18:01PM
Pontualidade era seu nome do meio, por isso deu um sorrisinho ao olhar para o relógio digital que acendeu com o horário assim como os olhos do alfa se acenderam ao voltar com os olhos para o estabelecimento.
Como no cair da tarde normalmente era o horário em que as pessoas estavam saindo do trabalho, o fluxo de clientela estava bem maior do que o do almoço e isso o fez murchar um pouco pensando que talvez Lia nem mesmo teria tempo de o olhar.
"Ela troca de turno agora, mas por que ainda não a vi sair?"
Se questionou brevemente vendo mais alguns minutos passarem e nada de vê-la sair.
- Já não era para ele ter chegado?
Lia roía a unha do dedo mindinho enquanto Johnny pegava a nova fornada de biscoitos da mão de Minnie que passava os mesmos pela janelinha de serviço.
- Que horas são?
O beta questionou pigarreando pela garganta seca e colocando os biscoitos na vitrine antes de bebericar sua água.
O clima frio tinha isso de r**m, ressecava tudo e todos, mas o único que não parecia nem um pouco afetado com o clima era sua amiga loira que parecia estar dentro de um forno.
- 18:04, não acha estranho essa demora?
Batia os pés no chão mordendo o lábio inferior com a pontinha do dente.
Ela não queria parecer paranóica nem nada, mas e se tivesse acontecido alguma coisa?
E se ele não a quisesse? E se ele desistir? E se ele não vier? O que Lia faria?
- Ah, faça me o favor, Liandra!
Reclamou o beta voltando a trabalhar não dando mais importância ao nervosismo da melhor amiga que choramingou.
- É quinze minutos a tolerância, Lia. Não viaja!
Johnny se apressou para entregar os pedidos restantes daquela fila para só então começar a anotar os das mesas.
- Não na Austrália.
Resmungou ela vendo seu amigo dar uma gargalhada e suspender uma de suas sobrancelhas.
- Não seja mentiroso, isso é regra em qualquer lugar!
Apontou o moreno já pronto para ignorar toda e qualquer palavra que ela dissesse depois disso. Ele sabia que sua amiga era extremamente ansioso e que não pararia de criar paranóias até que o alfa chegasse.
- Beleza, eu entro, se ela não estiver lá eu só compro uma água e volto!
Planejou cuidadosamente o moreno de frente para a faixa de pedestres.
Quem estivesse passando na rua, acharia que ele era um lunático falando e gesticulando sozinho, mas só ele sabia o quão nervoso ele estava.
Se aquecia como se fosse começar uma maratona, alongava seus braços e tentava relaxar seus ombros girando os mesmos para frente e para trás.
- Aí cara, não vai atravessar não?!
Um alfa meio irritado gritou de dentro de um carro e outras buzinas foram ouvidas logo em seguida. Aparentemente vários carros já estavam alí esperando ele atravessar fazia algum tempo.
O pobre e nervoso alfa não teve outra escolha. Se desculpou e atravessou a rua correndo e dando de cara com a bendita cafeteria.
Respirou fundo, contou até três e empurrou a porta que dizia puxe.
Quis se jogar de um precipício ao ver uma menininha rindo dele enquanto tomava sorvete.
- Definitivamente hoje não é meu dia.
Ele comentou bem humorado com a menina que ainda ria um pouco enquanto abria a porta do jeito certo desta vez e entrava no estabelecimento que estava perto de sua capacidade máxima.
Quase todas as mesas estavam ocupadas e a fila dos pedidos para viagem estava mediana. Aquela visão o fez suspirar e secar o suor sob seus óculos.
Mas aquele cheiro de mais cedo se manifestou novamente em suas narinas e isso o fez sorrir pequeno sabendo que sua ômega estava por alí em algum lugar.
Isso mesmo, sua ômega.
Ele não sabia ainda, mas seu lobo não o deixaria nem mesmo se alimentar direito se ele não conquistasse Lia ou ao menos um sorriso não retirasse daquele lindo rosto.
Não que isso no momento fosse tão difícil assim, já que a garota cairia em seus encantos em um estalar de dedos e vice e versa.
De longe Lia, que limpava a bancada consternada, ergueu seus olhos rapidamente procurando por todo o salão pelo dono daquele aroma forte de canela que já se espalhava por alí.
Quase deu um saltinho de felicidade quando encontrou o alfa de blusa vermelha parado na frente da porta com um sorrisinho pequeno. Também viu quando aquele mesmo alfa respirou fundo fazendo seu peito marcado pela blusa fina subir e descer.
Qualquer um que pudesse ver Lia naquele momento perceberia o quão hipnotizada ela estava pela exuberância que era o alfa.
Sentiu os cantinhos de seus lábios subirem em um sorriso contido que não foi muito bem disfarçado pelas ruguinhas acima de suas bochechas lotadas de sardas e brilhantes pelo iluminador.
"Ele veio mesmo..."
Pensou admirada quase se mordendo por sentir seu lobo saltitar de alegria com a presença do moreno alí.
"Se controle! Parece que nunca viu um alfa, que horror."
Disse a si mesma se sentindo quase que uma devassa por estar tendo tantas reações ao moreno, quando este mesmo nem parecia tão afetado assim.
E prendendo novamente seu lábio em seus incisivos tentando se manter na pose de "aguardando pacientemente até você vir a mim" ela pensou em ir até Ethan algumas vezes.
- Vai logo, Lia!
A voz de seu amigo seguida de um empurrão foi o que o impulsionou a sair de trás do balcão, quase que em pânico, e andar em passos vagarosos em direção ao moreno que mexeu no celular que estava preso no suporte do ombro para parar a música que ouvia.
"Logo hoje essa merda resolve não funcionar!"
Pensou Ethan tentando clicar na tela do celular e não conseguindo, então quando fora retirar os airpods dos ouvidos e apenas guardá-los no bolso, alguém esbarrou nele fazendo os aparelhinhos cairem no chão e um pouco do café do garoto cair no tênis que custou dois salários do alfa.
- Ah, me desculpa, moço!
Era uma ômega baixinha, cabelos meio tingidos de rosa e com um cheiro muito parecido com o da ex de Ethan, algo que fez o alfa encarar a garota com estranheza, mas mesmo assim sorriu simpático sinalizando que estava tudo bem.
Se abaixou ao mesmo tempo que ela também o fez, ambos procuraram até encontrar os fones, cada um acabando por achar um lado e se levantaram rindo amigavelmente.
- Me desculpa mesmo, eu posso tentar compensar pagando o seu café!
Ela sugeriu estendendo a mão para devolver um dos airpods vendo o moreno hesitar e pigarrear sem graça, era nítido que Ethan aceitaria apenas por gentileza.
- Uh, eu...-
Com a mão no caminho de receber o fone e suas palavras no caminho de aceitarem o que a garota dizia, o moreno m*l se deu conta do que havia acontecido quando uma mão foi mais rápida que a dele recebendo o fone e depositando na mão dele.
Assim como também teve seu quadril abraçado por alguém cuja somente a presença fez seu corpo inteiro se arrepiar e sua boca secar.
- Ele agradece, mas não pode aceitar. Está em uma dieta restritiva de cafeína.
Diferentemente do tom gentil que usara com Ethan mais cedo, aquele tom de voz que a loira estava usando era bem hostil e não parecia uma boa ideia discordar dela.
Mas na verdade o alfa nem queria discordar, ele estava, no momento, encantado com a forma que aquela ômega só ficava cada vez mais linda. Agora sem maquiagem, ela parecia uma obra de arte, uma beleza que com certeza o faria se despedaçar em admiração a qualquer momento.
Nem mesmo se deu conta que a ômega, fazendo jus a sua casta, já estava marcando seu território visivelmente alí.
Coisa que fez Johnny - o telespectador - vibrar de trás do balcão.
- Em uma cafeteria? O que ele viria comer em uma cafeteria que não tenha café?
Aquela garota de cabelos cor de rosa estava claramente testando Lia, testando sua paciência.
Mas a pergunta fez ela sorrir e brincar com uma das orelhas de Ethan que ainda estava em transe sob o abraço.
- O horário já permite que eu diga?
Lia alfinetou sorrindo ácida e olhando para Ethan que sentia que a qualquer momento seria capaz de atacar a boca atrevida daquela garota alí mesmo.
Era como se Lia Forrest tivesse sido feito exatamente para Ethan Wood.
Suas personalidades se encaixavam de maneira única, assim como seus sobrenomes. Coisa que fazia o lobo de Ethan querer explodir de tanta felicidade.
O alfa sorriu amplamente sentindo que seu corpo seria evaporado de tanto calor e euforia e abaixou um pouco o rosto para murmurar sua resposta à outra garota:
- Uma ômega com cheiro de café.
Respondeu Ethan com o rosto queimando em vergonha, mas ao mesmo tempo amando aquela sensação que seu corpo estava envolto.
Imaginou por um momento se alí no lugar de Lia fosse Vivian. Ele certamente não diria a mesma coisa e teria ficando deveras chateado pela intromissão alheia em seus assuntos.
Mas aquela não era Vivian, aquela era Lia, a ômega que cheirava a café.
Depois de ver a outra ômega de cabelos cor de rosa sair batendo os pés irritadiça, os dois se afastaram como os dois desconhecidos que eles realmente eram.
Contudo, Lia se sentiu um pouco m*l por ter agido daquela maneira sem pensar muito. E se Ethan achasse aquilo estranho e resolvesse se afastar?
Mas, contrariando suas expectativas, mesmo com aquele meio metro de distância entre os dois, o clima em nenhum momento se tornou pesado ou algo do tipo, já que os dois ainda sorriam travessos como se tivessem acabado de ganhar na loteria.
- Eu não deveria ter me intrometido... foi estranho, né?
Lia foi a primeira a tomar coragem de falar alguma coisa enquanto localizava alguma mesa ao canto vazia para levar Ethan para longe da concentração de clientes.
Não era como se eles tivessem combinado de se encontrar nem nada do tipo, mas era como um senso comum imediato e silencioso.
Nenhum dos dois precisava dizer nada, ambos queriam permanecer naquele lugar curtindo a companhia nova e inusitada um do outro.
- Você me fez um favor. Disse tudo o que eu queria dizer, só que com mais...
Deixou suas palavras morrerem ao não achar definições suficientes naquele seu cérebro que perdia 50% da sua capacidade cognitiva ao ficar frente a frente com o Lee.
Isso fez o mais novo sorrir identificando uma coisinha nova no moreno, sua timidez repentina e fofa.
- ...ousadia?
Sugeriu Felix agora passando pelo alfa e o encaminhando indiretamente para a mesa mais afastada que achou. Afastada até mesmo dos olhos curiosos de Jisung.
Changbin o seguiu sem pestanejar, seguiria aquele ômega até um precipício se tão preso que estava com o corpo em sua aura.
- É, ousadia define bem.
Riu o moreno envergonhado se sentando frente a frente acom o australiano e admirando a maneira que Felix era capaz de o fazer se sentir pertencente a algo com pouquíssimas coisas.
Os dois eram os únicos alí pegando fogo de calor, sorrindo como dois lunáticos felizes e de bochechas avermelhadas pela vergonha.
Se sentiam como dois adolescentes idiotas e envergonhados.
Até sabiam que grande parte de tudo o que estava ocorrendo poderia ser da necessidade de ter alguém perto do período do cio, mas aquilo estava forte demais, latente demais, não era possível que fosse somente por isso.
- Sinto muito pelo seu tênis, parecia ser caro.
O loiro, ao ver que o moreno não era tão bom assim de quebrar o gelo, apontou para o tênis de corrida preto de Changbin que possuía uma grande mancha de café no tecido que - mesmo sendo escuro - havia ficado marcado.
O alfa pressionou os lábios um já um pouco conformado sobre aquilo.
Se o preço de ter Felix era um tênis de dois salários dele, então ele pagaria. Na verdade, até um pouco mais se fosse necessário.
- Não faz m*l, foi por uma boa causa.
Ajeitando o óculos que escorregava em seu nariz, o alfa se sentiu muito bobo ao dizer aquilo, mas não resistiu a tentação acabando por ser clichê demais.
Estava preocupado com os pensamentos do loiro em relação a isso, mas se confortou ao ver o sorriso envergonhado do mesmo em resposta.
Ele havia gostado.
- Espero que não tenha sido caro.
O loiro pontuou mexendo em seus próprios dedos mudando a posição de seus anéis, algo que chamou a atenção de Changbin para algo que ele nem tinha se tocado.
E se Felix já estivesse comprometido?
Não ficou pensando muito sobre isso, apenas decidiu continuar a conversa e optou por deixar que aparecesse o momento certo para perguntar ao rapaz sobre aquilo.
- Oh, não. Não foi, não se preocupe!
Mentiu descaradamente com um sorriso amigável. Ele não queria que Felix se sentisse culpado por um acidente que não fora ele que causou.
O ômega, por sua vez, sabia bem que aquele tênis - daquela marca em específico - certamente não foi nada barato, e capitando logo de cara as intenções do alfa ele inibiu o próprio sorriso.
"Você é muito fofo, Binnie."
Quis dizer, mas se contentou com um simples "tudo bem, então."
- Aliás, meu nome é Seo Changbin.
O alfa aproveitou o momento para se apresentar mais apropriadamente vendo o loiro rir percebendo que até agora não tinham dito seus nomes (mesmo que já os soubessem por causa de seus amigos fofoqueiros).
- Lia
Disse animadamente vendo o moreno olhar para o cardápio na mesa procurando algo específico.
- É um nome bonito...
Reiterou mordendo a pontinha da língua enquanto lia o nome dos cafés e Lia apenas admirava aquele lindo alfa.
"Uma verdadeira perdição"
Pensou, ou murmurou, já que Ethan deu um pequeno sorrisinho ainda lendo o cardápio.
- ...americano?
Escutou Ethan perguntar ainda com o cardápio em mãos e ela piscou algumas vezes lembrando do assunto em que estavam.
- Não, australiana.
Consertou sentindo curiosidade ao pensar nas possibilidades de reações do moreno ao saber sua nacionalidade.
Porém, o alfa franziu o cenho não entendendo muito bem do que a garota falava, até que lembrou do que diziam antes e riu levemente.
- Uh, estava me referindo ao café mas... isso é bem interessante.
Com um sorriso brincalhão ele viu o rosto de Lia tomar uma tonalidade diferente e os dois riram em sintonia.
Por um momento os olhares se tocaram de maneira diferente fazendo suas íris mudarem de cor e seus corpos resetarem por alguns segundos, ou quem sabe minutos, não tinham noção nenhuma de tempo alí.
- Você... você sente isso também, não é?
Dessa vez tomando a iniciativa, o alfa gaguejou um pouco ao tomar um rumo mais sério naquela conversa que estava meramente inofensiva desde o início.
- O quê?
Eram tantas coisas que Lia estava sentindo que se Ethan não fosse mais específico ele teria sérios problemas para adivinhar.
Foi quando o moreno, em um fôlego só, estendeu sua mão de dedos brutos e pegou a delicada mão dela e levando a mesma até seu peito e pressionou a mesma alí.
A corrente elétrica que correu pelo corpo dos dois foi tão grande que certamente seria capaz de acender uma usina inteira.
Lia engoliu a seco ao sentir os batimentos fortes e rápidos sob seus dedos assim como os seus também corriam e, quase que de maneira milagrosa, os dois estavam em sintonia, como se fizessem parte de um corpo só.
- Veja você mesmo.
Lia fez o mesmo movimento para que Ethan sentisse seus batimentos idênticos aos dela e, em poucos segundos, os olhos do alfa se arregalaram.
- Isso é inacreditável.
Ethan exclamou assustado enquanto ela riu gostando agora da sensação da mão pesada do alfa naquele local, então colocou sua mão livre sobre a mesma e ergueu seus olhos para encará-lo.
- Incrível, eu diria.
Respondeu em um sussurro que somente Ethan era capaz de ouvir.