Angelina
Cinco Anos Antes
Eu odeio festas da família.
Odeio especialmente quando são feitas na minha casa.
Passo os olhos pelo salão abarrotado por bêbados e assassinos e odeio minha vida. Viro a cabeça para trás, olhando meu pai que observa tudo com atenção e escolhe me ignorar, já sabendo o que vou pedir; quero subir para meu quarto, assistir um filme qualquer enquanto me entupo de doces que vão encher minha pele de espinhas mas com certeza vão me dar apoio emocional nessa noite difícil. Se não fosse pouco educado e se meu pai não fosse atentar contra minha vida, sairia do meu lugar agora mesmo para fazer o que quero. Se fossemos normais...
Repuxo os lábios, desgostosa e provo a taça a minha frente, sentindo o gosto forte do suco de uva tomar minha boca. Eu gostaria de provar algo alcoólico, que nublasse minha mente como as pessoas afirmam dizer, que me tirasse um pouco dessa realidade mas não posso, não seria bem visto para uma moça como eu.
Alguns minutos de completo tédio se passam até que meu pai se levanta numa ansiedade que só significa que nosso Don está aqui. Levanto os olhos para a entrada e como suspeitei o homem está passando entre as pessoas que abrem caminho, respeitosas com sua presença ou simplesmente apavoradas; o cara me causa calafrios.
Minha mãe se levanta do outro lado da mesa e eu faço o mesmo, baixando a cabeça quando ele se aproxima, cumprimentando meu pai com uma i********e que até poucos dias não existia. Estão negociando alguma coisa, é a única explicação.
- Enrico! Bom te ver de novo! - Eles parecem se abraçar, animados e eu tento levantar os olhos querendo ver o que suas expressões dizem mas encontro duas pedras de quartzo preto me encarando de volta e gelo, baixando os olhos novamente.
O filho do demônio está aqui, em carne e osso e me olhando de um jeito que não deveria.
Durante encontros com outra meninas da família, ele sempre é assunto: motivo de suspiros e sonhos de alianças entre os pais para que possam se casar com o futuro Don. Eu sempre tive medo; além da beleza, a história de ser um assassino tão frio quanto o pai me chamava mais atenção. Nunca tinha o visto pessoalmente e dar um rosto a histórias era realmente assustador.
- É sempre bom te receber, Verner. - Escuto meu pai dizer. - Angelina, venha aqui.
Meu joelho treme quando eu me endireito, recebendo mais uma vez em meu rosto os olhos do garoto sobre mim junto a um repuxar de lábios da sua parte. Caminho até meu pai, que me abraça de forma exagerada, me puxando pelos ombros com força.
Os dedos do nosso Don se aproximam do meu rosto e eu tenho o reflexo de me afastar, recebendo um apertão de meu pai que me faz travar quando o homem dedilha por meus traços, como se me avaliasse para compra. Reprimo a vontade de arrancar seus dedos com uma mordida quando ele encosta em meus lábios, sentindo a bile presa a minha garganta.
- Ela é realmente bonita Enrico, um achado. - Comenta e eu estreito os olhos para meu pai que tem os olhos em Verner, sinto que está realmente me vendendo. - Filho, venha aqui. O que você acha?
Acompanho o garoto se aproximar, mais sério dessa vez, as mãos enfiadas nos bolsos como se estivesse tímido de repente.
- Bonita, não? - É a voz do meu pai, mas eu continuo com os olhos grudados em Fabrizio, que apenas balança a cabeça positivamente.
Os mais velhos dão risada, animados e eu sou empurrada em direção ao filhote de demônio. Não consigo segurar meus pés e só paro quando bato em seu peito, me afastando rapidamente quando o choque atravessa meu corpo.
- Desculpe. - Não ouso o olhar, com medo da escuridão me pegar.
- Não se preocupe, não foi nada. - Sua voz é grave e polida, diferente do que pensei. - Podemos?- Consigo ver a palma de sua mão virada para mim e subo os olhos, confusa.
- Podemos o quê? - Minha voz é exasperada e agradeço meu pai já estar afastado o suficiente para não ouvir.
- Bem, achei que iriamos...- Ele parece tímido de repente, sem jeito e eu fecho os olhos, apavorada. Fazer o futuro Don ficar sem graça não deve ser bom para saúde. - Acho que o intuito de estarmos aqui é nos conhecermos um pouco. Seu pai não te avisou?
Arregalo os olhos.
- Fui vendida pra você?
- O quê? Não!- Se apressa. - Somos o fruto de uma negociação. Suspeito que querem nos casar.- Diz com tranquilidade enquanto sinto que vou desmaiar.
Ele sorri e enquanto estou morrendo por dentro, toma minha mão e me puxa pelo salão, passando pelas pessoas apressado. Nosso destino é a biblioteca e assim que fecha a porta atrás de nós, ele me olha parecendo perdido de novo. Ao mesmo tempo que parece ser um poço de confiança, vira um garotinho assustado e tímido.
- Então... Qual de nós vai fugir? - Faço graça, velando a verdade. Posso muito bem sumir, não iria me importar.
Ele abre um sorriso grande e bonito e eu consigo entender o que as meninas falam sobre ele. Fabrizio Martinelli é estupidamente lindo.
De forma confortável, ele se senta no sofá de couro e me convida, como se não fosse minha casa. Caminho até lá e quando me sento, ele surge com duas taças de um líquido borbulhante e eu o encaro, negando com um aceno.
- Pode beber, não conto pra ninguém. - Murmura como se não fosse apenas nós dois na sala, como se fosse um segredo nosso e meio receosa, pego a taça e levo aos lábios. As bolhas fazem cocegas em minha língua. - Em vez de fugir, pensei que poderíamos nos conhecer um pouco. Meu pai disse que se você for muito chata, cancela tudo. Não acho que seja o caso mas posso mentir se você quiser, não vou te prender a mim.
Tombo a cabeça, com dificuldade em acreditar em suas palavras tão facilmente.
- E o que acontece comigo e meu pai? - Provei de novo o espumante e o devolvi, vendo-o se virar e por a taça perto de uma garrafa que ainda não tinha notado estar ali.
- Seu pai perde um bom dinheiro, assim como o meu e você fica com a fama de ser chata e talvez não se case nunca mais. - Dá de ombros, e eu não consigo segurar o sorriso. - Você pode negar quando quiser, mas espero que me dê uma chance.
Baixo a cabeça, tímida passando uma mecha de cabelo para trás da orelha.
- E o que você ganha com isso?
- Quero passar o resto da vida com alguém que queira ficar comigo.
A resposta certeira me pega de surpresa e eu o encaro por alguns segundos. Não parece ser uma pessoa r**m, só parece ser uma pessoa... Querendo amor?
Como se demônios se alimentassem disso...
- Desejaria sorte a você, mas acho que você vai encontrar isso muito facilmente. Conheço mais de quinze garotas que fariam tudo por você.
- Você está interessada em não fazer tudo, mas ser tudo... pra.. mim? - Acho que ele percebe a frase que diz e fica tímido, um clichê ambulante sem nem perceber.
- Posso tentar. - As palavras pulam de minha boca e eu pisco repetidas vezes, desejando sumir quando ele se aproxima devagar. A tensão se instalando a medida em que fica mais perto. Desejo que minha racionalidade volte para que eu possa me afastar, mas me sinto meio hipnotizada, congelada esperando o seu próximo passo.
Nem quando ele pareceu perder um pouco a postura, levando as mãos aos dois lados da minha cabeça e chocando nossas bocas furiosamente, eu sinto vontade de fugir.
Não demorei a abrir os lábios, lhe dando passagem para realmente encaixar nossas bocas e acariciar sua língua com a minha. Ambos suspiramos no primeiro contato e minhas mãos agarraram seus antebraços com força, para não o deixar sair dali, era gostoso demais. Odiei gostar tanto quando seus dentes prenderam meu lábio inferior, puxando levemente e me deixando meio fora de mim.
Suas mãos, até então paradas começaram a se mover: deslizou uma até segurar minha cabeça pela raiz dos cabelos de minha nuca e desceu a outra sem delicadeza nenhuma para primeiro enlaçar minha cintura e me puxar mais para perto de si, e depois iniciar um caminho perigoso da lateral do meu quadril até logo abaixo dos meus sei.os, e retornando. Não me contive em enlaçar seu pescoço com os braços e quando o senti me puxar, soube que iria o montar e me afastei, puxando o ar com força para meus pulmões.
- Desculpe. - Grasnou exasperado, levando as mãos até os cabelos escuros e os jogando para trás. - Não quis te...
- Tudo bem, eu também me empolguei. - O interrompi antes que continuasse e estragasse tudo. - Foi meu primeiro beijo, eu... - Meu rosto pega fogo e recebo seu olhar curioso.
Como eu, Fabrizio cora e odeio o sentimento que toma meu corpo.
- Foi meu primeiro também. - Disse com sinceridade e eu senti o rosto arder mais ainda.
Eu estava ferrada, percebi.
Se encostando no sofá, Fabrizio Martinelli sorriu e eu me senti afundar... como pode o demônio estar te empurrando para alguém que se parece muito com um anjo quando sorri para você?
Senti meu equilíbrio ir embora, ele brilhava demais.
E pelo jeito que meu coração bate dentro do peito, percebo o quão ferrada estou.