17:47PM
Ethan Wood suava.
De calor, nervoso, irritação, medo.
Tudo isso junto.
Parecia que se ele segurasse algo de vidro esse objeto no segundo seguinte já estaria espatifado no chão de tão escorregadias as suas mãos naquele momento.
- Vamos... não é possível, cadê sua confiança, homem?!
Se encarou no espelho do banheiro de alfas e suspirou percebendo que talvez a maneira despojada que ele costumava sair de seu trabalho assustasse um pouco a garota.
Mas quem poderia culpá-lo?
Ele iria do trabalho direto para a academia, e lá ele não gostava de perder nenhum segundo sequer trocando de roupas.
Contudo, não teria sido melhor ir de roupas sociais ver o menor e perder alguns minutos hoje?
Não.
Ethan Wood, seja forte, o alfa que nasceu para ser.
Se ela for a ômega certa ela vai gostar de você do jeito que você é.
Tentou se convencer inutilmente enquanto se analisava mais uma vez antes de sair.
Estava com uma bermuda preta de lycra por debaixo de uma mais curta de tactel da mesma cor para dar mais movimento, mas isso dava mais volume às suas pernas grossas, usava uma blusa vermelha larga e um pouco aberta dos lados mas que por ser de polielastano acabava dando mais volume ao seu peitoral.
Queria bater com sua cabeça na parede.
Ele normalmente usava essas roupas para chamar a atenção na academia, ostentar seu físico perfeito, ver betas e ômegas suspirando por si e ver alfas o invejando. Mas hoje não era um bom dia para isso.
- Tinha que ser a troga da blusa vermelha?!
Choramingou vendo que se puxasse um pouco a blusa, até mesmo os gominhos de seu abdômen ficavam marcados.
E se Lia achasse que ele era um pervertido maluco? E se ela não gostasse de seu físico malhado desse jeito?
"Devo vestir a roupa do trabalho novamente?"
Parou para pensar por um segundo olhando para a sua bolsa mas logo afastou esses pensamentos se sentando para calçar o tênis preto de corrida.
- Força, Ethan! Você é um alfa ou um rato?!
Perguntou para si mesmo enquanto colocava os óculos de armação transparente no rosto e respirou fundo jogando os cabelos escuros para trás.
- Definitivamente um rato.
Respondeu baixinho sentindo seu estômago doer pelo nervosismo.
Provavelmente seu chefe encrencaria por ele ter saído 20 minutos mais cedo, Chan brigaria com ele por não ter se despedido e ele certamente desmaiaria no meio do caminho, mas não custava nada tentar.
Ele ao menos tentaria.
- Tão linda... parece uma princesa!
O beta exclamou após terminar de prender as laterais das madeixas douradas da australiana deixando apenas alguns fios de sua franja soltos junto com o resto de seu cabelo.
Sim, eles lavaram o cabelo da pobre ômega na pia do banheiro, mas isso não vem ao caso.
- Você não vai passar base antes?
Perguntou a garota ao ver que Johnny passara o iluminador nas maçãs de seu rosto e ao longo de seu nariz sem nem mesmo preparar sua pele antes.
Mas perguntar aquilo foi quase como uma ofensa para o outro que franziu o cenho levando as duas mãos ao peito.
- E cometer o crime de cobrir suas preciosas sardas?! Jamais!
Lia riu sem crer que havia deixado Johnny retirar sua maquiagem de todos os dias que cobria bem as imperfeições daquela área para ficar praticamente de "rosto nu" para o alfa.
- Meu rosto vai ficar horrível, Johnny!
Lamuriou não gostando nada de ver sua pele morena e toda salpicadinha em pintinhas exposta daquela maneira, e só de pensar que seria vista por Ethan assim já sentia vontade de chorar.
- Se falar isso mais uma vez eu vou te matar.
Respondeu Johnny encarando a loira pelo espelho colocando argolinhas douradas nos furos existentes das orelhas delicadas de Lia.
Às vezes Johnny ria pela contradição que era sua amiga.
Tinha uma voz rouca e baixa, olhos marcantes, corpo forte, mas orelhas delicadas e mãos igualmente delicadas, assim como seu coração enorme e frágil.
Não gostava de bebidas fortes e nada amargo, sempre optando pelo doce, assim como a maioria dos ômegas.
Entretanto, gostava de fazer serviços braçais, correr nas tardes de domingo e às vezes ir jogar vôlei com Johnny e alguns amigos próximos.
Bem, na verdade Johnny não jogava, ia mais para ficar observando os lindos homens betas e alfas jogando suados e exalando testosterona.
Mas Lia parecia não se importar muito com isso, já que sempre que podia mostrava que não sentia nada com relação a diferença de castas.
Contudo, o beta vinha sentindo que ela já não estava mais como antes já faziam alguns meses.
Era como se a força que Lia tinha estivesse se esvaindo aos poucos, o que fazia ele suspeitar que a garota estivesse nos primeiros sintomas de solidão lupina.
Mas como ele faria para que sua amiga fosse se consultar com um médico sem magoá-lo? Ele sabia bem que ela tinha problemas com confiança depois que se machucou tanto em relacionamentos fracassados.
A única coisa que ele podia fazer era esperar e enviar todas as energias positivas que podia para Lia.
Coisa que aparentemente funcionou.
- Devo considerar isso como perigoso ou só fofinho?
Respondeu a ômega com um pequeno sorriso para o amigo que estava de rosto emburrado.
Ele não gostava de ver seus amigos se diminuindo, muito menos quando se tratava de alguém tão linda quanto Lia.
- Levanta logo daí, em seu alfa já deve estar chegando!
Johnny deu dois tapinhas no ombro de sua amiga antes que a expressão tranquila dela fosse substituída por uma de puro terror.
Nem mesmo se ligou que já estava aceitando o fato de Johnny se referindo a Ethan como "seu alfa".
Algo que no momento não importava, já que ela estava tão nervosa que nem sentia mais nada.
- O que está fazendo aqui? Não está quase na hora de você sair?
Minnie, uma das ômegas atendentes que substituía Johnny e Lia, perguntou alarmada quando viu a loira voltar ao seu posto de sempre amarrando o avental na cintura com a destreza do costume.
- Shiiiu, caladinha e o bônus da semana é seu!
Johnny, que estava do outro lado da garota, também colocava seu avental e com essa sua fala murmurada ele fez a chinesa sorrir bem interessada.
- Uh, agora falou minha língua! Fiquem a vontade, meninoss...
Cantarolou tirando seu avental de serviço e indo colocar o de cozinha para assumir o lugar que agora deveria estar sendo ocupado por Johnny.
- Agora é só agir naturalmente e não falar merda.
Pontuou o beta fatiando o bolo que ele mesmo assou mais cedo e servido uma das fatias para uma cliente.
Lia engoliu a seco organizando os copos descartáveis no porta copos e respirou fundo.
- Okay, agir naturalmente e não falar merda.
Repetiu confiante para si mesma.
Do outro lado do quarteirão, um alfa totalmente nervoso e suado deixava sua bolsa dentro do carro saindo apenas com seu cartão de crédito, celular e airpods.
Prendendo o aparelho no braço pelo porta celular, ele colocou sua música favorita de correr e começou a trotar lentamente em direção à cafeteria.
Normalmente aquele caminho era trilhado por ele tão vagarosamente que pareciam quilômetros de distância, mas um quarteirão nunca pareceu tão minúsculo quanto agora, já que sua corridinha não se extendeu por mais de cinco minutos.
Suas costas suavam do pequeno exercício, suas mãos suavam do nervosismo e sua testa suava daquele calor infernal que seu corpo emanava.
Não sabia o motivo, mas sabia que ao menos o último desses três seria amenizado ao ver Lia. Talvez de forma indireta ele sabia que seu lobo estava de pirraça por não ter ela logo para si, mas ele precisava entender que as coisas não eram tão simples assim.
Não era como se ele pudesse chegar logo na ômega a beijando como se não tivesse amanhã, mesmo que essa fosse sua vontade.
Seu pescoço, braços, pernas, rosto e pés estavam quentes.
Uma corridinha amena de cinco minutos nunca fora tão bem aproveitada e tão cansativa quanto naquele momento. Fato esse que era deveras esquisito para o moreno que estava mais do que acostumado a correr, só começando a suar de verdade após meia hora em ritmo intenso.
- Chegou a hora, Ethan. Foco!
Ele parou do outro lado da rua encarando a cafeteria de decoração aconchegante que o aguardava.