se conhecendo

1146 Words
Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos após a pergunta. — Você é solteira? Tem namorado? Casada? A voz dele saiu firme, direta, sem rodeios. Linda respirou fundo antes de responder, mantendo a postura calma, mas honesta. — Não, senhor. Eu tenho 23 anos. Tinha um namorado, mas já faz um ano e pouco que nos separamos. Não tenho ficante, nada disso. Ela ajeitou a bolsa no colo, como se organizasse os próprios pensamentos. — Minha vida é trabalhar, estudar e ir pra casa. Eu moro sozinha. Ele a observava com atenção agora, sem interromper. — Meus pais são advogado e médica — ela continuou, mais solta — minha irmã é professora, meu irmão é bancário… e eu sou considerada meio “doida” por seguir uma carreira diferente. Um leve sorriso passou pelos lábios dela, quase irônico. — No começo eles me julgavam bastante, mas depois que viram que eu tava conseguindo crescer, ganhar espaço… eles mudaram. Hoje me aceitam, me apoiam mais. Ela abriu a bolsa e, sem cerimônia, tirou uma revista dobrada. — Aqui… Ela entregou pra ele. Ele pegou, ainda sem entender muito, e abriu. As páginas mostravam Linda em campanhas de moda. Joias brilhando no pescoço fino, brincos elegantes, maquiagem impecável. Em outras fotos, ela aparecia com vestidos sofisticados, salto alto, poses fortes, seguras. E em algumas campanhas de biquíni, mas sempre com estética de moda, profissional, nada vulgar. Os olhos dele percorreram cada página com mais atenção do que ele gostaria de demonstrar. Ele virou mais uma folha… depois outra. E por um instante, o ambiente pareceu mudar. Linda ali, na vida real, simples, quieta… e a versão dela nas fotos parecia outra pessoa: forte, confiante, quase inalcançável. Ele fechou a revista lentamente e devolveu pra ela. Ela ajeitou o material de volta na bolsa e disse, com naturalidade: — Bom… esse é meu trabalho, senhor. Além de dançarina. O silêncio entre os dois ficou mais pesado. Mas agora não era desconforto. Era impacto. O corredor do hospital era longo, iluminado demais, com aquele cheiro frio de antisséptico que deixava tudo ainda mais real. A avó dele estava em observação no quarto, e por alguns minutos eles tinham saído para o lado de fora, ficando sozinhos naquele silêncio cheio de tensão. Ele encostou na parede, passou a mão pela nuca e soltou o ar devagar. Linda ficou de pé a alguns passos, ainda segurando a bolsa com firmeza, como se aquilo fosse a única coisa que a mantinha no controle da situação. Ele quebrou o silêncio primeiro. — Você falou bastante de você… Ela ergueu o olhar pra ele. Ele continuou, a voz baixa, mais controlada. — Então acho justo eu falar de mim também. Ele respirou fundo antes de prosseguir. — Meu nome é Daniel Brown. Eu cuido das empresas da minha família. Construção, investimentos… negócios grandes. Ele deu um leve sorriso sem humor, mais cansado do que orgulhoso. — Minha vida é basicamente trabalho. Reunião, pressão, decisão o tempo todo. Não é uma vida muito leve. Linda ouvia em silêncio, sem interromper. Ele desviou o olhar por um segundo, como se o assunto seguinte fosse mais difícil. — Minha avó… é a única pessoa que realmente me mantém com os pés no chão. Um leve traço de emoção passou pela voz dele, mas ele disfarçou rápido. — Ela fala demais, se mete demais… mas hoje, se não fosse você, talvez eu nem estivesse aqui lidando com ela me obrigando a casar com alguém no meio de um hospital. Ele soltou um ar curto pelo nariz, quase um riso. E então finalmente olhou pra ela. — Eu não sou bom com esse tipo de coisa. Relacionamento, essas situações. A sinceridade veio sem filtro. — Isso que aconteceu hoje… não foi planejado. Foi impulso dela. Um segundo de pausa. O olhar dele ficou mais firme. — Mas eu também não costumo ignorar quem ajuda minha família. O corredor pareceu ficar mais silencioso ainda. Ele deu um passo leve na direção dela, sem invadir, mas diminuindo a distância. — E você… claramente não é o tipo de pessoa que passa despercebida. Ela respirou fundo, mantendo a postura firme, mesmo com o coração acelerado. — Olha, senhor Daniel… eu gostei da sua sinceridade, tá? Ele ficou em silêncio, observando. Ela continuou, direta, sem hesitar: — E tá tudo bem. Se o senhor quiser seguir com isso do casamento e tudo mais, tudo bem pra mim. Ela ajeitou a alça da bolsa no ombro. — Eu não quero dinheiro nenhum, tá? E vou manter meu sobrenome. Eu não preciso usar o seu pra depois ficar dependendo de nada da sua família. O olhar dela se manteve firme nele. — Eu não quero nada disso. Ela deu um leve passo de lado, como se organizasse o pensamento. — Eu vou continuar com a minha vida normal. Vou morar na minha casa. Se em algum momento eu precisar ir pra sua casa, eu vou, entendeu? Só pra cumprir o papel, pra ajudar sua avó, pra manter a situação. Ela fez uma pausa curta, antes de completar: — Mas não precisa existir relacionamento nenhum entre nós. Nada de casal. Nada disso. Só aparência quando estiver perto da sua família. O corredor pareceu ainda mais silencioso enquanto ela falava. — Minha família não precisa saber de nada. Eles me apoiam, sim, mas não precisam se envolver nisso. Vai ser só com a sua família. Ela o encarou mais uma vez. — E você pode determinar o prazo. Três meses, cinco, seis… o que o senhor achar melhor. A gente faz isso de forma organizada. Ela respirou fundo, mais tranquila agora, como se tivesse colocado tudo em ordem. — Eu só vou seguir o que o senhor decidir. Ele continuou olhando pra ela, sem dizer nada de imediato. Ela achou que ele fosse responder… mas ele ainda ficou em silêncio por alguns segundos. Até que ele finalmente falou, a voz baixa, mais séria do que antes: — Eu sou solteiro. Ela assentiu, ouvindo. Ele continuou: — Já tentei me envolver com alguém… mas hoje não tenho nada sério com ninguém. Minha vida não permite isso. Um segundo de pausa. Ele então completou, olhando direto pra ela: — E sobre isso que você falou… de liberdade, de ficar com quem quiser, de não ter regra… Ele respirou fundo. — Isso não é necessário. Ela franziu levemente a testa. Ele deu um leve passo mais perto, ainda respeitando o espaço dela. — Se isso vai acontecer… vai ser do jeito certo. Não como uma farsa vazia. O olhar dele ficou mais firme. — E eu também não sou o tipo de homem que entra num acordo onde tudo é “indiferença”. O silêncio entre eles pesou. Diferente. Carregado. E pela primeira vez, aquilo não parecia apenas um contrato improvisado. Mas algo que ele também não sabia exatamente nomear.
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