E naquele olhar duro, algo se partiu de vez. A inveja não nasceu ali. Ela apenas encontrou coragem. — Você é sortuda — disse a tia, com um sorriso ensaiado, enquanto segurava Amará no colo. — Nem todas as crianças crescem em um lar assim. A mãe sorriu, sem perceber o veneno escondido naquelas palavras. Amará sentiu algo diferente. Um aperto pequeno, quase imperceptível, como se o corpo infantil reconhecesse o perigo antes da mente. Mas não chorou. Não sabia que aquele abraço era o último. Horas depois, tudo aconteceu rápido demais para ser entendido. Uma conversa baixa. Um tom falso de preocupação. Uma mentira bem contada sobre viagem, cuidado, ajuda. A tia dizia que queria “levar Amará por um tempo”, dar descanso à irmã, ajudar como boa família fazia. O amor confia. E foi esse o erro. Quando a mãe percebeu que algo estava errado, o carro já desaparecia na estrada. O choro ecoou tarde demais. O nome de Amará foi gritado até a voz falhar. Mas o mundo não voltou atrás. Dentro do carro, Amará olhava pela janela, confusa. — Mamãe? — chamou, com a voz pequena. A tia não respondeu. Foi ali, entre o silêncio e a distância, que a infância de Amará terminou. Não com um grito. Não com violência imediata. Mas com a pior das dores, é a separação disfarçada de cuidado. A estrada parecia longa. O já céu escureceu. E quando finalmente pararam, não havia casa com riso. Não havia braços esperando. Não havia luz. Havia uma porta. Uma porta que se fechou atrás dela com um som seco. — A partir de hoje — disse a tia, fria — você precisa aprender uma coisa: ninguém fica por muito tempo. Nem mesmo quem diz que te ama. Amará não entendeu as palavras. Mas o corpo entendeu a ausência. Naquela noite, ela chorou até adormecer no chão duro, abraçando a própria sombra. Não sabia ainda que aquele seria o primeiro de muitos dias iguais. Que o amor tinha sido trocado por inveja. Que a família tinha virado prisão. E que aquele lugar escuro seria seu mundo por muitos anos. Ali nasceu a menina roubada. Ali começou a história de Amará.
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