CAPÍTULO 1 — O PRESENTE: O ENCONTRO NO 40º ANDAR

951 Words
O salto de Clara escorregou. Não foi uma queda, mas uma quase-queda. Humilhante. Em câmera lenta. No piso liso de mármore polido do 40º andar, a alça da pasta escorregou do ombro. O couro bateu no chão com um estalo seco. O som ecoou. Silencioso demais para uma segunda-feira de manhã. A pasta abriu. Papéis. Muitos. Folhas brancas se espalharam como confete caro. Refletiam a luz fria dos painéis de LED. — Não… não… não… — Clara murmurou, abaixando-se. O tailleur preto puxava. A camisa branca colava na pele. Nervoso e ar-condicionado gelado não combinavam. Uma folha deslizou mais longe. Empurrada por uma corrente de ar. Vinha do fim do corredor, perto das janelas. Lá fora, a cidade cinza. Chuva ameaçava, pesando sobre os prédios. A folha parou aos pés de um homem. Sapato social preto. Impecavelmente lustrado. Couro caro. Calça de alfaiataria. Perfeitamente ajustada. Sem uma dobra fora do lugar. Clara avançou de joelhos. Esticou a mão. Outra mão fez o mesmo. Os dedos quase se tocaram. A mão dele era firme. Pele clara. Contrastava com o relógio de pulseira de couro escuro. Discreto. Caro. O tipo que não precisa se exibir. Clara ergueu o rosto. E sentiu o silêncio. Não a ausência de som. Mas a presença. O ar ficou denso. Mesmo com o zumbido distante das impressoras. O tilintar de um elevador. O murmúrio abafado de vozes. Ele estava ali. Parado. Observando. Não com curiosidade. Com atenção. O terno cinza-escuro. Cortado com precisão. Ombros marcados. Gravata azul-marinho. Cabelo escuro, penteado para trás. Sem um fio fora do lugar. Perfume amadeirado. Suave. Impossível de ignorar. Não era bonito. Era… intenso. Postura reta. Ombros firmes. Olhar que não perguntava. Apenas avaliava. Os olhos castanhos, quase pretos. Clara teve a súbita sensação de estar diante de alguém acostumado a ganhar discussões antes mesmo de abrir a boca. — A senhorita costuma transformar corredores em zonas de desastre? — ele perguntou. A voz era baixa. Controlada. Sem pressa. Sem ironia. Sem gentileza. Cada palavra medida. Nada nele era acidental. Clara sentiu o rosto esquentar. O ar gelado do ar-condicionado sumira. — Normalmente eu tento escolher lugares menos públicos pra passar vergonha — ela respondeu, tentando soar leve. Puxava os papéis para o colo. — Mas hoje claramente não foi meu dia. Um fio de cabelo escapou do coque improvisado. Caiu sobre o rosto. Ela empurrou para trás. O elástico frouxo ameaçava desistir. Ele não sorriu. Mas também não desviou o olhar. — Você trabalha aqui? A pergunta veio simples. O tom não era de curiosidade. Era de checagem. Como se ela fosse uma informação a ser classificada. — Tecnicamente? Sim. — Ela ajeitou a pasta. Empilhava os papéis amassados. — Emocionalmente? Ainda estou negociando comigo mesma. Um canto da boca dele hesitou. Um quase-sorriso. Imediatamente vetado. Por um segundo, ela achou que ele ia rir. Não riu. — Nome. A forma não era rude. Era objetiva. Como se o nome fosse um dado. Não uma pessoa. Acostumado a respostas imediatas. Clara sentiu o estômago apertar. Aquele era um prédio enorme. Cheio de advogados. Conheciam o sobrenome Valença. De um jeito que ela preferia evitar. — Clara. Clara Mendes. — Disse rápido. Fechando uma porta antes de pensar no que estava do lado de fora. Ele a observou. Mais do que o necessário. Os olhos passaram do rosto dela para a pasta. Depois para o crachá. O logo do escritório brilhava em dourado discreto. Ele assentiu. Levemente. — Arthur Blackwood. O nome caiu no ar. Diferente. Mais pesado. Como se o próprio corredor tivesse reconhecido. As paredes de vidro. As placas metálicas. O mármore. Acostumados àquele sobrenome. Clara engoliu em seco. Claro que era. O homem do 40º andar. O homem que o pai dela odiava. Nas entrelinhas de cada comentário sobre “ética” e “advogados que se vendem”. — A partir de hoje, você responde diretamente a mim. Não foi proposta. Nem ordem. Soou como algo decidido. Antes mesmo dela entrar naquele corredor. Antes de escolher aquela roupa. Antes de apertar o botão do elevador. — Eu tenho opção de fingir desmaio? — ela tentou. Ajeitou-se de pé. A pasta apertada contra o peito. Tentava esconder o tremor dos dedos. Ele inclinou a cabeça. Analisando algo nela que ela não conseguia nomear. — Não. Só isso. Não. A palavra suspensa no ar. Cortando qualquer piada. Qualquer chance de fuga. Os olhos dele nela. Meio segundo a mais. Tempo suficiente para ela perceber. Aquele não era apenas um chefe. Era alguém acostumado a ser o centro de gravidade. E, ainda assim, algo dentro dela — bem fundo, bem errado — respondeu a essa força. — Espero eficiência, senhorita Mendes. “Eficiência” soou menos como expectativa. Mais como padrão mínimo de sobrevivência. Naquele andar. Ela assentiu. Rápido demais. — Eu também. — A voz saiu mais aguda. — Principalmente de mim mesma. Ele deu um último olhar para o corredor. Para as folhas esquecidas. Como se fotografasse o caos. Afastou-se. Passos firmes. O som seco dos sapatos marcando o ritmo no mármore. Clara só percebeu que prendia a respiração quando ele virou o corredor. Sumiu da vista. O silêncio voltou a ser apenas silêncio. O zumbido dos computadores. O ar-condicionado. O clique distante de um salto. Ela soltou o ar. Devagar. Os ombros cederam. Ficou ali. Com os papéis apertados. Com a cidade cinza. Os prédios altos. O céu pesado. O coração errado no peito. Sem saber explicar por quê… Mas com a sensação incômoda de que algo importante tinha acabado de começar. Naquele corredor brilhante. Sob aquelas luzes frias. Diante daquele homem que carregava no sobrenome tudo o que a família dela tentou enterrar. FIM DO CAPÍTULO 1
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