001
Fabrizio
Dezessete Anos Antes
Meus dentes estavam trincados, segurando a ira que ameaçava explodir se eu ousasse me mover um centímetro. Se minha mão deixasse o aperto dos próprios dedos e socasse a cara do desgraçado que espancava minha cara enquanto os outros riam à nossa volta. Meu pai virou o punho mais uma vez em meu rosto e eu pude sentir mais alguns dentes quebrarem em minha boca, e então se afastou, girando a própria mão como se estivesse doendo. As gargalhadas mais uma vez se espalharam ao nosso redor. Era um circo e eu estava sendo a atração principal. Foi a última coisa que vi antes de me curvar e vomitar os restos do jantar junto a um punhado de sangue sobre mim mesmo.
— Eu não acredito que fiz um filho um fraco! — Pude ouvir de forma distante. Eu iria desmaiar e eles me matariam se isso acontecesse. Era assim que se iniciava um novo homem na família, geralmente aos 15 anos mas meu pai fez questão de me iniciar mais cedo. Eu era seu filho e deveria suportar.
Ontem lembro de adormecer feliz pelo primeiro dia tranquilo em meses, meu aniversário de 13 anos. Repassando em minha mente, lembro de ter feito uma piada estúpida de já ser um homem e no meio da madrugada, me senti ser pego da cama. Esse foi meu erro, já sendo um homem, significa que Verner pode acabar comigo.
Tiro força de algum lugar que desconheço e levanto o rosto, cuspindo a bola de sangue em minha boca no chão ao lado da cadeira que me prenderam. Meu pai sorri de maneira c***l e me soca mais uma vez, sinto meu maxilar meio frouxo e as lágrimas molharem meu rosto, mas me mantenho firme. Minha mãe ainda precisa de mim e não posso vacilar agora, sou filho do Don, tenho que ser forte. Minha mãe precisa de mim.
A medida em que a sala se esvazia, eu me deixo tombar a cabeça para trás, tentando puxar o ar com força. Não sinto nada, tudo lateja como se fosse superficial, mas sei que não é. Vai doer pela manhã, feito um inferno.
Não sei quanto tempo se passa, não escuto ou vejo qualquer coisa por debaixo da porta e parece um pesadelo sem fim. Quando escuto algo, depois de muito tempo, é a porta se abrindo de repente e estou degastado demais para lutar.
Não morra. Não morra. Não morra.
Eles me pegam pelos braços e me arrastam pelo corredor no lado de fora, o qual não me lembro de passar. Meus dedos dos pés parecem pegar fogo a medida que deslizam pelo chão, raspando a pele até que comece a sangrar, deixando um rastro vermelho feito de mim. Quando param, arrancam minhas roupas com pressa e só assimilo o que está acontecendo quando me jogam numa banheira de água quente, cheia de sal. Eu sinto com força cada machucado e cada hematoma, cada chute e soco , cada corte que deixaram em meu corpo.
O grito me escapa. Eu chamo minha mãe. Choro por seu nome e só escuto risadas.
Depois de algum tempo, eles me levam para um quarto e sobre o colchão duro, agonizo pela noite. De manhã, mais uma sessão de espancamento. Tenho a tarde "livre" e quando à noite chega, me levam até um banheiro onde posso tomar um banho descente.
Sou levado a um bordel depois disso.
Mulheres andam nuas por todo o lugar e eu sinto pena de cada uma que é apalpada pelas mãos imundas do meu pai.
Acho que ele se orgulha de eu ter aguentado o suficiente para não virar um saco de m***a na primeira parte do processo:
— Eu gostaria de me divertir. — Ele berra, meio bêbado enquanto ri. — Temos sempre boas putas para isso, mas hoje não é meu dia. — Me olhando, ele levanta seu copo no ar e sorri. — Hoje meu filho vai deixar de ser um virgem de m***a!
E mais gritos ao meu redor enquanto me sinto meio mortificado.
Tento esconder meu choque e medo até o momento em que sou empurrado para dentro de um quarto onde uma mulher, melhor dizendo uma garota me sorri, mordendo os lábios. Ela deve ter pouco mais de dezoito anos e me sinto acuado quando ela se levanta, caminhando até mim. Eu não quero, não acho certo e não estou pronto mas essa garota vai contar a meu pai e ele vai mesmo f***r meu r**o se eu não f***r ela. Crispo os lábios, franzindo o cenho me preparando para quando ela já está próxima o suficiente de mim para me beijar.
Também meu primeiro beijo.
Não consigo fechar os olhos quando ela roça o nariz no meu, quando sua respiração se mistura a minha de um jeito que eu odeio e quando eu acho que essa tortura vai continuar, ela se afasta, um sorriso sapeca na boca.
— Oi Fabrizio.— O tom sedutor se assemelha ao que imaginei.
— Oi put... — Mordo a língua, me sentindo estúpido.— Desculpe foi sem querer, não sei seu nome, mas você sabe o meu. Qual seu nome, senhorita? Como sabe o meu?
— Ághata. — Sorri mordendo os lábios.— Meu nome é Ághata. E todo mundo sabe quem é você, quem você será. — levanta as sobrancelhas de maneira sugestiva e eu quero sumir.
— Me sinto um pedaço de carne. — Murmuro e vejo o sorriso se ampliar em seu rosto.
— Ah, você se sente, é?
Me sinto mais i****a ainda. Ela definitivamente deve se sentir assim mais vezes que eu.
— Desculpe. Vamos terminar com isso? — Pergunto afobado, ansioso para voltar para casa de uma vez, para esquecer esse pesadelo.
Dessa vez eu escuto sua risada e me pergunto o que fiz de errado.
— Eu não fodo garotos. — Põe as mãos na cintura e me olha sério. Me sinto prestes a passar m*l, o ar começa a escapar. Meu pai vai me m***r. Sinto a mão de Ághata em meu ombro, um toque suave e tranquilizador enquanto eu a olho, implorando para começar a f***r garotos. f***r comigo. — Não fique assim, não vou contar para Verner.
A confusão me toma junto ao desespero e eu começo a hiperventilar.
— Não vai contar pro meu pai?
Em vez de um dos sorrisos sensuais, Ághata é gentil dessa vez.
— Sua mãe me pediu para proteger você.
Me sinto tonto.
— Sério?
— Eu vou dizer que você foi o máximo, que eu adorei mas você pode esperar até quando estiver preparado. Tem que ser com uma moça que você goste. — Aconselha baixo, ainda acariciando meu ombro com cuidado. A abraço agradecido, aliviado. Sinto seus braços em volta de mim e choro, sentindo através dela o cuidado de minha mãe.
Ela liga tv quando nos sentamos na cama, me dando um pacote de balas.
Antes de sair do quarto, pouco depois de meia hora, me molho no banheiro para parecer um pouco suado e do lado de fora sou parabenizado.
— Uma última parada. — Meu pai começa, já dentro do carro e a sensação r**m me toma. Engulo em seco, sem saber o que esperar. Nos afastamos da cidade por uma estrada de terra até um galpão no fim do mundo.
Puxando o ar gelado quando desço do carro quente, olho em volta com curiosidade. Não demoro a ser empurrado para dentro e ainda com as luzes apagadas, me passam uma pistola. Destravo a arma, achando divertido o presente mas só até as luzes serem acesas.
No meio do galpão, amordaçada em cima de uma lona preta, Ághata me olha alarmada. Arregalo os olhos, me virado com receio para meu pai que parece se deleitar com a situação num canto perto da parede.
— O que foi garoto? Não me olhe feito um cachorro. — Repreende, acenando com a cabeça em direção a garota.— Esse é seu último teste, mate ela.
Não n**o. Não tenho coragem para o contrariar. Minhas mãos tremem a medida em que me aproximo, o olhar alarmado da garota que me salvou mais cedo.
— Desculpa... — Sussurro rouco, as lágrimas ardendo meus olhos e o bolo apertando minha garganta.
Escuto o soluço de Ághata, em seu pedido de misericórdia. Mas eu não posso, e começo a tremer demais enquanto choro, levantando a arma a altura de seu rosto.
— Desculpe. — Pela quinta vez no dia, a palavra deixa minha boca, dessa vez é cheia de remorso.
Vejo seus olhos se apagarem quando aperto o gatilho. Me sinto meio morto também. Me sinto parecido demais com Verner e começo a me sentir terrível, um tanto menos humano.
Quando me deito para dormir, é a primeira vez que tenho pesadelos com os olhos inocentes se apagando.