Dois Meses Antes

1064 Words
Clara acordou antes do despertador. O que já era irritante por si só. O quarto ainda estava meio-escuro, tingido por uma faixa de luz alaranjada que escapava pela fresta da cortina fina. Ela ficou alguns segundos olhando para o teto manchado, contando as rachaduras como se fossem constelações m*l desenhadas. O ventilador de teto girava devagar, fazendo aquele barulho irregular, quase um chiado cansado — como se também não tivesse certeza se queria continuar funcionando. Ela suspirou. Outro dia começando antes de ela estar pronta. O apartamento era pequeno. Não “aconchegante”. Pequeno mesmo. Um cômodo servia de sala e quarto. A cozinha era praticamente um corredor com pia. Uma mesa de segunda mão encostada na parede, duas cadeiras diferentes que nem combinavam entre si, uma estante com livros de Direito amontoados ao lado de uma planta quase morta. Mas era o dela. Temporário, claro. Tudo na vida dela parecia temporário ultimamente. Clara empurrou a coberta para o lado e sentiu o chão frio nos pés. Levantou, quase tropeçou no próprio tênis largado no meio do caminho e abafou um xingamento. O despertador tocou justo naquele momento — atrasado pra própria função — e ela o desligou com um t**a. Foi direto para a cafeteira. Café forte. Sem açúcar. Um hábito que ela tinha adquirido tentando parecer mais adulta do que se sentia. Enquanto a água começava a ferver, o cheiro de café espalhou-se pelo ambiente, misturando-se ao odor leve de tinta velha e ao perfume barato que ela tinha borrifado na noite anterior na jaqueta pendurada na cadeira. Enquanto o café passava, Clara abriu o notebook na mesa que também servia de escrivaninha, mesa de jantar e apoio emocional. A tela iluminou o rosto dela com um brilho azulado. Várias abas abertas. Plataformas de emprego. Currículos enviados. Processos seletivos, sites de escritórios de advocacia que ela conhecia bem demais — pelos comentários do pai, pelas manchetes, pelas histórias sussurradas nos jantares de família. E evitava. Ela fechou um deles rápido. Quase com culpa. Como se o próprio site pudesse contar para o pai dela que ela tinha cogitado aquilo. O celular vibrou, tremendo sobre a mesa, fazendo um barulhinho seco contra a madeira. Mãe. O horário no visor parecia cedo demais para qualquer conversa sobre “futuro” ou “o que você decidiu da sua vida, Clara?”. Ela deixou tocar uma vez. Duas. Atendeu na terceira, porque sabia que, se não atendesse, viria uma sequência de mensagens preocupadas. — Oi. — Já acordou cedo de novo — a voz da mãe veio do outro lado, firme, um pouco rouca, atenta demais. — Dormiu m*l? Clara apoiou o quadril na pia, segurando a caneca ainda vazia com uma mão. — Normal — respondeu. — Nada novo no front. Ela ouviu um barulho de louça do outro lado da linha, como se a mãe estivesse arrumando a cozinha enquanto falava. Imaginou a mesma mesa de sempre, no mesmo apartamento de sempre, com a mesma toalha que já devia estar desbotada. Houve um pequeno silêncio. Clara conhecia aquele silêncio. Era o silêncio de quem escolhia as palavras com cuidado para não pisar em terreno minado — e, ao mesmo tempo, insistia em andar exatamente por ali. — Seu pai comentou sobre você ontem. Claro que comentou. Clara afastou um pouco o celular da orelha, como se isso pudesse amortecer o impacto. — Comentou o quê? — ela perguntou, já sabendo que não gostaria da resposta. — Que o escritório dele abriu uma vaga excelente para trainee. — A mãe fez uma pausa estratégica, daquelas que ela usava quando queria que Clara “pensasse com calma”. — Seria uma oportunidade incrível para você, Clara. Ela quase conseguia ver a cena: o pai sentado à mesa, jornal ao lado, xícara de café preto, falando “vaga excelente” como quem oferece um prêmio, não uma coleira. — Mãe… a gente já conversou sobre isso. — Conversou, sim. — A mãe suspirou, mas a firmeza continuava ali. — Mas isso não muda o fato de que o doutor Valença— — De que eu não quero entrar pela porta errada. A frase saiu mais firme do que ela planejava. Ecoou no pequeno apartamento, grande demais para o espaço. Do outro lado, o silêncio agora era outro. Mais denso. Menos cuidadoso. — Você acha que seria errado trabalhar com o próprio pai? Clara olhou para a mesa cheia de papéis, para os currículos abertos, para a conta de luz dobrada embaixo do notebook. — Eu acho que seria fácil — respondeu. — E eu não confio em coisas fáceis demais. Principalmente quando vêm assinadas com o sobrenome Valença. — Você não precisa provar nada pra ninguém, Clara. — Preciso pra mim. A ligação terminou sem briga. Mas também sem acordo. Clara colocou o celular sobre a mesa, ao lado da xícara vazia, e bebeu o café em goles rápidos, sentindo o amargo raspar a garganta e acordar coisas que ela preferia manter adormecidas. Vestiu a primeira roupa que parecia minimamente profissional: calça escura, camisa clara, blazer simples que já começava a desgastar nos cotovelos. Prendeu o cabelo num r**o de cavalo apressado, passou um pouco de corretivo para disfarçar as olheiras e um batom quase da cor da boca — o suficiente para parecer que tinha tentado. Pegou a bolsa, conferiu pela terceira vez se o pen drive e os documentos estavam lá, e saiu. O corredor do prédio cheirava a desinfetante barato. Lá fora, o ar da manhã estava úmido, pesado, prenúncio de chuva. O céu era de um cinza preguiçoso, e o vento frio deixou um arrepio subir pelos braços descobertos até ela lembrar de fechar o blazer. O metrô estava cheio. Sempre estava. Gente espremida, mochilas, ternos amassados, fones de ouvido, olhares vazios. Pessoas indo para lugares que pareciam ter mais certeza do que ela. Clara segurou-se na barra de metal e, com a outra mão, desbloqueou o celular. No trajeto, leu novamente o e-mail. Blackwood & Associates Processo seletivo – Estágio Fechou o celular. — Só mais uma tentativa — murmurou. Naquele momento, Clara ainda não sabia que aquele “só mais uma” era exatamente o tipo de frase que muda tudo. Nem que, dois meses depois, estaria ajoelhada no mármore brilhante do 40º andar, juntando papéis aos pés do homem por trás daquele logo — Arthur Blackwood.
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